Um Jesus moreno como eu! – Salas Neto
Um Jesus moreno como eu! - Salas Neto
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A minha vida tem sido tão sofrida, que me faz augurar, meio a brincar, o seguinte: se Jesus Cristo, o homem que as Sagradas Escrituras dizem que Deus enviou para salvar o mundo, não tivesse já existido, como quase um terço da humanidade acredita, decerto que seria eu o eleito para fazer esse papel, depois de obrigado a abandonar o ateísmo, é claro.

Todavia, diferente dele, eu não teria nascido sem pecado do ventre de uma virgem judaica que, vejam lá, já era desposada por um carpinteiro da mesma bula – só mesmo o Omnipotente para tamanho milagre –, mas sim como produto de uma união material entre dois jovens malanjinhos recém-chegados a Luanda, em busca de melhores condições de vida, no Sambizanga, isto em 1960, anos depois daquele evento divino que se diz ocorrido em Belém, na Palestina.

Sobre o Cristo nascido na Palestina, aos 30 anos tornar-se-ia num dos principais pregadores da religião então emergente que mais tarde adoptaria uma derivação do seu nome, o Cristianismo.

Nessa altura, já ele se apresentava como filho de Deus, começando a ser idolatrado por alguns, mas incompreendido e escorraçado por quase todos, de tal sorte, que viria a ser crucificado três anos mais tarde, por ordem de Roma, como castigo pelas bocas revolucionárias que mandava, tidas como perigosas para o império, antes de embarcar ao encontro do Pai três dias depois da sua morte terrena, sem deixar descendentes nem esposa, segundo os textos bíblicos, embora o chamado «Evangelho perdido», um manuscrito de há 1.500 anos encontrado na Biblioteca Britânica, sustente que ele terá feito filhos com Maria Madalena, a quem chegará a desposar.

Ao contrário, eu já vou nos sessenta e tal, tenho esposa, filha e netos, não se sabendo ainda quando darei o caldo, nem se chegarei a ascender, o que teria de ser com a minha família, numa operação aero-espacial decerto mais complicada do que aquela, que teve apenas um passageiro.

A história da vida do alegado Messias continua cheia de contradições e zonas cinzentas. Uma delas tem a ver com a sua identidade, questão que as igrejas cristãs vêm empurrando, já desde há alguns séculos, sob o pretexto de que será um assunto irrelevante, pois, como defendem, o que deve contar são as suas ideias e não a raça ou a cor dos olhos.

Seja como for, ainda que não possa haver já lugar para colocações dogmáticas a favor de qualquer das teorias, é cada vez mais consensual de que existirão poucas possibilidades daquela imagem de um Jesus Cristo ariano, alto, cabelos longos, olhos azuis e uma barbicha aloirada, ganhada na Idade Média por influência da visão eurocentrista com que o cristianismo passara a ser encarado, em meio a algum racismo, representar o verdadeiro perfil do enviado de Deus.

Em contrapartida, dados histórico-científicos e socio-culturais sustentam que ele teria de ser alguém de matriz étnica semita, estatura mediana, atarracado, pele morena, cabelo escuro encaracolado e provavelmente barbudo.

Esta teoria terá adquirido mais força após a publicação do resultado de um trabalho científico do médico forense britânico Richard Neave, especialista em reconstituição facial, que «montou» o que seria o protótipo do verdadeiro rosto do salvador, com base nos crânios de três judeus do primeiro século, segundo um documentário da BBC datado de 2001.

Ao contra-ataque, os adversários do «Cristo negro» de Neave sustentam que não está afastada em absoluto a hipótese de Jesus Cristo poder ter sido alguém com traços caucasianos, devido à forte mestiçagem que já vinha ocorrendo na região desde há alguns séculos antes do seu nascimento, por conta das quatro ocupações estrangeiras a que a Palestina esteve sujeita, sendo duas de povos europeus, nomeadamente greco-macedónios e romanos.

Ora, se me tivesse tocado a vez de ser o enviado de Deus à terra, a fim de salvar os homens e consagrar a vida eterna a todos que a buscassem, essas dúvidas em relação à identidade do homem comigo não pegariam, uma vez que quase todo o mundo já tem a minha ficha completa, incluindo os gajos da antiga Pide/dgs, quando lá fui parar ao tempo do império lusitano, por me ter recusado a entoar o hino português, «heróis do mar/nobre povo/ nação valente e imortal», numa aula da cabunga. Acabei solto, mas não sem levar antes uma boa sova dos biaços, fidasmãe.

*Jornalista e escritor

PS: Crónica retirada do livro: Se eu fosse o Messias?

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