
A legalização do partido político PRA-JA Servir Angola, liderado por Abel Epalanga Chivukuvuku, em outubro de 2024, marca um ponto significativo na política angolana. Este evento pode ser interpretado como o golpe final para a Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral (CASA-CE), que desde 2019 tem enfrentado um declínio notório e irreversível.
A experiência política de Abel Chivukuvuku, forjada na UNITA sob a liderança de Jonas Savimbi, foi crucial para o sucesso inicial da CASA-CE. A sua capacidade de unir diferentes facções e moldar uma mensagem política coerente deu vida à coligação, que rapidamente se destacou no panorama político de Angola.
Contudo, após o afastamento de Chivukuvuku, a CASA-CE perdeu ímpeto e relevância. Sob a liderança de Manuel Fernandes, os resultados eleitorais de 2022 foram catastróficos, com a coligação a não conseguir eleger sequer um deputado.
A ascensão e queda da CASA-CE
Fundada em 2012, sob a liderança de Chivukuvuku, a CASA-CE surgiu como uma plataforma promissora e ousada, unindo partidos políticos menores e com pouca expressão, como o PALMA, PADDA-AP, PPA e PNSA.
A coligação ganhou força ao incluir figuras proeminentes, como o general na reforma André Mendes de Carvalho “Miau”, bem como antigos membros do MPLA e da UNITA, conferindo-lhe um carácter abrangente e apelativo.
Nas eleições de 2012, a CASA-CE obteve 6% dos votos, conquistando oito assentos parlamentares e consolidando-se como uma alternativa viável às forças políticas dominantes, o MPLA e a UNITA.
Em 2017, sob a liderança firme e carismática de Chivukuvuku, a coligação alcançou o seu auge, duplicando o número de deputados e tornando-se a terceira maior força no Parlamento angolano.
O sucesso inicial trouxe consigo divisões internas. As tensões entre Chivukuvuku e os líderes dos partidos integrantes intensificaram-se, alimentadas por acusações de má gestão financeira e suspeitas de que o líder pretendia transformar a CASA-CE num partido único sob o seu comando.
Estas disputas culminaram na destituição de Chivukuvuku em 2019, sob a alegação de “falta de confiança política”. Este afastamento revelou-se desastroso para a coligação, que perdeu não apenas o dinamismo, mas também o apoio de muitos dos seus membros e eleitores.
A crise foi exacerbada pela escolha de André Mendes de Carvalho, “Miau”, como sucessor de Chivukuvuku, e, posteriormente, por Manuel Fernandes. Estas mudanças de liderança aprofundaram as divisões, deixando a coligação sem força nem direcção.
Após o seu afastamento da CASA-CE, Abel Chivukuvuku dedicou-se à criação de um novo projecto político, o PRA-JA Servir Angola, anunciado em 2019. Desde o início, o partido enfrentou inúmeros obstáculos, incluindo rejeições consecutivas pelo Tribunal Constitucional.
Muitos acreditam que o bloqueio foi resultado de pressões políticas. Durante cinco anos, Chivukuvuku enfrentou campanhas difamatórias lideradas por antigos aliados, como Manuel Fernandes e Alexandre Sebastião André, que viam o PRA-JA como uma ameaça.
Apesar das adversidades, Chivukuvuku perseverou. Em 2023, apresentou um novo pedido de legalização com 8.000 assinaturas, superando os requisitos legais. Finalmente, em Outubro do ano em curso, o partido foi aprovado, marcando uma vitória pessoal e política para Chivukuvuku.
Enquanto o PRA-JA emerge como uma força política promissora, a CASA-CE enfrenta o seu declínio definitivo. Nas eleições de 2022, sob a liderança de Manuel Fernandes, a coligação obteve apenas 47.446 votos, ficando em sexto lugar e perdendo todos os seus assentos parlamentares.
O declínio da CASA-CE é uma lição política. A falta de coesão interna e a ausência de uma liderança visionária demonstraram ser fatais para a coligação. Sem Chivukuvuku, a CASA-CE perdeu a sua identidade e relevância na política angolana.
Por outro lado, o PRA-JA surge como parte da Frente Patriótica Unida (FPU), ao lado da UNITA e do Bloco Democrático. Sob a coordenação de Adalberto Costa Júnior, esta plataforma unificada promete revitalizar a oposição e apresentar uma verdadeira alternativa ao MPLA.
O destino da CASA-CE encerra um capítulo importante da história política de Angola. A coligação, que outrora simbolizou a esperança de uma mudança, desmoronou devido a rivalidades internas e à falta de estratégia.
Hoje, o destino da CASA-CE é uma verdadeira aula prática de política para os discentes desta ciência e para a nova geração. Quando Chivukuvuku foi afastado, muitos acreditaram ter resolvido o “problema”. Contudo, como o tempo mostrou, o “problema” era, na verdade, a única solução.
Espero que, em 2027, os protagonistas da Frente Patriótica Unida (FPU) — Adalberto Costa Júnior, Abel Chivukuvuku e Filomeno Vieira Lopes — unam esforços e transformem esta aliança numa coligação política sólida e eficaz, capaz de derrubar o partido no poder, que conduziu o país ao abismo, mergulhando a população numa pobreza extrema que a transformou em mendigos na sua própria terra.
*Jornalista e Jurista