
A Rússia ultrapassou a França na influência percebida entre os jovens africanos, com 54% dos inquiridos a reconhecerem a presença russa nos seus países, contra 47% em relação a Paris, segundo a Pesquisa da Juventude Africana 2026, divulgada hoje.
O reconhecimento da influência de Moscovo aumentou dez pontos percentuais face a 2024, quando era de 44%, num contexto de reforço das relações entre a Rússia e vários países africanos.
Apesar da avaliação favorável, 80% dos jovens inquiridos manifestam preocupação com a influência das potências estrangeiras nos seus países, contra 72% em 2024, revelando reservas quanto ao papel dos parceiros internacionais.
Entre os entrevistados que identificam a Rússia como influente, 83% consideram essa influência muito ou relativamente positiva, enquanto 86% dos jovens africanos ouvidos consideram Moscovo uma aliada forte ou, em certa medida, uma aliada.
A influência russa é mais reconhecida no Burkina Faso, onde atinge 95%, seguindo-se o Congo-Brazzaville, com 69%, e o Chade, com 65%.
Na Libéria, apenas 24% dos inquiridos identificam a Rússia como influente, enquanto na Somália a percentagem é de 26%, evidenciando diferenças significativas nas percepções sobre Moscovo no continente.
Os Estados Unidos são apontados como influentes por 81% dos entrevistados, seguidos da China, com 79%, da Rússia, com 54%, e da França, com 47%.
A pesquisa, encomendada pela Fundação da Família Ichikowitz e conduzida pela PSB Insights, baseia-se em 4.901 entrevistas presenciais a jovens dos 18 aos 24 anos, realizadas em Março, em 16 países africanos.
Investimento e soberania entre prioridades
Na escolha de parceiros internacionais, 43% dos jovens privilegiam a capacidade de investimento na economia e nas infraestruturas, enquanto 39% destacam o respeito pelos recursos naturais e 34% apontam a soberania e a não ingerência nos assuntos internos.
Os valores democráticos e o respeito pelos direitos humanos são igualmente referidos por 34% dos inquiridos, enquanto 30% valorizam a transferência de tecnologia e conhecimentos e 29% a assistência militar ou de segurança.
Mais de metade dos entrevistados (55%) prefere alianças que proporcionem comércio e investimento, mesmo quando os parceiros têm sistemas políticos diferentes, enquanto 42% privilegiam países com valores e modelos de governação semelhantes.
Por outro lado, 60% defendem que os seus países devem estabelecer alianças fortes com uma ou duas grandes potências mundiais, ao passo que 37% preferem a neutralidade.
Os resultados são divulgados no primeiro dia da Cimeira Rússia-África, que decorre em Moscovo até quinta-feira, num quadro de crescente competição internacional por influência política, recursos naturais e oportunidades económicas no continente.
A presença russa em África tem-se reforçado também no domínio da segurança, particularmente no Sahel, onde Moscovo mantém relações com vários governos e ampliou a sua intervenção após a presença do grupo Wagner, incluindo através do Afrika Korps.
O envolvimento russo no continente está igualmente associado a interesses estratégicos e económicos, nomeadamente nos sectores da mineração e da energia.
Para Ivor Ichikowitz, fundador da Fundação da Família Ichikowitz, os resultados demonstram que a Rússia conquistou espaço na percepção dos jovens africanos, mas advertiu que a avaliação favorável não representa um apoio incondicional às potências estrangeiras.
Os jovens, afirmou, procuram parceiros que contribuam para o desenvolvimento dos seus países, respeitem os recursos naturais e não condicionem a soberania nacional.
Emprego e corrupção preocupam juventude
O estudo indica que 27% dos jovens apontam a criação de empregos bem remunerados como uma das principais prioridades para o desenvolvimento de África, enquanto 25% destacam o combate à corrupção governamental.
O desemprego e a pobreza são identificados por 54% dos inquiridos como a maior ameaça à segurança das comunidades.
No domínio político, 73% consideram que a democracia é sempre preferível a qualquer outra forma de governação, enquanto 80% apoiam a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de modo a garantir representação permanente africana.
O inquérito abrangeu Burkina Faso, Chade, Congo-Brazzaville, República Democrática do Congo, Etiópia, Gana, Quénia, Libéria, Moçambique, Nigéria, Ruanda, Somália, África do Sul, Togo, Zâmbia e Zimbabué.
A comparação da evolução dos indicadores ao longo do tempo utiliza os oito países abrangidos pelas quatro edições do estudo, iniciado em 2020, que contabiliza um total de 18.882 entrevistas em 28 países africanos.