O regresso de Donald Trump à Casa Branca – Carlos Kandanda
O regresso de Donald Trump à Casa Branca – Carlos Kandanda
donald trump

O poder político é um “fenómeno social” que caracteriza a vida humana na sua dimensão global, e que serve de instrumento catalisador da transformação da humanidade e da sociedade.

O filósofo Immanuel Kant afirmava que «o fenómeno é tudo o que é objecto de experiência possível, isto é, tudo o que aparece no tempo ou no espaço, e que manifesta as relações determinadas pelas categorias».

Noutras palavras, uma categoria é uma classe, uma ordem ou uma posição específica e concreta dentro da pirâmide do Estado ou na hierarquia social ou administrativa.

O pirâmide do Estado é composto pela superestrutura, pelo tronco e pela base. Essa estrutura piramidal assenta numa hierarquia vertical com os órgãos horizontais de soberania, com poderes próprios que estão interligados e interdependentes, regidos pelo princípio de separação dos poderes, isto é, de checks & balances.

Logo, nas democracias avançadas, como dos EUA, o poder político é exercido neste parâmetro conceptual, acima referido, que define a doutrina, o ideário, as metas e a estratégia global.

É neste contexto filosófico que devemos situar o regresso, em peso, do Donald Trump à Casa Branca na altura em que o mundo está em via de transformação, de transição e de reordenamento.

Independentemente do desejo ardente de cada um de nós, a verdade é que, Donald Trump é um «fenómeno», um político astuto, convicto e persistente, que regressa à arena internacional num contexto turbulento da geopolítica mundial em que os EUA se encontra numa posição fragilizada, cuja doutrina e estruturas do Estado estão em decadência, diante os grandes desafios na Europa, no Médio Oriente, na América Latina, na Ásia e em África.

Acompanhei atentamente o discurso de empossamento (20/01/2025) do Donald Trump e voltei a escultá-lo novamente. Achei que estamos perante um outro Donald Trump: um homem sereno, frontal, concentrado e explícito naquilo que ele pretende fazer.

Ele apareceu no pódio como um “leão ferido” que está em perigo e pronto para atacar qualquer alvo que estiver dentro do seu alcance.

Aliás, ele tem uma percepção bem clara da geopolítica mundial, e sobretudo, da presença em peso da China e da Rússia na América Latina, ao longo das vias marítimas dos oceanos Atlântico e Pacífico. Com destaque, no mar das Caraíbas, no golfo do México e no canal do Panamá.

Há um conjunto de coisas que Donald Trump afirmou no seu discurso de empossamento, que são muito sérias, e que qualquer o patriota de bom senso, que pugna pelo bem-estar do seu povo, havia de defender e de fazer, por todos os meios.

Pois, um governante que coloca os interesses alheios em primeiro lugar em detrimento do seu povo é um traidor que deve ser combatido fortemente e derrubado.

Só que, estamos na aldeia global como uma comunidade única ligada por uma vasta rede de comunicações e do mercado comum, que permitem o intercâmbio comercial e a partilha de conhecimentos e valores. Portanto, nenhum país do mundo, por mais poderoso que seja, pode viver sozinho isolado de outrem.

Não obstante, lendo atentamente o discurso de Donald Trump acabei de perceber porque os americanos, apesar de adversidades que caracterizam a figura do Donald Trump, mas mesmo assim, votaram nele massivamente, dando-lhe a maioria expressiva nas duas Câmaras (Senado e Congresso), em detrimento da Kamala Harris, candidata do Partido Democrata, que parecia favorita, gozando da simpatia enorme da União Europeia. A democracia real funciona na base da vontade dos eleitores e não dos outsiders.

Todavia, a intenção de escrever esta reflexão não consiste em analisar na profundidade a política interna e externa do Donald Trump contida no seu discurso de empossamento, que é bastante complexo, controverso e pragmático. Pelo contrário, a minha ideia é de apenas chamar a nossa atenção aos seguintes factos:

O mundo vai entrar numa nova era de disputa geopolítica entre as três superpotências, em busca de recursos minerais críticos, de vias marítimas, de espaços de influências, de mercados e de parcerias estratégicas.

A corrida ao Universo, que requer recursos minerais e altas tecnologias, não será feita sem contar com os recursos minerais críticos da África Subsaariana. O que implica implicitamente consequências nefastas para os povos africanos.

