
Acordámos num ano pré-eleitoral, em que as baterias dos partidos políticos estão a ser afinadas para o arranque das eleições de 2027. Tudo pronto e ao rubro, os fantasmas do passado ressurgem sobre as reais capacidades da oposição de tomar o poder face à pretensa vontade manifestada em cada ciclo eleitoral, porém desafiadora. Um novo pleito eleitoral avizinha‑se; um novo desafio político torna‑se presente.
A máxima «o poder tem um preço» não é meramente retórica no contexto angolano; é uma variável econométrica e sociológica fundamental.
À medida que o ciclo político se aproxima do horizonte de 2027, a dinâmica partidária em Angola revela uma assimetria estrutural em que a capacidade de mobilização, a logística e a sobrevivência institucional estão intrinsecamente ligadas ao acesso a recursos financeiros e ao aparelho de Estado.
No sistema político angolano, a sobrevivência dos partidos depende, em grande medida, das subvenções estatais. Contudo, a legislação e a prática política criam um cenário de desvantagem comparativa para a oposição:
Dependência do Orçamento Geral do Estado (OGE): enquanto os partidos da oposição lutam com orçamentos cronicamente deficitários e atrasos nos repasses, o partido no poder beneficia de uma simbiose histórica com as finanças públicas.
O “preço” da campanha: o custo de uma campanha nacional em Angola — um país com infraestrutura logística complexa e vasta extensão territorial — é proibitivo para quem não detém o controlo dos meios de transporte e de comunicação estatais.
O MPLA não entra na corrida apenas como um competidor, mas como o próprio gestor da pista. A sua vantagem sobre os demais contendores assenta em três pilares:
Controlo do aparelho administrativo: a capilaridade do partido funde‑se com a administração local, permitindo um alcance que nenhum outro partido consegue replicar, desde as comunas mais recônditas até aos grandes centros urbanos.
Narrativa de estabilidade: o MPLA capitaliza o medo da incerteza, posicionando‑se como a única força capaz de manter a coesão nacional, apesar das críticas à gestão económica.
Resiliência financeira: o acesso a redes de financiamento que transcendem o OGE permite ao partido «pagar o preço» de manter uma máquina partidária lubrificada e presente em todo o território.
Apesar da união em torno da vontade manifestada de alcançar o poder por parte dos partidos políticos, a oposição apresenta fragilidades que o realismo político não pode ignorar:
Crise de identidade e de estrutura: partidos como a UNITA, embora fortes na contestação urbana, enfrentam dificuldades em transformar o descontentamento popular em infraestrutura de fiscalização eleitoral eficaz.
Falta de músculo financeiro: sem a capacidade de financiar quadros a tempo inteiro ou manter sedes funcionais em todas as províncias, a oposição torna‑se reativa, enquanto o MPLA se mostra proativo.
Fragmentação estratégica: a legalização de novos projetos políticos e a dissidência interna em pequenos partidos fragmentam o voto da oposição, favorecendo quem tem a base mais consolidada.
Embora o descontentamento social seja visível — vontade de alternância política —, a ciência política ensina que «vontade de mudança» não é sinónimo de «capacidade de mudança», o real preço do poder.
O vaticínio de uma vitória do MPLA em 2027 baseia‑se na incapacidade estrutural da oposição de suportar o custo logístico e institucional necessário para derrotar uma hegemonia de cinco décadas.
A oposição angolana parece estar pronta para «querer» o poder, mas não demonstra estar preparada para pagar e ter o poder face ao domínio institucional do regime.
Sem uma reforma profunda do sistema de financiamento e uma despartidarização real do Estado, as eleições de 2027 tendem a ser uma reafirmação do status quo.
O poder em Angola tem, de facto, um preço. É um preço pago em dólares, em logística e em influências. Enquanto o MPLA detiver as chaves do cofre e do Estado, a oposição continuará a ser um espectador ruidoso, mas financeiramente incapaz de arcar com o preço do leilão do poder.
*Jurista