
Quando decidimos escrever sobre os Craques da Combal, fizemo-lo conscientes de que muitos se reveriam e outros teriam uma visão diferente. E é mesmo assim na vida, sobretudo em democracia. Escrever para intelectuais nunca foi tarefa fácil, mas é desafiante.
Não existem ideias acabadas. Como não se trata de matemática, em que 1+1=2, sabíamos também que teríamos visões e alcances diferentes sobre o mesmo assunto. No entanto, nada nos impede de prosseguirmos com a nossa memória.
Na antecâmara da homenagem que será feita pelo Programa “Recordar é Viver” da Rádio-5 (do Grupo Rádio Nacional de Angola), conduzido pelo experiente jornalista Domingos Kitumba “Amany”, voltamos hoje com alguns nomes que marcaram, em épocas diferentes, os Craques da Combal. É a nossa visão dos factos!
Os Craques da Combal, sobretudo a primeira geração — formada por Raúl, Chiquito “Adão Borralho”, Mitinho, Do ASA (da rua 17), Simão “Chefe Simpson”, Camarinho, Ferreira e Graça (guarda-redes, da rua 13) —, impactaram a massificação do futebol no Rangel, com resultados positivos fora das fronteiras do município e até do país.
Eles inspiraram gerações que deram sequência a uma caminhada que teve como precursor Pedrito “Pilon” (da rua 14) e que foi continuada pelo Mister Bento, o grande homenageado da semana.
Destas gerações saltam à vista nomes como os de Tino Mandengo, Lito Maradona, Lito Vemba, Luisito, Guigui e o grande Selu — meu kota do peito, a quem nutro grande respeito e simpatia (e sei que é recíproco). É importante referir que o Selu esteve na transição da primeira para a segunda geração, salvo melhor análise.
Mais tarde, representou os Rodoviários antes de zarpar para a “Tuga” (Portugal).Recordamos ainda: Mário, Luizão, Moisés, Don Elísio, Don Victor, Pimpom, Zino, Murtala, Rocha (o homem do pé forte), Gino, Senegal, Maninho Loide, Titi, Bito, Mabo, Jorge, Bravo, Kudy, Mantchiro, Amorrossy, Yuri Paim (grande amigo) e Falhado (em memória).
Grande parte dos nomes citados vivia na Terra Nova, designadamente nas ruas do Alentejo, do Douro, das Beiras e não só. Vale a pena recordar também Zé Caiosso (um visitante habitual da rua 11), Tatao e Adão Truquila (da rua 14).E o Menade, claro.
O Menade enchia o campo, jogava muito bem. Sei que andou à experiência no 1.º de Agosto no princípio da década de 90 (por volta de 93/94). Depois, voltei a vê-lo nos jogos das Unidades da Força Aérea, em Luanda.
Apesar da pouca idade, alguns jogadores já demonstravam dotes refinados no trato com a bola. Ainda assim, o técnico era muito exigente. Muito exigente mesmo, ao ponto de o meu primo Eduardinho (da rua de Díli), apesar de ser um mestre da bola, ter sempre receio de ir treinar à Combal.
O Eduardinho brincava com a bola, tratava-a por tu, mas lembro-me de que nunca teve coragem de ir até à estação e responder aos pedidos do Mister Bento para integrar a equipa.
Mas é na disciplina que se forjam os grandes homens. Assim foi com muitos antigos jogadores da Combal, que tiveram de aturar os berros do Mister Bento, que mais parecia um pai para muitos deles.
No final de cada treino, os jogadores levavam as balizas até à casa do Mister Bento, bem na ponta da rua 12, e por lá passavam as noites!
Até os prémios de cada jogo — que eram pacotes de bolachas e de massa alimentar — demonstram bem que era uma geração ainda longe de bens materiais e de apegos a coisas fúteis. Havia rigor, mas também já existia alguma “exposição mediática”, que funcionava como passe de acesso para lugares públicos do bairro e até para conquistar uma dama.
Quem não queria estar com um Craque da Combal? Só as manas podem responder.Todavia, deixaram o vosso perfume em campo, exemplos bem seguidos por gerações que nasceram depois de 1990 e que brilharam em diversos estádios deste país. Os Craques da Combal ficarão para sempre na minha memória!
*Jornalista