
Cada vez mais consumidores na província de Benguela ressentem-se das dificuldades na aquisição de cimento, devido à subida constante do preço no mercado, especialmente nos últimos três meses do ano.
Até setembro deste ano, era possível adquirir um saco de 50 quilogramas de cimento por pouco mais de 5.000 kwanzas, mas o valor subiu para 6.600 kz e 7.500 kwanzas, chegando a custar 8.000 kz em alguns pontos do mercado informal.
Benedito Ndoluca, gerente de uma loja no bairro da Graça, nos arredores da cidade de Benguela, confirmou que, há duas semanas, o preço do produto foi ajustado, passando de 6.800 kz para 7.500 kz. Segundo ele, a subida é motivada pelo aumento do preço por parte dos fornecedores nos últimos meses.
“Os fornecedores estão sempre a subir o preço. Isso obriga-nos a alterar o valor”, esclareceu o gerente, destacando que a mudança não está relacionada com a quadra festiva, mas diretamente ligada aos custos repassados pelos fornecedores.
Na entrada do bairro do Tchipiandalo, junto à Estrada Nacional EN100, Maria de Lurdes, gerente de uma loja, disse que o cimento Yetu custa agora 7.000 kwanzas, contra os anteriores 6.800 kz. Ela também mencionou que os fornecedores justificam a subida com o aumento do preço nas cimenteiras localizadas em Benguela (Cimenfort e Secil), Cuanza-Sul (Yetu) e Luanda (Cimangola).
Apesar de reconhecer o impacto negativo no bolso dos consumidores, a gerente salientou que, enquanto a situação persistir, os revendedores não terão outra opção senão ajustar os preços para garantir algum lucro.
Já no centro da cidade de Benguela, a maioria das lojas detidas por estrangeiros — sobretudo malianos, mauritanos e eritreus —, o saco de 50 quilogramas de cimento custa, no mínimo, 6.600 kwanzas, um valor ligeiramente mais acessível do que o praticado na periferia.
Um comerciante localizado junto ao histórico Largo da Peça, que preferiu o anonimato, revelou que, a cada semana, o preço do cimento aumenta entre 200 e 300 kwanzas nas cimenteiras do país, o que justifica a subida contínua nos mercados locais. Segundo ele, esta situação tem afastado os clientes e diminuído as vendas.
Sindicato alerta para momento difícil
O secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Construção e Habitação de Benguela, Cândido Victorino, atribuiu a oscilação dos preços aos elevados custos de produção. Segundo ele, as cimenteiras nacionais enfrentam dificuldades na aquisição de matérias-primas, especialmente o clínquer, necessário para a produção de cimento.
Victorino apelou ao Governo para que adote políticas de apoio ao setor, facilitando a aquisição de matérias-primas e peças sobressalentes para as máquinas das cimenteiras.
O sindicalista alertou que a subida do preço do cimento tem um impacto negativo na economia nacional, uma vez que paralisa obras e empurra centenas de jovens para o desemprego.
“O sector está a atravessar um momento muito difícil devido à crise. É preciso que o Governo intervenha para evitar que a situação se agrave”, alertou o responsável sindical.
Consumidores ressentidos
António Candele, que paralisou a construção da sua casa há quase um ano, mostrou-se indignado com o aumento do preço do cimento.
“Já parei a minha obra e não consigo fazer mais nada. O preço do cimento está a subir de forma assustadora”, lamentou, denunciando que em alguns pontos de distribuição o saco de 50 kg já custa 8.000 kwanzas.
Segundo ele, outros materiais de construção, como blocos e ferro, também estão desajustados da realidade económica, levando muitos cidadãos a interromper as suas obras. “Vamos voltar ao adobe. Tudo está caro a cada dia que passa”, afirmou visivelmente agastado.
Fernando António, um mototaxista, partilha do mesmo sentimento, referindo que o aumento do preço do cimento “matou o sonho da casa própria” para muitos jovens de baixa renda.
“O cimento está mesmo muito alto e nós não conseguimos construir a nossa casa. O Governo precisa rever essa situação, porque o cimento é produzido no país e merecia ter um preço mais acessível”, apelou.
Teresa Domingos, vendedora de cimento por quilo no Largo da Peça, explicou que cada quilo custa 250 kwanzas. Ela relembrou que, até setembro deste ano, comprava o saco de cimento a 4.500 kwanzas, mas agora paga 6.800 kz, o que tem afastado a clientela. “Às vezes levo três semanas para vender um saco de 50 quilos. Está muito difícil”, revelou.
Isabel Esperança, uma jovem recentemente atraída para o negócio de venda de cimento a retalho, mostrou-se igualmente insatisfeita com as constantes oscilações.
“Comecei a vender há um mês, quando o saco custava 5.000 kwanzas. Agora já está em 6.800 kz. Assim fica difícil sustentar a minha família”, desabafou, com o filho ao colo.
in Angop