
A crise pós-eleitoral em Moçambique, marcada pelas manifestações convocadas pelo candidato presidencial Venâncio Mondlane, tem o condão de não deixar indiferentes os cidadãos daquele país. As manifestações descambaram para o vandalismo e em muitos casos suscitaram reacção violenta das autoridades policiais.
Dezenas de mortes foram confirmadas. Venâncio Mondlane auto-exilou-se na África do Sul e depois algures, de onde, através das redes sociais, emitiu os comandos para as manifestações.
A Frelimo, enquanto movimento de libertação nacional, galvanizou as populações em prol da independência do país. Alcançada a independência transformou-se em partido político movido pela ideologia marxista-leninista.
A sua intenção de edificar em Moçambique uma sociedade igualitária, de tendência socialista e pró-comunista, com controlo férreo e monolítico do poder político, esbarrou no contexto adverso da Guerra Fria, com as acirradas contendas ideológicas Leste/Oeste e as invasões do Exército da África do Sul sob o apartheid.
Este país também servia de rectaguarda segura da rebelião interna personificada na Renamo de Afonso Dhlakama. O desmoronar da União Soviética e da sua influência global levou a Frelimo a adaptar-se aos novos tempos, a abrir o sistema político ao multipartidarismo e a adoptar a economia de mercado.
Fica por conta de um exercício de história reversa (ou de “passadologia” em contraponto a futurologia) a questão de saber se, se não fora o contexto mencionado acima, Moçambique alcançaria o desiderato da tal sociedade igualitária, socialista e pró-comunista.
A realidade é que Moçambique transformou-se numa sociedade profundamente desigual, com a emergência de uma elite privilegiada oriunda dos antigos combatentes pela Independência, o alargar da pobreza extrema, o desemprego maciço e a corrupção nas altas esferas do poder. Ora, a Frelimo, apesar desse cenário, foi sucessivamente ganhando as eleições com maiorias qualificadas.
Se essas vitórias se deveram ao mérito próprio, a inépcia dos adversários ou a fraudes, um dia a história vai apurar. O certo é que agora a sociedade moçambicana está fracturada. Sectores que antes alinhavam-se incondicionalmente com o partido no poder ou escudavam-se na indiferença táctica ou estratégica, ante a actual crise tomam posição autónoma.
Num gesto inusitado, a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), na voz do seu presidente Filimone Meigos, propôs a criação de um “governo de inclusão” para acabar com a violência pós-eleitoral.
O escritor apelou a “um encontro urgente” entre os dois candidatos presidenciais mais votados, Daniel Chapo e Venâncio Mondlane, tendo em vista discutirem “a realização de um acordo para terminar com o actual clima de instabilidade e violência para evitar mais perda de vidas humanas e destruição de infra-estruturas”.
O escritor Ungulani Ba Ka Khosa, autor do romance “Ualalapi”, disse que a Frelimo “está à deriva, desconectada da realidade, e muito longe de um ancoradouro sustentável. Mas está mesmo!”, para depois concluir com o apelo quase dramático: “Reencontrem-se e dialoguem com esta juventude que representa o Futuro. O futuro pertence-lhes! E a nós também”.
O premiadíssimo escritor Mia Couto, numa carta dirigida ao bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique, apelou a esta agremiação para ajudar a esclarecer que “pelo simples facto de se anunciarem ‘pacíficas’ as manifestações não se tornam imediatamente legais” e que “por mais que sejam justas, as greves precisam de serem organizadas de acordo com o que está estabelecido pela lei”.
Mia Couto pediu ainda à OAM que “com a mesma coragem e isenção com que vieram a público condenar as irregularidade eleitorais, compareçam agora e com urgência para ajudar a informar sobre as regras que a lei define”.
Amosse Mucavele, poeta que emergiu na cena literária do pós-independência, insurgiu-se contra a perspectiva legalista do seu confrade Mia Couto, frisando que “pretende negar a influência política nos últimos acontecimentos que o país assiste, é como golpear a realidade com metáforas dolorosas”.
Outro reputado escritor, Marcelo Panguana, pronunciou-se nos seguintes termos: “Precisamos (…) buscar nos livros dos escritores moçambicanos os elementos afectivos capazes de sossegar a nossa alma, de nos colocar em harmonia e por conseguinte dignos desta Pátria implantada nas margens do Índico”.
Pelos vistos, acabou o tempo dos escritores estarem comodamente encima dos muros a ver a corrente do rio passar ou fechados em torres de marfim a cultuar as musas. Eles desceram dos muros ou saíram das torres de marfim e tomam posições de cidadania a favor ou contra a situação reinante, o que os torna coerentes com as posições defendidas ou combatidas nos seus contos, romances ou poemas.
Aliás, sabe-se que a literatura de Moçambique tem um forte pendor de crítica social e política. Tudo isso reacende, em geral, a questão do papel social do escritor e se ele deve circunscrever-se tão somente à escrita literária e ao domínio estrito da cultura ou se deve e pode pronunciar-se a respeito de todos os outros aspectos da vida do país e do mundo.
*Jornalista e escritor