
Quando se olha para o grande arco da história, custa a evitar uma conclusão incómoda: em Fevereiro de 2002, naquele lugar onde a guerra se fechou sobre si mesma, a UNITA e Dr. Jonas Malheiro Savimbi obtiveram, em termos estratégicos e de memória, uma vitória que o calendário não sabe medir.
Parece paradoxal, quase indecifrível, mas o tempo, que costuma desgastar tudo, aqui fez um trabalho inverso: poliu a imagem, fixou o gesto, conservou a voz.
Anos depois, basta abrir o TikTok, o YouTube, o Facebook, qualquer dessas praças digitais onde a curiosidade circula sem pedir licença, e lá estão fragmentos de Dr. Jonas Malheiro Savimbi a falar de administração, de nacionalismo, de corrupção, de literatura, de economia, como se ainda estivesse sentado à mesa do seu próprio tempo, com a frase pronta e o raciocínio afiado.
Alguém, algures, guardou essas gravações; alguém as recortou, as fez viajar. Ele permanece suspenso, congelado nessa altura, quase separado do que a própria UNITA viria a ser depois. E é precisamente essa separação que alimenta o poder do mito: ele não precisa de prestar contas ao presente.
Mandela saiu vivo da prisão e, pouco depois, foi chamado a conduzir o seu país. Mugabe atravessou a prisão e a guerra de libertação e, a seguir, sentou-se na cadeira do poder. Dr. Jonas Malheiro Savimbi, pelo contrário, morreu. E é precisamente aí, no desfecho sem transição, que a UNITA recebe aquilo que a política raramente oferece de graça: carne e mito.
Um mito é uma ferramenta dura, eficaz, quase indestrutível. Propaga-se como padrão que se repete: volta e meia reaparece, muda de escala, encontra novas bocas, novas telas, novas idades.
Os mais novos projectam-se nele e projectam-no em si mesmos; vêem nele a obstinação, a coragem de quem escolheu pagar com a própria vida, e tudo o resto (as sombras, as ambiguidades, as responsabilidades e as falhas) é empurrado para fora do quadro.
É assim que o mito trabalha: ilumina, simplifica, absolve. E, quando funciona, oferece à organização que o herda um presente perigoso e magnífico, porque mobiliza sem precisar de provar.
Por isso a pergunta insiste, incómoda, quase inevitável, quando se olha para o panorama geral da nossa história recente: das forças políticas que atravessaram a luta e a independência, qual delas possui hoje um mito com esta densidade, esta capacidade de recrutar imaginação, esta força de permanecer de pé mesmo quando os factos se tornam difíceis?
E se não o têm, como competem com quem o tem? Porque num terreno onde a memória funciona como combustível, a ausência de mito não é apenas uma fragilidade simbólica; é uma desvantagem política concreta.
A UNITA, convém dizê-lo sem nostalgia nem insulto, tornou-se um animal diferente daquele que Dr. Jonas Malheiro Savimbi fundou em 1966, no Leste de Angola; diferente daquele que comandou na guerra e na guerra civil; diferente, sobretudo, daquele que, nos últimos anos antes de Fevereiro de 2002, parecia viver com dificuldade, como quem resiste mais por nervo do que por margem. Sobreviveu, sim. Mas sobreviveu transformada.
Hoje é, no sentido pleno, um partido político. E um partido, quando entra na idade adulta, ganha dimensões novas e perde certas simplicidades antigas. Cresce, faz concessões, aprende a ser porto, a acolher gente e expectativas que não eram, sociologicamente, o seu terreno natural; desloca-se para outros bairros do país e para outros climas da opinião.
Exige uma linguagem menos de trincheira e mais de administração; exige uma cultura organizacional que se apresente como governo possível. Uma nação que muda, que se urbaniza, que se cansa, que quer resultados, que desconfia e, ao mesmo tempo, precisa de acreditar, não se contenta com retórica de fundação. Quer provas, quer competência, quer alternativa credível.
Dr. Jonas Malheiro Savimbi nunca teve de gerir esta UNITA da nova dispensação. Não precisou de enfrentar, no quotidiano, os problemas de um aparelho que disputa eleições, negocia alianças, disciplina ambições internas, fabrica quadros, promete políticas públicas e depois é cobrado por elas.
Ele fica, por isso, no lugar onde o mito é mais confortável: fixo, inteiro, sem a poeira dos relatórios e sem o desgaste dos compromissos. E, enquanto ele permanece nesse pedestal da memória, os líderes que vieram depois têm de navegar com dois mares ao mesmo tempo: as águas políticas novas, com as suas regras e a sua exposição constante, e a turbulência antiga, feita de feridas, suspeitas e rivalidades que não desaparecem só porque a história mudou de roupa.
Mesmo com todas as suas falhas, o estilo de liderança de Dr. Jonas Malheiro Savimbi também ajuda a explicar a sobrevivência da UNITA. Havia nele um lado autoritário, por vezes duro, por vezes já perto do arbitrário, com a exigência de uma linha única e a tentação do centro absoluto. Mas coexistia com isso uma outra face, menos citada e, talvez, mais decisiva: uma face managerial, técnica, quase científica.
Ele tinha verdadeira curiosidade por talento. Gostava de capacidade demonstrada, de gente que soubesse executar, montar, organizar, medir, corrigir. E, mesmo quando empurrava o partido para a gravidade de uma figura singular, tratava de garantir, com discrição e método, que a competência técnica não fosse esmagada.
Havia sempre, por baixo da retórica e do comando, um cuidado em preservar procedimentos, rotinas, uma burocracia mínima, uma cadeia de responsabilidades, uma disciplina que não era apenas de obediência, mas de estrutura.
Isso não era acaso. Era convicção. Dr. Jonas Malheiro Savimbi acreditava que um dia a UNITA chegaria ao poder; e que, no poder, a sobrevivência não se faz de slogans, faz-se de mecanismos.
Daí a importância atribuída às engrenagens internas, ao respeito pelos órgãos do partido, ao hábito de funcionar como se o Estado estivesse à porta. Não era uma democracia interna, mas era uma ordem operacional, e isso fez diferença no dia seguinte à sua morte.
E é aqui que se percebe o efeito tardio dessa arquitectura. Depois da sua morte, havia um desenho, um guião, um conjunto de travões e contrapesos suficiente para dificultar que um só homem, ou um pequeno grupo, capturasse por inteiro a organização.
Não eliminou conflitos, nem impediu turbulências, mas deixou um esqueleto institucional que permitiu à UNITA continuar a existir como casa disputada por correntes, interesses e sensibilidades.
Em certo sentido, foi esse esqueleto institucional que facilitou a pluralidade interna, justo quando já não existia o fundador para impor a unidade pela força da presença.
E aqui reside a ironia final: a mesma figura que, em vida, concentrava o poder de forma quase absoluta, deixou atrás de si uma estrutura suficientemente sólida para impedir que outro fizesse o mesmo.
O legado de Savimbi não é apenas o mito; é também a máquina. E é a combinação dos dois (o mito que mobiliza e a máquina que dura) que explica como a UNITA sobreviveu à morte do fundador, enquanto tantos outros movimentos de libertação africanos não sobreviveram à passagem dos seus.
*Jornalista e escritor