
Entre os proclamados influenciadores, personal training, palestrantes, conselheiros e pseudo especialistas em tudo e nada, cujos discursos são ampliados e reconhecidos por via do poder concedido pelas diversas plataformas de comunicação digital, que os citam como os arautos de verdades imaculadas, onde fica o papel do professor tradicional?
Entendida como a pergunta de partida, o assunto levantado suscita uma análise profunda, particularmente para a realidade angolana onde os “citados agentes”, em não poucos casos, detêm um perfil cuja avaliação oferece resultados nem sempre valorados no âmbito da ética e da moral.
Partindo da definição de serem pessoas que, por meio da produção de conteúdos em canais online, como redes sociais e blogs, atraem uma quantidade massiva de seguidores, os influenciadores digitais, por norma, apresentam comportamentos que para além de viralizarem com facilidade e, atingindo diferentes esferas midiáticas, levam os seus seguidores a adoptarem igual postura.
Convém referir que, de géneses, os influenciadores estão ligados ao mundo do marketing, incidindo a acção no sentido de levar os seguidores a comprar um determinado produto.
Esse é, com certo rigor, o poder da aceitação de alguém como influenciador digitais.
Claro que devemos aceitar as derivações que determinados conceitos permitem. Da mesma forma, somos impelidos a concordar que, muitas vezes, as transições do conceito original para as adaptações em outros sentidos da vida têm resultados largamente contrários aos da origem do conceito.
Nesta perspectiva, na sua maioria, os influenciadores digitais angolanos representam excelentes exemplos do que acima afirmamos, pois pautam a sua actuação com abordagens que, para além da busca de “likes”, tendem a macular a honra e bom nome de outrem, não poucas vezes sem fundamentos para aduzir numa eventual acção judicial.
Estes nem sequer atendem ao respeito à honra, o bom nome e demais comandos normativos da sã convivência social. Antes, optam pela busca de algum protagonismo, por via do desprezível prazer de devassar a vida íntima de outrem, coberto da má interpretação do conceito de influenciador.
Mais ainda, os pseudo influenciadores angolanos, muitos deles não reúnem os requisitos estabelecidos para que assim sejam considerados, tais como celebridades, autoridade de nicho, possuir uma marca pessoal global, influenciadores locais e ou activistas.
Impondo-se a necessidade de definição de cada uma das categorias que promovem os cidadãos ao estatuto de influenciadores, o que se diz em relação às celebridades é que elas são influenciadores muito antes da internet. Logo, a julgar pela composição do nosso mosaico de influenciadores, as celebridades estão descartadas.
É bom referir que toda a fama das celebridades faz com que pessoas “comuns” se inspirem nelas, nos seus comportamentos, tipos de roupa, estilo de vida, dentre outras coisas que por cá não ocorrem com assinalável frequência.
A realidade acima descrita leva-nos a concluir que ser celebridade exige um investimento de capital maior. Sobre essa categoria, mais não digo.
Em relação ao facto de ser “Autoridade de nicho”, geralmente, os influenciadores digitais com perfil de autoridade são pessoas que têm experiência sobre algum tópico e passam a explorar esse conhecimento na internet, nada que se compare aos “despreparos” que constituem a marca de eleição de grande parte dos influenciadores digitais angolanos.
Quanto os de carácter da “Marca Pessoal global”, o influenciador é quem “nasceu” na internet e construiu o seu nome em torno de um tópico ou assunto, com uma actuação abrangente a nível nacional ou global. E será que temos esta categoria em Angola?
Com considerável margem de aceitação, podemos achar que Angola tem alguns influenciadores locais, cuja actuação, normalmente, está atrelada a uma cidade ou região. Essa categoria possui uma segmentação de público muito mais específica do que as celebridades e, mesmo possuindo um raio de alcance menor, eles influenciam as decisões de pessoas.
Em resumo, quase que somos obrigados a fechar o assunto e dizer que, de facto, por via de uma análise profunda e com base no que até aqui foi discorrido, não temos, em Angola, influenciadores com competência e actuação capaz de servir de extensão dos professores no entendimento profundo da missão que este mestre do ofício desempenha na sociedade.
É, pois, por esta constatação que decidimos por esta abordagem para sair em defesa do professor, cuja missão espinhosa representa o princípio essencial da formatação do ser humano, enquanto agente fundamental e principal do processo de transformação da sociedade.
Aos professores permanece atribuída, com sentido de eterna, a missão especial de, diária e constantemente, preparar as aula com conhecimentos sólidos pois têm a espinhosa tarefa de enfrentar as salas de aula no formato físico tradicional e, para além de formatar a mentalidade de uma sociedade académica cada vez mais heterogénea, ser confrontado com o que muitos estudantes absorvem dos pseudo influenciadores digitais, quanto mais grande, na versão angolana.
A degradação do tecido social angolano fundado, sobretudo na perca dos valores ético e morais a vários níveis, obrigam-nos a reverenciar o professor na sua vocação tradicional, em contra ponto com a tendência de aprendizado que deriva das redes sociais, onde os arautos da verdade são os influenciadores digitais, que fazem das lives e demais postes a sua afirmação laboral, intoxicando a mente dos desafortunados em termos de intelectualidade e capacidade cognitiva.
O momento impõe abordagem de reposição de verdades que há muito desapareceram da pauta da convivência social, em vários casos por culpa do mau uso das tecnologias de informação e comunicação, aproveitadas para ampliação das incivilidades e toda a espécie de impropérios, sem que isso significa que elas, as TIC não promovem valores de excelência.
Continua a ser verdadeira a afirmação de que o professor é peça fundamental na essência do saber para os desafios da construção de uma verdadeira nação.
Infelizmente, a modernidade tende a construir uma narrativa em que se acha normal a substituição do bem necessário ensinado pelo professor, pelas futilidades incorporadas no leito da disseminação de informação (nem sempre é conhecimento), que se tornou uma fonte privilegiada até mesmo de quem não deveria se conformar.
Para fim de conversa, o professor continua a deter, com alguma exclusividade, o papel de principal influenciador, num sentido muito mais largo da interpretação do termo.
*Jornalista