
A expressão «O rei vai nu!» tornou-se uma das mais poderosas metáforas da literatura universal para denunciar a cegueira colectiva perante uma verdade que todos conhecem, mas que poucos têm coragem de proclamar.
A sua origem literária remonta ao conto “As Roupas Novas do Imperador”, publicado em 1837 pelo escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. Na narrativa, dois vigaristas convencem um imperador vaidoso de que são capazes de produzir um tecido extraordinário, invisível aos olhos das pessoas incompetentes ou indignas das funções que exercem.
Na realidade, não fabricam tecido algum. O imperador, os seus ministros e os funcionários da corte, receosos de serem considerados incapazes, fingem admirar vestes que não existem. Cada um protege a mentira do outro, e a mentira colectiva transforma-se numa encenação pública de submissão ao poder.
Chegado o dia da grande parada, o imperador desfila diante do povo, convencido de que a sua magnificência será reconhecida por todos.
Os cortesãos elogiam-lhe as vestes, os funcionários confirmam a beleza do tecido e a multidão acompanha a cerimónia sob o peso das convenções sociais e do medo de contrariar a autoridade. Até que uma criança, sem interesses na manutenção daquela encenação, exclama que o imperador vai nu.
A sua declaração não cria a nudez do soberano; limita-se a revelar aquilo que já existia e que todos tinham aprendido a não reconhecer publicamente.
A força da criança reside na liberdade da sua consciência, enquanto a fraqueza da corte reside na dependência psicológica e material em relação ao imperador.
É esta a profundidade política da expressão «O rei vai nu!». O problema não está apenas no governante que se deixa iludir ou nos que deliberadamente enganam, mas também naqueles que, vendo a realidade, preferem proteger a aparência para preservar os seus interesses.
A metáfora ultrapassa, assim, a literatura e entra no domínio da ética, da política, da cultura e da responsabilidade colectiva. Um poder pode dispor de dinheiro, propaganda, instituições e servidores, mas não consegue transformar indefinidamente a aparência em verdade.
É precisamente neste sentido que a imagem do rei do Bailundo, o histórico Mbalundu, trajado com vestes identificadas com a propaganda de um partido político, suscita uma reflexão que ultrapassa a indumentária de uma pessoa e coloca perante Angola uma questão de dignidade cultural: quando aquele que representa um povo aparece associado à propaganda partidária, quem está, afinal, a vestir quem?
É o rei que se veste para representar o povo ou é o partido que veste simbolicamente o rei para se representar a si próprio?
O ULTRAJE À DIGNIDADE DOS MBALUNDUS
A imagem de um soberano tradicional não é comparável à imagem de um cidadão comum numa actividade política. Um cidadão tem o direito de pertencer a um partido, apoiar uma candidatura, participar numa campanha e defender publicamente as suas convicções.
Um rei, porém, ocupa uma posição simbólica cuja legitimidade histórica assenta na relação com a comunidade que representa, com os seus antepassados, os seus costumes, as suas instituições e a continuidade da sua memória colectiva.
Quando aparece publicamente associado à propaganda de uma organização partidária, sobretudo numa conjuntura de disputa pelo poder, essa imagem deixa de ser apenas pessoal e passa a ser interpretada como uma mensagem sobre a posição política do próprio trono.
É por isso que o episódio, tal como tem sido apresentado e interpretado no espaço público angolano, provoca indignação para além do Bailundo.
O problema não deve ser reduzido à preferência política de um homem, nem à liberdade individual de vestir determinada roupa. A questão fundamental consiste em saber se a dignidade de uma instituição tradicional pode ser utilizada como instrumento de comunicação e legitimação partidária, sem que isso comprometa a sua independência simbólica perante o conjunto da comunidade.
Quando o trono aparece vestido com as cores, as mensagens ou os símbolos de um partido, corre-se o risco de transmitir a ideia de que a autoridade ancestral deixou de estar acima das disputas políticas e passou a integrar uma das suas trincheiras.
