
Ouvi dizer que os Craques da Combal serão homenageados no próximo domingo, dia 23 de Agosto, na Rua 3, no Bar do Kito, irmão do Patrício. Fiquei muito feliz com a notícia e decidi antecipar-me à homenagem, trazendo à memória alguns dos homens e jogadores que fizeram história naquela equipa.
Quando comecei a saber das coisas, logo na primeira metade da década de 80, dei de encontro com um clube que treinava praticamente “à porta de casa”. O campo ficava a cerca de 200 metros. Eram os Craques da Combal, uma formação patrocinada pela fábrica de Bolachas e Massa Alimentar, situada na zona do Grafanil-Bar.
Os Craques da Combal eram orientados pelo Pedrito, o “Kota Paqueira”, de feliz memória. Era irmão do Lourenço, da Rua 14, e do Mololoque, todos primos do Finihno, do Lino e do Toy A-Z, da Rua 10.
O Paqueira era coadjuvado pelo Mister Bento, que viria a assumir a equipa. Paqueira “Pilon” perdera um dos membros inferiores, na sequência de um incidente de trabalho.
O saudoso técnico da Combal deixo-nos anos depois do incindente, numa altura que o Mister Bento já o senhor da equipa.
Alguém ainda se lembra do Gregório? Era irmão do Mister Bento e faleceu ainda na década de 80 do século XX. Foi um dos grandes animadores da equipa, só talvez superado pela claque do Kabuscorp do Palanca.
Tinha uma vuvuzela, ou corneta, extremamente barulhenta. Nas manhãs de domingo, quando os jogos eram disputados em casa, no recinto onde mais tarde foram construídas a Escola Sagrada Esperança e a padaria, Gregório, juntamente com os miúdos da época, puxava pela equipa e empurrava os jogadores para as vitórias.
Lembro-me de que Mitinho, Raul e Luís Gonçalves “Cubila”, estes dois últimos já de feliz memória, fizeram parte da primeira geração dos Craques da Combal.
Depois vieram outros nomes.
Peixinho, da Rua 1, e Aristom, da Rua 21, este último irmão do Man Tó, da mesma rua, foram guarda-redes da segunda geração. Lora, da Rua 14, defendia a baliza na primeira geração.
Zezinho “Gasoli”; Paulo Futre; Cathitchi – Seba (memória), Barbosa “Balalau” (em memória”; Botinha da rua 20; Chiquinho; Guerrito, da Rua 21; Adolfo “Scura”; Júlio, da Rua de Quelimane; Kito Mara; Guerrito “La Pomba”, filho do Tio Santo e da Tia Cecília; André Venceslau Manganga ou simplemente Celau; Dadão – Stopirra; Cacharamba; Oliveira; Jaco; Jacinto – Jacinay, em diferentes épocas, são apenas alguns dos nomes que marcaram aquele clube.
E o prémio?
Eram caixas de bolachas e de massa alimentar, oferecidas pelo patrocinador.
O Juca, meu contemporâneo, que representou o Desportivo da Nocal e, mais tarde, o Petro de Luanda, fez parte da última geração dos Craques da Combal. Teve ainda o privilégio de jogar no campo onde posteriormente foram erguidas a Escola Sagrada Esperança e a padaria.
Mais tarde, a equipa passou a utilizar o campo adjacente à estação de comboio dos Musseques, na divisa com o Cazenga – Tunga Ngó.
Os filhos do Tó Zé da estação também integraram a equipa que tantas alegrias nos proporcionou.
A segunda e a terceira gerações, que jogaram nos escalões A e B, foram todas forjadas pelo Mister Bento.
E aqui fica uma pergunta que ainda hoje me intriga: não sei por que carga de água o Mister Bento, que está radicado em Portugal há bastante tempo, não deu continuidade ao seu percurso como técnico de futebol.
Ora bolas… não entendi nada. Nada mesmo!
Quando chegou a economia de mercado, em 1991, na sequência da abertura do Estado após os Acordos de Bicesse, em Portugal, entre a UNITA e o Governo de Angola, muitas empresas deixaram de patrocinar as equipas desportivas.
E, com isso, muitas formações desapareceram do mosaico desportivo nacional.
Perdemos a massificação.
Mas não perdemos completamente os frutos das sementes que haviam sido lançadas.
As bases estavam criadas. E, muitos anos depois, começaram a aparecer os resultados.
Foi assim que vimos André Venceslau Manganga “Celau” jogar ao mais alto nível em Portugal e representar Angola no Mundial de 2006, na Alemanha, onde estive em serviço.
E permitam-me aqui uma confidência.
Na véspera do jogo da primeira-mão, Chade- Angola, da pré-eliminatória de acesso à fase de grupos, fui intimado pelo meu editor, Pedro da Ressurreição, a entrevistar Ismael Kurtz, que orientava os Palancas Negras.
Cheguei cedo, bem antes das 6 h já que o grupo que estava lojado no hotel Palanca devia sair antes das 7h.
Na conversa curta, Kurtz disse-me:
“Essa geração vai qualificar-se para o Mundial. Posso já não estar aqui, mas vai dar resultados.”
E assim foi.
No meio daquela geração estavam alguns dos antigos Craques da Combal, entre eles Stopirra – Edgar Gerónimo “Dadão”, que acabou por sair do grupo por opção técnica.
Mesmo que nem todos tenham chegado ao Mundial, muitos deles tiveram carreiras de grande destaque.
Adolfo “Scura” brilhou no Progresso do Sambizanga.
Cacharamba representou o Progresso e o Petro de Luanda.
Júlio jogou no Interclube de Luanda.
E tantos outros seguiram caminhos que, de uma forma ou de outra, levaram consigo a marca daquela velha escola de futebol do Rangel.
Hoje, quando se fala dos Craques da Combal, não estamos apenas a falar de uma equipa de futebol.
Estamos a falar de uma escola de vida.
Estamos a falar de uma época em que as empresas apoiavam o desporto, os bairros produziam talentos e os campos de terra eram verdadeiras academias.
Estamos a falar de treinadores que trabalhavam por paixão, de miúdos que jogavam por amor à camisola e de famílias inteiras que se mobilizavam aos domingos para apoiar os seus.
Estamos a falar de memória.
Estamos a falar do Rangel.
Craques da Combal, vocês valorizaram o nome do nosso bairro.
Levaram para outros campos aquilo que aprenderam nas ruas e nos campos do Rangel.
Alguns chegaram a Portugal, outros aos grandes clubes nacionais e alguns chegaram mesmo ao palco maior do futebol mundial.
Por isso, antes da homenagem oficial, deixo aqui a minha singela homenagem.
Que surjam muitos Mister Bento pelo Rangel, por Luanda e por Angola inteira.
Que voltemos a acreditar na formação.
Que voltemos a investir nos nossos campos, nos nossos treinadores e, sobretudo, nos nossos miúdos.
Porque, às vezes, aquilo que parece apenas um pequeno clube de bairro é, na verdade, a primeira página da história de um grande jogador.
Craques da Combal: vocês foram uma dessas páginas.
Bem-haja!
*Jornalista