
É agindo, todos os dias, especialmente para aqueles que o podem fazer (indivíduos ou organizações sociais) que resolveremos o problema bem identificado de Angola.
Resumo dos resumos, o problema de Angola, mãe dos inúmeros problemas enfrentados pelas populações do país, há já mais de duas décadas que terminou a guerra civil, é termos um sistema político que promove e protege o abuso do poder, por aqueles que o detém, contando com a conformação de quase todos.
Uma das áreas onde mais essa situação se tem verificado – e isso é a todos títulos extremamente grave – é no domínio da justiça, tanto no seu sentido mais lato como no estrito.
Se a decisão para a absolvição de José Filomeno dos Santos “Zenu”, pelo Tribunal Constitucional não foi apenas teatral, quando o Tribunal Supremo manteve, incompreensivelmente, a sua posição perante um não crime, haverá maior banalização do sentido de justiça, em Angola, do que esse indulto, em boa hora recusado pelo suposto beneficiário?
Ouço alguns dizendo que essa é uma atitude não pragmática, perante o regime que temos. Mas eu acho que pensar assim é irmos consagrando, embora num plano aparentemente simbólico, a nossa complacência com situações gravíssimas que nos acontecem quase todos os dias.
Só uns dois “exemploszinhos”: aquela vergonhosa dificuldade de ligação, por estrada, que eu conheço, entre cidades do centro e sul, como as grandes e carismáticas cidades do Huambo, Lubango, Moçâmedes e Benguela, já foram superadas, em tempos de promoção do turismo, agricultura e outros factores para a diversificação da economia?
Como será, quão cara e quanto tempo vai levar a transportação dos materiais de construção para o leste do país, onde, por um golpe de mágica, foram criadas mais duas províncias desprovidas de estradas e outras infra-estruturas básicas?
E o alívio da fome e da miséria a espera?
Entretanto, todos nos recordamos e o próprio Presidente [da República] o salientou nos primeiros discursos do seu, inicialmente, tão aclamado consulado, que a prioridade seria o estabelecimento das autarquias locais, para darmos os primeiros passos na tão necessária descentralização do Estado!
Outros dizem não achar graça nenhuma na atitude de alguém que é filho de quem montou este sistema, que à hora da partida se virou contra si e seus próprios e tão exageradamente acarinhados rebentos.
Eu acho sim, que é um exemplo a seguir, o de Zenu. Porque como costumo dizer, a bola de neve da renovação de Angola deve rolar do presente para o futuro e não do presente para um passado de tanta coisa mal feita e pensada, por causa dos nossos ódios e vinganças.
*Jurista e antigo secretário-geral do MPLA