O povo Mbalundu tem razões para sentir que a sua dignidade colectiva foi colocada numa situação embaraçosa. Todavia, é necessário distinguir a dignidade do povo da conduta do seu representante.
O povo não perde a sua história porque um soberano toma uma decisão controversa; a sua história é anterior a qualquer reinado e sobreviverá a todos os reis. O que pode ficar comprometido é a confiança na capacidade da instituição de representar, com equidistância, a diversidade de opiniões políticas existentes entre os seus filhos.
Os Mbalundus que apoiam o MPLA, os que apoiam a UNITA, os que simpatizam com outras organizações políticas e os que não pertencem a partido algum continuam a fazer parte da mesma comunidade histórica. Nenhum deles deve sentir que precisa de uma filiação partidária para ser reconhecido como filho legítimo da sua terra.
É neste ponto que a metáfora de Andersen ganha a sua verdadeira dimensão. O rei vai nu quando a sua imagem pública deixa de conseguir esconder a contradição entre a função que simboliza e a posição que aparenta assumir.
Vai nu não porque tenha perdido as vestes materiais, mas porque a indumentária política ameaça expor uma vulnerabilidade institucional: a dificuldade de distinguir a autoridade tradicional, que deve servir a continuidade de um povo, da autoridade partidária, que procura conquistar, exercer ou conservar o poder do Estado.
O que está em causa não é humilhar o rei, mas perguntar se aqueles que o rodeiam compreendem a responsabilidade histórica de preservar a dignidade do trono.
O TRONO MBALUNDU NÃO PERTENCE AO MPLA
O Reino Mbalundu possui uma história que antecede em séculos a actual configuração partidária do Estado angolano. A sua memória histórica está associada a gerações de soberanos, a formas próprias de organização política, a relações diplomáticas, a conflitos, a alianças e a mecanismos tradicionais de continuidade comunitária.
A história do reino, incluindo a resistência à ocupação colonial, demonstra que a sua importância não pode ser reduzida às conveniências de qualquer partido contemporâneo. O Mbalundu existia antes da fundação do MPLA. A sua legitimidade cultural não nasceu de uma decisão de qualquer direcção partidária.
Esta anterioridade histórica impõe uma responsabilidade aos titulares do trono. O rei não recebe apenas um título honorífico, nem ocupa simplesmente um lugar numa cerimónia tradicional. Recebe uma herança que não criou sozinho e que não pode tratar como propriedade particular.
A autoridade tradicional é uma relação de confiança entre os vivos, os antepassados e as gerações futuras. O soberano é, nesse sentido, depositário de uma memória colectiva que deve preservar, mesmo quando as circunstâncias políticas o convidam a tomar partido.
É por isso que o Trono Mbalundu não pode ser confundido com uma extensão do comité provincial, municipal ou local de qualquer partido político. Não é um departamento da estrutura administrativa do MPLA.
Não é um instrumento eleitoral disponível para demonstrar a popularidade de um candidato, legitimar uma campanha ou transmitir a ideia de que uma comunidade tradicional inteira apoia determinada força política.
A sua dignidade reside precisamente na possibilidade de acolher, sob a mesma referência cultural, pessoas que divergem sobre a governação do país.
A questão não é exigir que os reis vivam isolados da sociedade ou se abstenham de toda a reflexão política. As autoridades tradicionais têm o direito de dialogar com o Estado, apresentar reivindicações, defender as suas comunidades e pronunciar-se sobre assuntos de interesse colectivo.
Podem e devem contribuir para a paz, a justiça, a coesão social e o desenvolvimento. O que não devem é permitir que o diálogo institucional se transforme numa representação partidária do trono.
Uma coisa é receber um Presidente da República, um ministro, um governador ou um dirigente da oposição; outra, bem diferente, é oferecer a própria imagem e os símbolos da autoridade ancestral à propaganda de uma das partes.
A OFENSA QUE ULTRAPASSA O BAILUNDO E ALCANÇA O UNIVERSO UMBUNDU
A comunidade Umbundu não é uma realidade uniforme, nem se esgota numa única ombala ou numa única autoridade tradicional. A sua diversidade histórica, linguística e territorial abrange comunidades e identidades como as do Bailundo, do Huambo, dos Seles, dos Tchiyaka, dos Sambo, dos Tchiyumbu e de outras designações e tradições regionais, cada qual com a sua memória e as suas formas de organização.
É precisamente essa diversidade que torna tão importante a preservação das instituições tradicionais como espaços de continuidade cultural, em vez de as converter em instrumentos de alinhamento partidário.
Quando o soberano de um reino de reconhecida importância histórica aparece associado à propaganda de um partido político, a repercussão simbólica pode ultrapassar a comunidade directamente representada pelo trono.
Outros Umbundus podem interpretar o episódio como um sinal de desvalorização da cultura tradicional perante as estratégias contemporâneas de conquista do poder. Podem perguntar-se se as instituições ancestrais estão a ser respeitadas como património colectivo ou utilizadas como elementos decorativos numa disputa que lhes é exterior.
É necessário, contudo, não transformar esta indignação numa afirmação de que todos os Umbundus pensam exactamente da mesma maneira. A diversidade de sentimentos, opiniões e preferências políticas é parte integrante da própria sociedade angolana.
O que pode unir pessoas que divergem politicamente é a exigência de que a cultura de um povo não seja subordinada a qualquer partido político.
A unidade cultural não exige unanimidade eleitoral; exige respeito mútuo e a preservação de instituições que não devem excluir ninguém por causa das suas escolhas políticas.
O ultraje, neste contexto, não deve ser entendido como uma declaração de superioridade de um povo sobre os outros. É a reacção à possibilidade de uma instituição histórica ser instrumentalizada por interesses que não representam necessariamente a totalidade dos seus membros.
A dignidade Mbalundu não depende de ser maior ou menor do que a dignidade Bakongo, Kimbundu, Lunda-Tchokwe, Nganguela ou Nhaneka-Humbi. Todas merecem igual respeito. É essa igualdade de dignidade que torna a questão nacional, em vez de meramente regional.
O QUE PODERÃO SENTIR OS GRANDES REIS DA HISTÓRIA DO MBALUNDU?
Ao evocarmos Ekuikui, Numa, Mutu-ya-Kevela, Kalandula e os demais soberanos que marcaram a história do reino, não pretendemos atribuir-lhes palavras que não pronunciaram, nem presumir qual seria a sua posição perante as disputas partidárias do século XXI no seio do MPLA.
O exercício é histórico e moral: perguntar que sentido teria a sua herança se a autoridade que hoje ocupa o trono deixasse de distinguir a representação do povo da propaganda do MPLA.
Ekuikui II ocupa um lugar de destaque na memória do Mbalundu, associado à capacidade de condução política, às relações diplomáticas e à resistência perante a pressão colonial.
Numa época em que a autonomia dos povos africanos era ameaçada pela expansão imperial, a sobrevivência do reino exigia inteligência política, visão estratégica e uma consciência clara dos interesses da comunidade.
Evocar Ekuikui não significa idealizar todas as decisões tomadas durante o seu reinado; significa reconhecer a dimensão histórica de uma autoridade cuja importância não se limita à imagem de um homem, mas se prolonga na memória de um povo.
Numa II e os demais soberanos que atravessaram períodos de crise, transformação e confronto pertencem igualmente à história complexa do reino.
Cada reinado foi condicionado pelas circunstâncias do seu tempo, pelos conflitos internos, pelas relações com poderes externos e pelas necessidades da comunidade.
Não devemos julgar mecanicamente essas experiências com as categorias partidárias actuais. Devemos, antes, perguntar que ensinamentos podem retirar-se delas sobre a continuidade institucional, a autonomia política e a responsabilidade de quem recebe uma autoridade que não é exclusivamente sua.
