
Os argumentos apresentados pelo Ministério Público (MP) contra os dois cidadãos russos detidos em Luanda e os seus coarguidos angolanos estão a gerar crescente contestação, face ao que diversas fontes, consultados pelo Imparcial Press, consideram serem contradições, extrapolações e ilações sem suporte factual claro.
Segundo a acusação, datada de 26 de Novembro, os russos Igor Rotchin Mihailovich e Lev Matveevich Lakshtanov, juntamente com os angolanos Amor Carlos Tomé e Oliveira Francisco, pretenderiam “desestabilizar o país”, influenciar a liderança do MPLA e até “conduzir o partido UNITA ao poder”, com o objectivo final de instalar um Presidente alegadamente alinhado com Moscovo.
A acusação associa os detidos a estruturas paramilitares herdeiras do Grupo Wagner, afirmando que a suposta rede operava em Angola sob a denominação “Angola Politology”, com acções de guerra informacional, espionagem e infiltração política.
No entanto, críticos apontam que, até agora, nenhum elemento apresentado demonstra acções concretas ou violentas, baseando-se sobretudo em interpretações de contactos políticos, reuniões públicas e conversas informais.
Entre os pontos mais contestados estão os encontros entre os arguidos e figuras públicas da UNITA e do MPLA, incluindo Manuel Armando da Costa Ekuikui, ou se preferir, Nelito Ekuikui, o general Paulo Lukamba Gato, Adalberto Costa Júnior, Francisco Higino Lopes Carneiro e António Venâncio.
Analistas sublinham que estes contactos são comuns no ambiente político e não configuram, por si só, qualquer actividade ilícita.
Acresce que nenhuma dessas figuras é acusada ou implicada formalmente, o que fragiliza a narrativa sobre uma alegada conspiração organizada.
A acusação vai mais longe ao sugerir que os arguidos tentaram influenciar a greve dos taxistas realizada na última semana de Julho, que resultou na morte de mais de 40 pessoas, baseando-se numa mensagem enviada por Amor Carlos Tomé dias antes com o título “taxistas paralisam em Luanda“.
Especialistas em comunicação digital consideram que tal elemento não constitui prova de planeamento ou articulação operacional, podendo tratar-se apenas de um rascunho ou comentário especulativo.
Apesar da gravidade dos crimes imputados – espionagem, terrorismo, financiamento ao terrorismo e corrupção activa -, a acusação não apresenta provas de fluxos financeiros para fins subversivos, nem descreve qualquer operação clandestina, logística armada ou plano concreto de ataque.
Analistas jurídicos acusam o MP de transformar actividades uma simples consultoria política em supostos actos de “guerra híbrida”, sem demonstrar nexo causal ou intenção criminosa.
Os quatro arguidos permanecem em prisão preventiva desde 7 de Agosto, em condições precárias, em meio a crescentes alertas sobre possível politização do processo penal e uso excessivo da tipificação de terrorismo para silenciar contactos internacionais e actividades públicas de oposição.
Organizações de direitos humanos acompanham o caso com preocupação, advertindo para o risco de que o processo esteja a servir para reforçar narrativas de ameaça externa e dissuadir a contestação interna.