Quando alguém fala por nós, quem garante que a nossa voz foi ouvida – Mafalda Carvalho
Quando alguém fala por nós, quem garante que a nossa voz foi ouvida - Mafalda Carvalho
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O formulário está preenchido. O atendimento terminou. A pessoa saiu acompanhada. Mas quem respondeu às perguntas?

Esta pergunta parece pequena até pensarmos em quantas decisões quotidianas dependem da palavra de outra pessoa: uma consulta, um pedido de apoio, uma inscrição escolar, uma entrevista ou um contacto com um serviço público.

Quando alguém precisa de ajuda para compreender ou expressar uma escolha, a presença de um familiar, intérprete ou profissional pode ser indispensável. O risco começa quando essa ajuda passa, sem explicação, a substituir a vontade de quem deveria estar no centro da conversa.

A eficiência tem um lado sedutor. Há uma fila à espera, pouco tempo e documentos para concluir. O acompanhante conhece os hábitos da pessoa. O profissional domina os procedimentos.

Parece mais simples falar com quem responde depressa. Mas um serviço pode concluir o processo e falhar o encontro humano que lhe dá sentido.

A questão não é impedir o apoio. É perguntar a quem ele serve.

Pensemos numa situação hipotética, não num caso observado em Angola. Uma mulher chega a um balcão com um familiar. O funcionário dirige todas as perguntas ao acompanhante, que responde de imediato.

Ninguém pergunta à mulher se prefere falar diretamente, se concorda com a explicação ou se deseja que o familiar continue a responder. No final, existe um registo administrativo. Não sabemos, porém, se houve participação efetiva.

A minha experiência profissional vem da gestão de serviços de cuidados sociais em Inglaterra. Não a apresento como descrição da realidade institucional angolana, nem como substituto do conhecimento de quem trabalha e vive em Angola.

Trago antes uma preocupação prática que atravessa diferentes contextos: a comunicação apoiada deve abrir espaço à pessoa, não fechar esse espaço em seu nome.

Há uma diferença entre explicar uma pergunta de outra maneira e escolher a resposta. Entre dar tempo para compreender e presumir incapacidade.

Entre convidar alguém a ajudar e entregar-lhe automaticamente a decisão. Essa diferença pode passar despercebida quando o desempenho do serviço é medido apenas pelo número de atendimentos concluídos.

A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência oferece um princípio importante: a acessibilidade, a comunicação e o reconhecimento da capacidade jurídica não podem ser tratados como assuntos periféricos. O modo concreto de cumprir obrigações legais depende do enquadramento aplicável; uma crónica não substitui orientação jurídica. Mas o princípio humano merece atenção em qualquer organização que diga respeitar a dignidade das pessoas.

Como transformar esse princípio numa prática observável?

Comecemos por quatro perguntas.

Primeiro: a informação foi apresentada de forma compreensível?

Uma frase mais simples, uma explicação oral, um formato acessível ou tempo adicional podem fazer a diferença. Simplificar a linguagem não é infantilizar um adulto.

Segundo: a pessoa teve oportunidade real de responder? Não basta dirigir-lhe uma pergunta se o ritmo da conversa ou a atitude dos presentes não lhe permitem participar.

Terceiro: o apoio foi escolhido ou, pelo menos, explicado? Sempre que possível e apropriado, deve procurar-se saber quem a pessoa deseja envolver e de que modo.

Quarto: existe uma forma de corrigir a situação? Quando alguém sai sem compreender ou sem conseguir expressar uma preferência, o serviço precisa de uma via para voltar a ouvir, esclarecer e rever o que for necessário.

Nenhuma destas perguntas elimina as responsabilidades profissionais de proteção, os limites legais ou os casos em que existem representantes devidamente autorizados. Também não resolve, por si só, a falta de recursos. Exige, porém, que a organização deixe de confundir a conclusão de um procedimento com a compreensão de uma pessoa.

Para quem dirige serviços, o desafio é concreto: observar atendimentos, ouvir utilizadores com diferentes necessidades de comunicação, rever materiais, preparar equipas e verificar se as pessoas puderam participar.

O indicador relevante não é apenas quantos processos avançaram. É quantas escolhas foram realmente compreendidas e respeitadas.

Os direitos humanos não vivem apenas em declarações. Revelam-se quando alguém tem dificuldade em responder e, mesmo assim, continua a ser tratado como o principal interlocutor da sua própria vida.

A pergunta final é simples: quando alguém fala por outra pessoa, estamos a ajudá-la a encontrar a sua voz ou a ocupar o lugar dela?

Nota: o cenário descrito é hipotético. O texto é uma reflexão de opinião e não atribui práticas ou resultados a instituições angolanas específicas.

*Oradora e consultora de liderança, fundadora da Prestige Care Consulting

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