Mutu-ya-Kevela, por sua vez, permanece associado à resistência do Mbalundu contra a ocupação colonial portuguesa no início do século XX. A sua memória evoca a defesa da autonomia, da terra e da capacidade de um povo decidir o seu destino, num contexto de confronto profundamente desigual.
É difícil recordar essa luta sem reconhecer a contradição moral que surgiria se a dignidade do trono, que representa essa memória, fosse reduzida a um recurso de propaganda de qualquer partido contemporâneo.
O que diriam esses soberanos perante uma época em que a disputa pelo poder se realiza também através da imagem, da comunicação e da mobilização simbólica?
Não podemos responder em nome deles. Podemos, porém, formular uma pergunta legítima aos vivos: estamos a honrar a herança que recebemos ou a utilizar a sua autoridade para servir interesses passageiros?
Se os grandes reis são evocados como referências de identidade e continuidade, a melhor maneira de os respeitar não é atribuir-lhes uma preferência partidária imaginária, mas preservar a autonomia cultural e a dignidade institucional do trono que deixaram à posteridade.
A memória dos antepassados não deve funcionar como arma contra os adversários de hoje. Deve constituir uma exigência dirigida a todos, sobretudo àqueles que ocupam posições de representação ancestral.
A herança histórica não pode ser convocada apenas nas cerimónias, nos discursos de exaltação ou nos momentos em que convém mobilizar o orgulho colectivo.
Deve orientar também as decisões difíceis, especialmente quando existe o risco de a instituição perder a confiança de uma parte significativa da comunidade.
OS OUTROS REIS DE OUTRAS NAÇÕES DE ANGOLA TAMBÉM DEVEM REFLECTIR
Quanto a estas práticas transportadas do colonialismo. A questão do Mbalundu interpela igualmente as autoridades tradicionais dos povos Bakongo, Kimbundu, Lunda-Tchokwe, Nganguela, Ambos, Nhaneka-Humbi e de outras comunidades que constituem a pluralidade histórica de Angola.
Cada reino, cada linhagem e cada instituição possui as suas especificidades. Não seria correcto impor-lhes um único modelo de organização ou presumir que todas partilham as mesmas normas de sucessão, autoridade e representação.
Mas existe um princípio que pode servir de referência comum: nenhuma instituição ancestral deve ser tratada como propriedade exclusiva de uma organização partidária.
Os soberanos tradicionais representam uma continuidade que não coincide com os ciclos eleitorais. Os partidos políticos disputam eleições, ganham ou perdem, renovam direcções, alteram programas e substituem candidatos.
As comunidades tradicionais, pelo contrário, atravessam gerações e procuram preservar a sua memória para além dessas mudanças.
Se um rei vincula excessivamente a sua imagem à sorte de um partido político, corre o risco de comprometer a capacidade de continuar a representar todos os membros da comunidade quando esse partido político deixar de governar ou quando os seus apoiantes se tornam minoritários.
Um rei que hoje se apresenta como símbolo de uma força política poderá, amanhã, ter de mediar um conflito entre cidadãos que apoiam essa mesma força e cidadãos que a contestam.
Como poderá exercer essa função se uma parte da comunidade já o identifica como representante do adversário?
Como poderá reclamar confiança de todos se a sua imagem tiver sido incorporada numa campanha de divisão política?
Estas perguntas não pressupõem que todos os reis sejam partidários, nem que todos os contactos entre autoridades tradicionais e partidos políticos sejam indevidos. Chamam apenas a atenção para os custos institucionais de uma associação partidária que comprometa a confiança colectiva.
A dignidade das autoridades tradicionais não se protege através do isolamento, mas através de uma relação equilibrada com as instituições do Estado e com a sociedade política.
Um rei pode receber governantes e dirigentes partidários, dialogar com todos, defender as necessidades da sua comunidade e exigir serviços públicos de qualidade.
Pode recordar ao poder as suas obrigações e advertir a oposição sobre as suas responsabilidades. O que deve evitar é transformar o seu trono num palco em que uma das partes se apresenta como proprietária da legitimidade cultural do povo.
Aos grandes reis de Angola não se pede que sejam indiferentes ao sofrimento dos cidadãos. Pelo contrário, pede-se que mantenham a liberdade moral necessária para falar quando a injustiça ocorre, independentemente de quem a pratique.
A neutralidade partidária não deve significar neutralidade perante a corrupção, a violência, a pobreza, a discriminação ou a violação da dignidade humana. Significa que a defesa desses valores não deve ficar subordinada à conveniência de uma organização política.
Um soberano pode condenar uma injustiça praticada pelo partido político que governa e reconhecer uma boa iniciativa apresentada por um partido político na oposição, sem que isso o transforme num agente eleitoral de qualquer deles.
É neste equilíbrio que reside a força de uma autoridade tradicional respeitada. Não é a capacidade de agradar a todos, tarefa impossível, mas a disposição de servir a comunidade inteira, mesmo quando a verdade desagrada aos poderosos.
O MBALUNDU NO MEIO DA DISPUTA ENTRE JOÃO LOURENÇO E HIGINO CARNEIRO
A controvérsia adquire uma dimensão política adiccional quando é interpretada no quadro da disputa interna do MPLA, associada às figuras de João Manuel Gonçalves Lourenço e Higino Carneiro.
O problema é saber por que razão a cultura de um povo deve aparecer associada a uma disputa interna de uma organização partidária.
Se a indumentária que o soberano usou foi efectivamente utilizada como instrumento de propaganda, a questão não se limita a saber quem beneficia politicamente da imagem.
É necessário perguntar quem autorizou essa associação, em que circunstâncias ocorreu, qual foi o propósito da sua utilização e se houve respeito pela autonomia e pelas normas da instituição ancestral.
O MPLA, como qualquer partido político, tem o direito de organizar a sua vida interna, escolher os seus dirigentes e apresentar os seus candidatos. João Lourenço, enquanto dirigente político e Presidente da República, e Higino Carneiro, enquanto figura política, podem ser objecto de debate público, crítica e avaliação.
As suas divergências, reais ou presumidas, devem ser tratadas nos espaços políticos próprios. Não devem ser transferidas para o interior de uma instituição ancestral, como se a legitimidade de um rei pudesse servir para reforçar uma candidatura, enfraquecer um adversário interno ou demonstrar a adesão de uma comunidade a determinada facção.
A independência das instituições tradicionais não pode ser defendida apenas quando o partido político adversário procura aproximar-se delas.
Deve ser defendida também quando essa aproximação beneficia o partido político com o qual simpatizamos. Caso contrário, não estaremos a proteger a dignidade do trono; estaremos apenas a disputar quem tem o direito de o utilizar.
A questão fundamental, portanto, não é saber qual dos dirigentes do MPLA ganha ou perde com a imagem. É saber se o Mbalundu ganha ou perde quando a sua autoridade ancestral aparece integrada numa disputa partidária.
Se a instituição perde credibilidade perante uma parte da comunidade, todos os que a respeitam têm motivos para exigir esclarecimentos e reflexão.
Se a sua imagem é utilizada sem o consentimento devidamente esclarecido dos responsáveis tradicionais, é necessário apurar as circunstâncias. Se houve uma decisão consciente do soberano, cabe-lhe explicar a sua posição perante a comunidade que representa.
O poder político tem responsabilidades acrescidas neste domínio. Quando um partido político procura associar-se a uma autoridade ancestral, deve respeitar a autonomia dessa instituição e evitar apresentar uma relação protocolar como prova de apoio eleitoral colectivo, como o fez o MPLA.
Receber um rei numa cerimónia, dialogar com a sua comunidade ou reconhecer a sua relevância cultural não equivale a obter o mandato dos membros dessa comunidade para falar em seu nome numa campanha.