Aquilo que aconteceu durante o «tráfico negreiro» e a «colonização» da África vai seguir o mesmo cenário da«recolonização» do Continente. Só que, desta vez, a recolonização da África Subsaariana não será feita pelos Europeus, mas sim, pela China, pela Rússia e pelos Estados Unidos da América.

A Europa vai buscar os seus caminhos para se «defender» da expansão Russa, sem contar muito com os EUA. Ao menos, com a crise em vista dentro da Aliança Transatlântica, a Europa poderá libertar-se da «subserviência» e da «dependência» aos EUA. Isso ajudará a Europa sair do «Pacifismo Passivo» que caracterizou a política europeia desde o final da Guerra Fria, no início da década 90.

Pelos vistos, os EUA estará mais virada para a América Latina e para o Médio Oriente em termos da geo-estratégia e da «manutenção» do poder global e da supremacia mundial.

Os países africanos, na maioria parte, estarão mais inclinados à China, que além da sua Política que assenta nos Princípios da Coexistência Pacífica e de Não-intervencionismo, a China está economicamente bem implantada em África e tem a «Vontade Política» de investir em peso nas economias africanas.

Quando terminou a guerra civil angolana, em 2002, foi a China que reabilitou e construiu as infra-estruturas do nosso país, inclusive o Porto do Lobito e o Caminho de Ferro de Benguela.

O protecionismo e a desumanização da migração humana defendido pelo Donald Trump, como Cavalo de Troia, acabará por lançar os EUA no isolamento.

O Direito Internacional, que assenta no multilateralismo e na economia de livre mercado, vai sofrer grandes retrocessos perante o protecionismo, unilateralismo e a lei da selva, que se apoiam na grandeza e na prepotência das superpotências mundiais.

Em fim, a entrada em peso dos EUA no mercado petrolífero vai desarticular as economias africanas do enclave, dependentes do petróleo, como é o caso de Angola e da Nigéria.

A queda do preço do petróleo no mercado internacional terá consequências calamitosas sobre a economia angolana que, por além de estar em ruina, a sua dívida pública direta é altíssima e insustentável.

O mega projecto do Corredor do Lobito, que depende dos minérios críticos da RDC, além de estar na incerteza, ele não constitui a panaceia para salvar Angola da crise económica profunda em que ela se encontra neste momento.

A política do Donald Trump e as exigências de boa governação, da competência, da prestação de contas, da transparência, da democracia, da liberdade e da presença do poder judiciário equilibrado, livre, imparcial e sem instrumentalização política, que Donald Trump defende, é um arauto bem-evidente que enuncia os fundamentos da cooperação económica entre os EUA e os regimes corruptos e autoritários do continente africano.

Em síntese, a eleição do Donald Trump, um magnata controverso, mostra explicitamente que, a democracia americana depende da competência e da vontade dos cidadãos eleitores que elegem a pessoa da sua confiança.

Caso contrário, um negro como Barack Obama, de uma minoria negra, não teria hipótese de ser eleito por dois mandatos pela maioria branca, que domina o poder económico-finaceiro.

Conforme afirmei na introdução, independentemente do desejo ardente de cada um de nós, a verdade é que, Donald Trump é um «fenómeno», um político astuto, convicto e persistente.

Ele regressa à arena internacional num contexto turbulento da geopolítica mundial, em que, os EUA se encontra numa posição fragilizada, cuja doutrina e estruturas do Estado estão em «decadência», diante os grandes desafios na Europa, no Médio Oriente, na América Latina, na Ásia e em África.

O que Donald Trump fará perante este contexto nebuloso? Com certeza, isso dependerá das suas virtudes e instintos e da vontade do povo americano em inverter este quadro e seguir decididamente para frente.

Porém, há o perigo iminente. Se os EUA não apoiar-se na NATO e na União Europeia será dificílimo conter a expansão Russa na Europa e no Médio Oriente, e sobretudo, no Mar Mediterrâneo e no Norte da África.

Pois, a cultura europeia é a «matriz» da civilização ocidental e do cristianismo. Na minha opinião pessoal, os EUA sem apoiar-se na Europa, cedo ou tarde terminará por entrar em colapso como aconteceu com o desmoronamento gradual do Império Romano.

Pois, América Latina, com a sua identidade cultural distinta, nunca deixará de sujeitar-se aos EUA e defendê-lo contra a China e a Rússia.

*Ex-deputado à Assembleia Nacional

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido