Sobreviventes do 27 de Maio denunciam inclusão dos seus nomes em lista de mortos divulgada pela CIVICOP
Sobreviventes do 27 de Maio denunciam inclusão dos seus nomes em lista de mortos divulgada pela CIVICOP
vitimas do 27

Sobreviventes dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977 denunciaram a existência de alegadas irregularidades no processo de identificação das vítimas conduzido pela Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), após terem encontrado os seus próprios nomes numa lista de presumíveis mortos divulgada recentemente pela comissão.

As críticas foram tornadas públicas por membros da Plataforma 27 de Maio, que contestam a fiabilidade do inventário de mais de 600 restos mortais alegadamente encontrados no denominado Cemitério do 14, em Luanda, e cuja identificação está actualmente a ser promovida através de testes de ADN junto dos familiares.

Em declarações à Lusa, Joaquim Sequeira, sobrevivente dos acontecimentos de 1977 e membro do Grupo de Sobreviventes da Plataforma 27 de Maio, afirmou ter ficado surpreendido ao descobrir que o seu nome consta da lista divulgada pela CIVICOP.

“Fiquei estupefacto quando soube da lista das ossadas encontradas no Cemitério do 14 e vi o meu nome incluído. Estou vivo e nunca fui contactado pela comissão”, afirmou.

Segundo Joaquim Sequeira, a análise preliminar do documento permitiu identificar várias inconsistências, incluindo nomes de pessoas que sobreviveram às detenções ocorridas após o 27 de Maio e de cidadãos que faleceram noutras províncias do país.

O sobrevivente afirma ter identificado pelo menos 13 pessoas vivas na relação divulgada, além de dezenas de casos de indivíduos que terão morrido fora de Luanda, circunstância que, na sua opinião, coloca em causa a credibilidade do processo.

Também Jorge Marques, outro sobrevivente dos acontecimentos de 1977, afirmou à Lusa ter encontrado o seu nome na lista, classificando o trabalho desenvolvido pela CIVICOP como “defeituoso”.

Os dois sobreviventes questionam igualmente os métodos utilizados nas exumações realizadas no Cemitério do 14, alegando que os procedimentos não obedeceram às normas internacionalmente reconhecidas para a preservação e identificação de restos mortais.

Segundo os seus relatos, as operações terão sido realizadas com recurso a maquinaria pesada, o que poderá ter contribuído para a mistura de ossadas e outros materiais encontrados nos locais das escavações.

As críticas estendem-se ainda aos testes genéticos realizados no âmbito do processo de identificação das vítimas. Joaquim Sequeira sustenta que análises efectuadas anteriormente em colaboração com instituições portuguesas produziram resultados considerados inconclusivos ou incompatíveis com as identidades reclamadas por algumas famílias.

As declarações surgem numa altura em que a CIVICOP intensificou os apelos aos familiares das presumíveis vítimas para fornecerem amostras biológicas destinadas à comparação genética com os restos mortais encontrados em várias zonas do país.

A comissão divulgou recentemente listas provisórias de vítimas dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977 e solicitou a colaboração dos familiares no processo de recolha de ADN, que decorre em instalações do Laboratório Central de Criminalística, em Luanda.

Criada em 2019, a CIVICOP tem como missão promover a localização, exumação, identificação e entrega às famílias dos restos mortais das vítimas dos conflitos políticos ocorridos em Angola entre 1975 e 2002, no âmbito da política de reconciliação nacional lançada pelo Presidente João Lourenço.

Os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 continuam a constituir um dos episódios mais controversos da história contemporânea angolana. A alegada tentativa de golpe de Estado liderada por Nito Alves foi seguida por uma ampla repressão política, cujo número exacto de vítimas permanece por determinar quase cinco décadas depois.

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