A instrumentalização partidária da cultura cria uma confusão perigosa entre três realidades distintas: a autoridade do Estado, a representação partidária e a legitimidade ancestral.
O Estado governa segundo a Constituição e as leis; os partidos políticos disputam o poder através dos mecanismos políticos e eleitorais; as autoridades ancestrais desempenham funções de representação e continuidade comunitária de acordo com os respectivos costumes, enquadramento jurídico e responsabilidades. Estas esferas podem dialogar, mas não devem ser confundidas.
Quando a fronteira entre elas desaparece, a cultura deixa de ser um património partilhado e passa a funcionar como recurso de competição.
Os símbolos ancestrais podem ser utilizados para conferir respeitabilidade a uma campanha; os tronos podem transformar-se em cenários para fotografias políticas; as cerimónias podem ser interpretadas como manifestações de apoio eleitoral. E, nesse processo, aquilo que deveria unir uma comunidade pode acabar por dividi-la.
A responsabilidade de evitar essa situação não pertence exclusivamente aos reis. Os partidos políticos devem compreender que a aproximação às autoridades ancestrais exige respeito e prudência. Os órgãos do Estado devem garantir que o reconhecimento das instituições tradicionais não implica a sua subordinação partidária.
Os cidadãos devem exercer a crítica sem humilhação, e as próprias comunidades devem dispor de espaços para discutir a conduta dos seus representantes de acordo com as suas tradições e normas aplicáveis.
O REI VAI NU, MAS QUEM O DESPIU?
A pergunta que dá título a esta reflexão não deve servir para transformar o soberano do Mbalundu num alvo de escárnio. O conto de Andersen convida-nos a olhar para além do personagem que desfila e a examinar o sistema de relações que torna possível a encenação.
Quem produziu a aparência?
Quem a promoveu?
Quem a legitimou?
Quem viu a contradição e preferiu calar-se?
E quem, finalmente, teve coragem de a revelar?
Aplicadas ao episódio, estas perguntas obrigam-nos a examinar as responsabilidades de todos os intervenientes. Se houve utilização deliberada da imagem do rei para fins de propaganda, importa saber quem tomou essa iniciativa e com que objectivo.
Se o soberano aceitou conscientemente a associação, importa compreender como avaliou as consequências para a sua função representativa. Se os seus colaboradores não o alertaram para os riscos, é legítimo perguntar se cumpriram o dever de aconselhamento.
Se os partidos políticos procuraram obter dividendos simbólicos da sua presença, devem explicar como conciliam essa estratégia com o respeito pela autonomia cultural.
A crítica perde força quando se limita a insultar o rei, porque deixa intacto o sistema que tornou possível a controvérsia. Chamar-lhe nomes, ridicularizar a sua figura ou reduzir a sua pessoa à imagem que circulou no espaço público não restitui a dignidade do Mbalundu.
Pelo contrário, pode agravar a humilhação que se pretende denunciar. A crítica deve ser firme quanto à responsabilidade institucional e, simultaneamente, respeitosa quanto à pessoa humana.
O rei vai nu, na metáfora, quando a sua aparência deixa de corresponder à dignidade da função que representa. Mas a nudez simbólica não é uma sentença definitiva sobre a pessoa nem sobre o povo.
É um momento de revelação que pode abrir caminho à reflexão, ao esclarecimento e à correcção. O soberano pode reconhecer a controvérsia, explicar as circunstâncias, ouvir a comunidade e reafirmar a independência simbólica do trono.
Os seus conselheiros podem contribuir para esse processo. Os partidos políticos podem reconhecer que existem limites éticos à utilização dos símbolos culturais. E a sociedade pode exigir responsabilidade sem converter o debate numa campanha de humilhação.
O verdadeiro fracasso não seria apenas a ocorrência de uma imagem controversa. Seria a incapacidade colectiva de aprender com ela, permitindo que a cultura continuasse a ser utilizada como instrumento de competição eleitoral.
