Seguradoras roubam mediadores – Paulo Calunga
Seguradoras roubam mediadores – Paulo Calunga
paulo calunga

Omercado de seguros em Angola tem experimentado um crescimento gradual, à medida que mais empresas e indivíduos reconhecem a importância de proteger patrimónios e mitigar riscos.

No entanto, este crescimento traz consigo responsabilidades fundamentais, especialmente no que diz respeito à transparência e integridade na relação entre seguradoras e mediadores de seguros.

Infelizmente, um problema preocupante vem ganhando notoriedade: a recusa ou atraso no pagamento de comissões aos mediadores, prática que representa um verdadeiro atentado à ética comercial e à estabilidade do sector.

O mediador de seguros é muito mais do que um simples intermediário entre cliente e a companhia de seguros. Ele é o conselheiro que orienta o tomador do seguro na escolha das melhores coberturas, personaliza soluções e presta assistência durante todo o ciclo do contrato, especialmente em caso de sinistro.

Essa actuação é essencial em Angola, onde muitos consumidores ainda têm pouca familiaridade com os seguros, sendo necessário que o mediador eduque e esclareça sobre a importância e o funcionamento das apólices.

Embora o serviço seja prestado diretamente ao tomador do seguro, é à seguradora que cabe pagar as comissões ao mediador. Estas comissões, oriundas dos prémios pagos pelos clientes, reflectem o trabalho do mediador em captar negócios e prestar acompanhamento contínuo.

Assim, a recusa ou atraso no pagamento dessas comissões representa não só uma injustiça, mas também um desrespeito à relação profissional estabelecida. A remuneração do mediador é feita por meio de comissões, normalmente calculadas como uma percentagem dos prémios pagos pelos clientes.

É importante sublinhar que essas comissões são devidas pela seguradora e, em hipótese alguma, devem ser transferidas ou repercutidas sobre o tomador do seguro. Esta é uma norma básica que visa assegurar a clareza e justiça na relação contratual.

Contudo, o que se tem observado em algumas companhias de seguros em Angola é uma prática preocupante: o não pagamento de comissões em tempo hábil ou, em casos mais graves, a tentativa de renegociar valores previamente acordados.

Essa atitude é inaceitável, pois mina a confiança entre as partes e cria uma atmosfera de desconfiança que pode comprometer o desenvolvimento sustentável do mercado.

O mediador de seguros, sendo uma peça central no sistema, depende dessas comissões para manter sua operação e prestar um serviço de qualidade ao cliente.

Ao privá-lo dessa justa remuneração, as seguradoras não só prejudicam os profissionais, mas também comprometem o atendimento ao tomador de seguros e a credibilidade do sector.

A retenção ou não pagamento de comissões tem repercussões graves para toda a cadeia de valor do seguro. Em primeiro lugar, desmotiva os mediadores, que se veem sem os meios financeiros para continuar suas operações.

Em segundo, compromete a relação entre cliente e seguradora, pois o mediador é frequentemente a ponte que facilita a comunicação e o entendimento entre as duas partes.

Num país como Angola, onde o mercado segurador ainda está em fase de consolidação e enfrenta desafios como a baixa literacia financeira e a desconfiança pública, práticas antiéticas como esta só agravam a situação.

A actuação transparente e ética é a base para a confiança, e sem confiança não há crescimento sustentável. Além disso, a relação entre seguradora e mediador de seguros deve ser pautada por boa- -fé e respeito mútuo.

Quando uma seguradora falha em cumprir com suas obrigações contratuais, não é apenas o mediador que é lesado, mas todo o sistema é prejudicado.

O cliente final também sente o impacto, pois mediadores desmotivados tendem a oferecer um serviço menos eficiente e menos focado na satisfação das necessidades do segurado.

Diante desta realidade, é urgente que as companhias de seguro revejam suas práticas e assumam uma postura ética e responsável.

A retenção de comissões é um acto inadmissível, que pode ser comparado a um roubo disfarçado, revelando uma falta de carácter incompatível com a missão do mercado de seguros: proteger pessoas e bens com transparência e integridade.

Apelamos às seguradoras que operam no mercado angolano para que honrem os contratos estabelecidos com os mediadores. Estes profissionais são pilares fundamentais do sector e merecem ser tratados com o devido respeito e reconhecimento.

A sustentabilidade do mercado de seguros depende da confiança e da colaboração entre todas as partes envolvidas – seguradoras, mediadores e tomador de seguro.

A remuneração justa e pontual dos mediadores é mais do que uma obrigação contratual: é um imperativo ético e uma demonstração de respeito pelo trabalho alheio.

A construção de um mercado forte e confiável exige que cada compromisso seja cumprido de forma rigorosa, sem artifícios ou atrasos.

O mercado de seguros em Angola tem um enorme potencial de crescimento, mas esse crescimento só será possível se houver uma postura íntegra por parte de todos os agentes envolvidos.

As companhias de seguros precisam dar o exemplo, cumprindo rigorosamente suas obrigações e tratando os mediadores como parceiros valiosos.

Se queremos ver um sector de seguros forte e respeitável, que inspire confiança nos clientes e contribua para o desenvolvimento do país, é essencial que todas as partes atuem com ética e transparência.

O mediador de seguros é um aliado imprescindível nesse processo, e o respeito pelos seus direitos é um passo fundamental para consolidar a credibilidade do sector.

Estamos certos de que, com esforço conjunto e compromisso, o mercado segurador angolano pode alcançar novos patamares de excelência. Basta que cada um faça a sua parte – com seriedade, profissionalismo e respeito.

*Mediador de seguro

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido