
Cinco anos após a sua partida física, a memória do brigadeiro das Forças Armadas Angolanas, José Adão Fragoso, permanece viva como símbolo de resistência, coragem e compromisso inabalável com a verdade histórica de Angola.
Falecido a 23 de Maio de 2021, José Adão Fragoso dedicou grande parte da sua vida à luta pela justiça, pela dignidade humana e pelo reconhecimento das vítimas dos trágicos acontecimentos do 27 de Maio de 1977.
Nascido a 14 de Agosto de 1948, em Icolo e Bengo, filho de Adão José Fragoso e de Gonga Mateus, cresceu no seio de uma família humilde de agricultores, marcada pelas dificuldades da época colonial, pela fome, pelas migrações forçadas e pela luta diária pela sobrevivência.
Desde cedo conheceu as injustiças do sistema colonial português e testemunhou a repressão brutal exercida contra o povo angolano, particularmente após o histórico assalto de 4 de Fevereiro de 1961.
A infância modesta moldou o carácter firme de José Fragoso. Entre brincadeiras simples nas aldeias, estudos interrompidos pela guerra e perseguições políticas sofridas pela sua família, desenvolveu uma consciência política precoce que o levaria a abraçar a causa da libertação nacional ainda muito jovem.
Estudou em Luanda, enfrentando discriminação racial e perseguições por ser filho de um nacionalista preso pelo regime colonial. Mesmo diante das adversidades, nunca desistiu da formação académica e técnica, tornando-se enfermeiro, analista clínico, professor e mais tarde licenciado em Ciências Políticas e Direito Administrativo na então República Democrática Alemã.
Foi ainda na juventude que conheceu figuras históricas como Nito Alves e José Van-Dúnem, com quem partilhou actividades clandestinas de apoio à luta de libertação nacional.
Como militar, integrou as FAPLA, foi comissário político e membro fundador do Comando Operacional de Luanda (COL), desempenhando um papel activo na mobilização popular durante os últimos anos da luta pela independência.
Ao longo da sua trajectória política e militar, José Adão Fragoso destacou-se pela firmeza das suas convicções e pela defesa dos ideais de justiça social. Participou na criação da Organização de Defesa Popular (ODP), mobilizando trabalhadores do sector da saúde e estudantes para a defesa da independência de Angola. Posteriormente exerceu funções no Secretariado do Conselho de Ministros e participou em missões ligadas à Frente Militar Sul.
Contudo, foi após os dramáticos acontecimentos do 27 de Maio de 1977 que a sua vida tomou um rumo ainda mais marcante. Sobreviveu à violenta repressão desencadeada entre 1977 e 1979, período em que milhares de angolanos foram perseguidos, presos, torturados e executados.
José Fragoso esteve por duas vezes na fila de fuzilamento. Salvou-se graças à coragem de um primo que, arriscando a própria vida, o retirou da execução e mais tarde facilitou a sua fuga da prisão.
Escondeu-se durante mais de um ano na casa de familiares, escapando à vaga de atrocidades que marcou uma das páginas mais dolorosas da história contemporânea de Angola.
Homem alto, de presença firme e serena, pesando pouco mais de setenta quilos, carregava no olhar o peso da história e das cicatrizes de uma geração sacrificada. Nunca permitiu, porém, que o sofrimento o transformasse em homem de ódio. Pelo contrário, dedicou a vida à procura da verdade, da reconciliação e da justiça para as vítimas do 27 de Maio.
Foi um dos mais persistentes defensores da preservação da memória nacional sobre aquele período. Co-fundador do Partido Renovador Democrático (PRD), da Fundação 27 de Maio, da ADAPAZ e impulsionador de várias organizações cívicas, desempenhou igualmente papel relevante no surgimento da CIVICOP e nas negociações relacionadas ao reconhecimento oficial das vítimas, à reconciliação nacional, ao luto nacional e à construção de um memorial em honra dos que perderam a vida.
Autor de três obras dedicadas à história política angolana e à causa do 27 de Maio, José Adão Fragoso deixou um importante testemunho escrito sobre os acontecimentos que viveu e sobre as feridas ainda abertas da nação angolana. Os seus livros tornaram-se documentos de memória, denúncia e reflexão histórica para as gerações futuras.
Curiosamente – e de forma profundamente simbólica – cinco dias após a sua morte, o Presidente da República, João Lourenço, reconheceu oficialmente, em nome do Estado angolano, os excessos e atrocidades cometidos durante os acontecimentos do 27 de Maio de 1977.
O Governo decretou luto nacional e anunciou a construção de um memorial em homenagem às vítimas, uma reivindicação pela qual José Fragoso lutou durante décadas.
Hoje, cinco anos depois da sua partida, permanece vivo o legado de um homem que enfrentou a perseguição, a prisão, a tortura e a ameaça constante de morte sem jamais abandonar os seus princípios.
Um homem que acreditou numa Angola reconciliada com a sua própria história. Um pai, patriota, combatente e sobrevivente que transformou a dor em luta colectiva.
A sua memória continua presente entre todos aqueles que valorizam a justiça, a paz, os direitos humanos e a reconciliação nacional. O nome de José Adão Fragoso permanecerá inscrito na história de Angola como um dos homens que ousaram desafiar o silêncio e lutar pela verdade.
Que a sua alma descanse em paz, meu Comandante.
Por: Lucas Pedro