A dignidade de uma instituição não se recupera com novas vestes, novos discursos ou novas fotografias. Recupera-se através de condutas coerentes com a sua missão e de uma relação de confiança entre o trono e a comunidade.
A DIGNIDADE DO TRONO É A DIGNIDADE DO POVO
A questão do Reino do Mbalundu deve ser uma oportunidade para Angola reflectir sobre o lugar das autoridades ancestrais na República. A Constituição reconhece o papel das instituições do poder ancestral e enquadra a sua relação com o Estado, sem as transformar em titulares da soberania nacional, que pertence ao povo.
Essa distinção é essencial: o rei representa uma comunidade segundo a sua tradição, mas não substitui a vontade política individual dos cidadãos, nem pode presumir que todos os membros do seu povo apoiam o mesmo partido político.
O poder ancestral deve contribuir para a paz social, a preservação cultural, a resolução de conflitos e a continuidade histórica. A sua autoridade não deve ser medida pela proximidade ao Presidente da República, ao partido político governante ou a qualquer dirigente da oposição.
Deve ser avaliada pela capacidade de servir a comunidade, preservar a memória colectiva, respeitar os seus membros e manter uma relação de confiança com pessoas de diferentes convicções.
Aos Mbalundus cabe o direito de discutir o episódio, expressar a sua indignação e exigir que a dignidade do trono seja preservada. Aos Umbundu de outras comunidades cabe a possibilidade de reflectir sobre os riscos de instrumentalização das instituições ancestrais.
Aos Bakongo, Kimbundu, Lunda-Tchokwe, Nganguelas, Anbos, Nhaneka-Humbi e a todos os demais povos de Angola cabe a oportunidade de reafirmar que a cultura não deve ser apropriada por qualquer organização política.
E aos partidos políticos cabe compreender que a procura de legitimidade eleitoral não lhes confere o direito moral de transformar a autoridade ancestral num instrumento de campanha.
Aos grandes reis que passaram pelo Trono Mbalundu não devemos atribuir julgamentos imaginários sobre a política contemporânea. Devemos honrar a sua memória preservando aquilo que torna o trono digno de ser transmitido: a continuidade histórica, a responsabilidade perante a comunidade e a consciência de que a autoridade não é um bem privado.
Ekuikui, Numa, Mutu-ya-Kevela e os outros soberanos pertencem à história do Mbalundu; nenhum partido político pode reclamar para si a propriedade exclusiva dessa herança.
A lição de Andersen permanece actual porque o medo, a bajulação e a propaganda continuam a poder criar realidades aparentes. Mas a criança do conto também nos deixa uma lição de esperança: uma sociedade pode recuperar a capacidade de ver com os seus próprios olhos e de dizer a verdade sem se deixar dominar pelo receio de contrariar os poderosos.
Em Angola, essa coragem deve ser acompanhada pela responsabilidade de distinguir factos de interpretações, crítica de insulto e defesa da cultura de exploração política da identidade colectiva.
Que o Mbalundu continue a ser uma referência de memória, dignidade e continuidade para os seus filhos. Que o seu trono não seja reduzido à imagem de uma campanha, nem a história do seu povo subordinada às disputas de qualquer direcção partidária.
Que os reis de Angola compreendam que a sua maior força não está em vestir as cores de quem governa, mas em conservar a autoridade moral necessária para falar com todos e representar a comunidade inteira.
Porque um rei pode vestir as melhores roupas, participar nas maiores cerimónias e ser rodeado de poderosos. Mas, se perder a confiança daqueles que representa, nenhuma indumentária será suficiente para esconder a fragilidade da sua autoridade.
O rei vai nu quando o partido político se torna mais visível do que o povo que o trono deveria representar. E a primeira obrigação de quem ama a cultura não é humilhar o rei: é devolver ao trono a dignidade que pertence à comunidade.
Obrigado!
*Antigo secretário-geral da UNITA