23 de Maio: o dia que mudou a minha vida – Lucas Pedro
23 de Maio: o dia que mudou a minha vida - Lucas Pedro
Ju e Fraga

Hoje poderia ser apenas mais uma data no calendário. Um dia comum, como tantos outros. Mas não é. É o dia em que a vida me roubou a mulher que mais amei: a minha mãe, Nzuzi Maria Ndembo, e o homem que politicamente me educou.

Falar dela é falar de força, dignidade e amor verdadeiro. Foi uma mulher resiliente, daquelas que transformavam dificuldades em coragem e lágrimas em esperança.

Viveu tempos duros, conheceu as limitações da pobreza e enfrentou as batalhas silenciosas que muitas mães africanas carregam no peito sem nunca reclamar. Ainda assim, nunca deixou faltar comida no prato dos filhos. Nunca permitiu que a escassez roubasse a nossa humanidade.

A minha infância não foi diferente da de muitas crianças pobres da minha geração. Crescemos com poucas condições, mas cercados de valores, respeito e união. E isso devo à minha mãe.

Trabalhadora incansável, acordava cedo para lutar pela sobrevivência da família, sempre colocando os filhos e os outros acima dela própria.

A minha mãe não era apenas mãe dos seus filhos. Era mãe de todas as crianças. Amiga de todos. A sua casa e o seu coração estavam sempre abertos para acolher, aconselhar e ajudar, independentemente da origem, condição social ou parentesco.

Tinha uma rara capacidade de unir as pessoas. O seu sorriso iluminava ambientes e a sua voz conciliadora trazia paz e soluções nos momentos mais difíceis.

Foi uma mulher simples, prática e humana. Daquelas pessoas que não precisavam de riqueza para serem grandes. A sua grandeza estava nos gestos pequenos: no prato servido, no abraço silencioso, na palavra certa no momento exacto.

E mesmo nos meus dias mais difíceis, ela esteve lá. Aturou-me, compreendeu-me e amou-me até aos últimos segundos da sua vida. Esse amor incondicional é algo que o tempo jamais apagará.

Nzuzi Maria Ndembo nasceu a 26 de Dezembro de 1956 (Damba/Uíge) e partiu a 23 de Maio de 2021, em plena pandemia da Covid-19, um período marcado pela dor, medo e despedidas cruéis, em Luanda. Rodeada por nós.

Mas há coincidências na vida que carregam um peso impossível de explicar. Curiosamente, ela morreu exactamente no mesmo dia em que morreu o meu padrinho, José Adão Fragoso. Nesse dia perdi duas das pessoas mais importantes da minha vida.

Fragoso foi praticamente um pai para mim. Mais do que padrinho, foi guia, conselheiro e referência. Foi ele quem me ensinou a olhar para Angola com consciência crítica e amor profundo pela pátria. Ensinou-me política, patriotismo e, acima de tudo, a importância da verdade histórica.

Com ele aprendi histórias que nunca virão escritas nos livros leccionados nas escolas. Histórias contadas por quem viveu os acontecimentos, sofreu as consequências e lutou para que o silêncio nunca apagasse a memória colectiva do povo angolano.

Andámos juntos pelo país a falar sobre os acontecimentos do 27 de Maio de 1977, partilhando memórias, ouvindo sobreviventes e defendendo a necessidade de justiça, reconciliação e verdade. Essas viagens e conversas moldaram a minha consciência e a minha forma de ver Angola.

Perder a minha mãe e o meu padrinho no mesmo dia foi como perder duas partes fundamentais da minha existência: o colo e a consciência, o amor e a orientação, a ternura e a firmeza.

Um ensinou-me a viver com dignidade; o outro ensinou-me a pensar e lutar pela verdade.

Hoje, mais do que tristeza, fica a saudade. Uma saudade profunda de quem perdeu duas referências de vida no mesmo instante. Mas também fica o orgulho de ter sido amado e educado por pessoas tão humanas, fortes e inesquecíveis.

A minha mãe continuará viva na memória de todos aqueles que conheceram a sua bondade. E José Adão Fragoso continuará presente em cada voz que se recusa a esquecer a verdadeira história de Angola.

Ainda choro por vós. Descansem em paz.

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