
É por via da Literatura que se intensificam muitos debates filosóficos, antropológicos e culturais sobre a identidade e a condição do angolano de forma aberta e livre, no quadro do debate ideológico e no respeito das diferenças.
Neste sentido, a Literatura é das artes que mais tem contribuído para a democratização do conhecimento e as liberdades individuais
A história da literatura tem demonstrado que as literaturas estão intrinsecamente ligadas ao surgimento dos Estados, outras vezes antecipando-se a estes, como é o caso do nosso país, cuja Literatura se firma inequivocamente com o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, vulgo MNIA, antes mesmo da constituição de um Estado angolano soberano.
A Literatura deve ser encarada, também, entre outros conceitos, como uma manifestação cultural, sendo, enquanto arte, uma disciplina vinculada à antropologia cultural.
Neste sentido, ela vem inequivocamente contribuindo para a consolidação dos processos de uma pretensa angolanidade que começou a ser projectada muitos anos antes da independência nacional.
A Literatura não é meramente um objecto de fruição estética, ou seja, não serve apenas para o deleite humano, encerrando igualmente uma dimensão sociocultural, que permite compreendê-la não só como um instrumento de intervenção social, no quadro da Literatura propagandística, mas também como um instrumento de construção de identidades e do homem íntegro, através da sua dimensão pedagógica.
Em virtude do que se disse no parágrafo anterior, podemos assim dizer que, na verdade, são diversos os sectores que, durante estes 50 anos, podemos identificar como tendo sido impactados pela Literatura.
A educação é, por tudo o que ela representa e pela natureza da própria literatura, o sector mais óbvio, onde, por via do texto literário, objectiva-se construir o homem, através da leitura de textos literários e livros de géneros diversos que abordem sobre o seu passado, sua ancestralidade, revelem a sua cultura e o introduzam numa cultura mundial, através da leitura dos grandes clássicos da Literatura universal.
Nos primeiros anos de independência, havendo uma escassez de quadros, a Literatura deu por empréstimo quadros que vêm sustentando a governação do país durante estes 50 anos de independência, desde Ministros, Secretários de Estado, a Deputados à Assembleia Nacional.
Ademais, aliado a este facto, não podemos nos esquecer que o primeiro presidente da República, Dr. António Agostinho Neto, embora tendo exercido outras actividades, é melhor identificado como poeta.
Em termos de socialização, durante estes anos, a Literatura tem igualmente concentrado uma massa considerável de boa gente, colocando indivíduos de diferentes extractos sociais e estatutos etários no mesmo local, longe dos preconceitos habituais, mormente na União dos Escritores Angolanos, entre outros lugares.
Isto só acontece porque a Literatura é uma arma de humanização muito poderosa e está acima de qualquer preconceito, sobretudo quando os indivíduos se entendem “literariamente”.
A Literatura contribuiu significativamente, mais do que qualquer outro sector, estimo, para a existência de uma indústria do livro que ainda estamos longe de ter, por conta de tudo o que ela envolve, desde papelaria, gráficas em estado de massificação, editoras no verdadeiro sentido do termo, a compradores em abundância.
Com efeito, a existência do livro em si e a sobrevivência deste sector está atrelado àquilo que a Literatura pode dar.
Como ex-secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, posso afirmar estas coisas com algum grau de confiança. Publicamos mais obras literárias do que livros técnicos em Angola.
Esta realidade, a de publicação dos livros técnicos com certo grau de frequência, sem medo de errar, podemos assegurar que seja ligeiramente recente. Aliado a este facto, a Literatura não contribuiu apenas com obras literárias, mas também com os estudos literários, com a ensaística, etc.
Voltando-se aos primeiros anos da independência, e mesmo em nossos dias, é por via da Literatura que se intensificam muitos debates filosóficos, antropológicos e culturais sobre a identidade e a condição do angolano de forma aberta e livre, no quadro do debate ideológico e no respeito das diferenças.
Neste sentido, a Literatura é das artes que mais tem contribuído para a democratização do conhecimento e para a proclamação das liberdades individuais.
Para terminar este artigo de opinião, por tudo isso que disse, peço às entidades de direito, para que se lembrem do contributo que a literatura deu para o alcance da independência nacional, para afirmação das culturas nacionais e para a existência de quadros com alguma qualidade num período crítico da nossa história de formação de quadros, para, a partir de agora começarem a olhar para esta arte com o respeito e a dignidade que ela merece.
*Escritor