
Sem margem para qualquer sentimento de dúvida, o mandato de João Lourenço, na qualidade de Presidente da República tem a construção e/ou reabilitação de unidades hospitalares, um pouco por todo o país, como uma das marcas que a história e ninguém poderá olvidar, por tudo i que se fale ao meio.
Tendo como base o artigo 120.º da Constituição da República de Angola, compete ao Presidente da República, enquanto Titular do Poder Executivo, a) Definir a orientação política do país, nos termos da Constituição; b) Dirigir a política geral de governação do País e da Administração Pública.
Deste comando constitucional depreende-se que, nos termos do acima referido, a aposta na construção de hospitais resulta da visão e conhecimento que o Presidente João Lourenço tem sobre o assunto, sendo certo que não se deve descurar outras fontes de informação julgadas credíveis e essenciais que ajudam para que a decisão tomada esteja cunhada do necessário êxito.
Aliás, dito pelo próprio Presidente da República, o facto de ser filho de um enfermeiro (em memória) levou-o, com as devidas aspas necessárias à compreensão, a crescer em ambiente hospitalar, facto que, se calhar, terá motivado, a partida, alguma relação de afecto com o referido sector, que se revela agora com as obras em referência.
É mister recordar que o início do exercício das funções de Titular do Poder Executivo, em 2017, ficou marcado com a visita ao hospital Sanatório de Luanda que viria a ser reabilitado, ampliado e remanejado na sua vocação inicial, elevado à categoria de Complexo Hospitalar de Doenças Cardio Vasculares, rebaptizado com o nome do Cardeal Dom Alexandre de Nascimento, e, por conseguinte, de muitas boas referências.
Ao meio foram conhecidas outras tantas acções nesta direcção, das quais se destacam os hospitais Bispo Emílio de Carvalho, Guilherme Pereira Inglês, Walter Strongway, Heróis do Kifangondo, reabilitação do Hospital Militar Principal, para além da disposição de várias unidades vocacionadas para a prestação de serviços de hemodiálises que, diga-se em jeito de recordação, durante largos anos, constituiu uma grande preocupação do Sistema Nacional de Saúde, realidade que obrigava a evacuação de muitos compatriotas para outras latitudes do mundo, em busca do tratamento relacionado à citada patologia e com isso, muitas divisas gastas do erário.
O mesmo pode ser dito em relação aos serviços de cirurgias com determinado grau de complexidade, que vêm diminuindo à medida que aumentam os investimentos no sector e, fundamentalmente, na capacidade técnica e profissional dos médicos e demais agentes do sistema médico, que não pode ser preterida.
Não queremos dizer que as políticas em curso no sector de Saúde estejam isentas de observações críticas por parte de quem tem uma visão diferente em relação ao assunto, a exemplo de certos comentários ouvidos da parte de médicos, alguns dos quais defendem que o ideal seria a aposta nas unidades hospitalares do 1º nível, por serem aquelas que atendem as preocupações primárias nas localidades, sendo o melhor caminho para desafogar os hospitais do nível 3.
Porém, não querendo entrar nos “entretantos” do que melhor os especialistas conhecem e defendem, bem como as razões que sustentam as decisões políticas para que o Executivo aja na direcção que o faz, é dado adquirido que, em termos de infra-estruturas de saúde, Angola de hoje em nada se compara com o passado. Há uma assinalável e inegável evolução, sendo o resto, como tudo, questão de pontos de vistas cuja diferença é sustentada pelo axioma da convivência na diferença, que promove evolução.
Ainda bem que o Presidente da República tem consciência e disse-o em voz alta, que apesar de todo este trabalho, “ainda não nos podemos dar por satisfeitos”, pois o processo é para continuar.
Todavia, considerando como introito tudo que até aqui foi escrito, abrimos parêntesis para, de forma particular, fazer referência ao hospital geral do Cunene, designado General Simione Mucune, inaugurado na sexta-feira pelo Presidente da República, em mais um acto que reforça o sentido atribuído à visão de João Lourenço sobre a implantação de novas unidades sanitárias um pouco por todo o país, equipadas com o que de melhor existe no mercado internacional.
Nada que seja ou esteja muito aquém de outros hospitais anteriormente construídos e inaugurados. Aliás, cada caso é um caso e deve ser analisado numa perspectiva própria. É, pois, com este sentimento que consideramos existirem valências para concluirmos que o hospital ora inaugurado detém singularidades que elevam o valor da sua existência.
Uma delas tem que ver com o facto de ter sido baptizado com o nome do falecido General Simione Mucune, tombado em defesa da pátria, concretamente da província do Bié que, a par de Malanje, resistiram ao cerco militar imposto no reinício da guerra civil que o país vivenciou no pós-eleições de 1992, no limiar da implementação do sistema democrático, com o qual se pensou que o chão angolano jamais seria irrigado com o valoroso sangue dos seus filhos, tombados como resultado de uma guerra para a qual foram empurrados.
Infelizmente não foi assim. O país viu partir para outra dimensão da vida, de forma prematura, compatriotas destemidos, com folhas de serviço relevantes, sobretudo da manutenção da independência e defesa das consagradas definições de ser, Angola, uma pátria una, de Cabinda ao Cunene, do Mar ao Leste, com um só povo e uma só nação, dos quais ressaltavam a saga de comandantes no Bié, cujos nomes na galeria dos defensores da referida província se acham na ordem de Mambi, que antecedera Alfredo Kussumua, sucedido por Simione Mucune, cujo sangue regou o solo pátrio em defesa do aeroporto de Andulo, na sequência da “Operação Restauro”, em Outubro de 1999.
Consideramos uma homenagem mais do que justa, que eterniza o nome de um herdeiro da têmpera de Mandume Ndemufayo, que pela valentia, orgulho combativo e elegante altivez, era conhecido como quem vivia em permanente desafio para o cumprimento do dever, com zelo e profundo sentido de Estado.
Ainda que os homens tivessem esquecido dele, eis aí o exemplo vivo de que a Pátria jamais esquece os que a defenderam com brio nos momentos críticos e de provação para a conquista da paz para a qual muito contribuiu o General Simione Mucune, que tem o nome igualmente num Instituto Médio Técnico, para além de um bairro na capital do país, realidade que prova o afecto e consideração que o finado General merece do povo angolano.
Este tributo suscita a provocação dos mais jovens procurarem saber mais sobre a história do referido homem de farda, relembrado pelos companheiros de trincheira como o Comandante que, nos momentos de desespero, quando a situação se mostrava mais complicada, durante a heróica resistência na cidade mártir do Cuito, apelidada de “Sarajevo africana”, expressava, de forma serena, palavras de alento para milhões de angolanos, de Cabinda ao Cunene e do mar ao Leste, celebrizadas com a promessa de que ” o Cuito não cairia, nunca”… E não caiu mesmo.
Mais do que justa a homenagem ao General Simione Mukune, que continua na galeria dos principais cabos-de-guerra angolanos, aqueles que nas mais complexas operações militares em que participaram transmitiam, sempre, uma inabalável imagem de força e carácter e, por isso, merecem eternas honras, como esta que fica registada com a entrada em funcionamento do Hospital Geral do Cunene. Bem haja a todos.
*Jornalista