
A transformação digital vem redefinindo a gestão pública em diversos países e, em Angola, a Administração Geral Tributária (AGT) enfrenta o imperativo de modernizar seus sistemas e processos para acompanhar as demandas de um ambiente económico cada vez mais dinâmico e competitivo.
Em um cenário marcado por desafios macroeconómicos, a eficácia da arrecadação fiscal é fundamental para a estabilidade das contas públicas e para o desenvolvimento de políticas que impulsionem o crescimento sustentável.
Apesar de os esforços para adoptar soluções tecnológicas, a AGT ainda lida com diversas barreiras que comprometem a eficiência e a transparência do sistema tributário como a Infra-estrutura Tecnológica Deficiente.
De lembrar que os sistemas utilizados ainda se baseiam em tecnologias legadas, o que dificulta a integração e o processamento de dados em tempo real.
Essa defasagem impede uma visão consolidada e actualizada da situação fiscal do país, limitando a capacidade de resposta frente a fraudes e evasões.
A digitalização amplia a exposição a ataques cibernéticos. Sem investimentos robustos em segurança da informação, há o risco de vulnerabilidades que podem comprometer dados sensíveis, minando a confiança dos contribuintes e dos investidores.
A modernização não se restringe à aquisição de novas tecnologias. A capacitação dos servidores e a transformação da cultura organizacional são essenciais para que as inovações se consolidem e tragam os benefícios esperados.
Muitas vezes, a resistência à mudança e a carência de formação específica limitam o aproveitamento pleno das ferramentas digitais.
A ausência de sistemas interoperáveis entre a AGT e outras entidades governamentais dificulta a troca de informações e a aplicação de políticas fiscais coordenadas. Essa fragmentação pode levar a redundâncias, ineficiências e, em última instância, à perda de arrecadação.
Como fazedor de opinião, é necessário apontar que, embora a digitalização represente uma oportunidade ímpar para aprimorar a gestão tributária, o ritmo e a qualidade das mudanças implementadas pela AGT ainda deixam a desejar:
Diante desse cenário desafiador, é imprescindível que a AGT adote medidas estruturais que não só modernizem os sistemas, mas que também repensem os processos administrativos e a cultura organizacional como modernizar os sistemas legados por meio da implementação de plataformas baseadas em tecnologia de ponta, como cloud computing, que possibilitam escalabilidade, flexibilidade e integração dos dados.
Adopção de ferramentas de Big Data e Analytics para desenvolver sistemas de análise de dados que permitam identificar padrões de evasão fiscal, aprimorando a fiscalização e a tomada de decisões estratégicas.
Explorar o potencial do blockchain para garantir a integridade e rastreabilidade das operações fiscais, aumentando a segurança e a confiança dos contribuintes.
Implementar medidas avançadas de cibersegurança, incluindo auditorias regulares, criptografia de dados e monitoramento contínuo das redes, estabelecer parcerias com empresas especializadas em segurança digital para realizar treinamentos e garantir a actualização constante das melhores práticas.
Por outra, desenvolver programas de capacitação focados em habilidades digitais e gestão de dados, preparando os funcionários para operar em um ambiente tecnológico avançado.
A Administração Geral Tributária deve criar um ecossistema digital que permita a integração entre a AGT e outros órgãos governamentais, facilitando o compartilhamento de informações e a coordenação de políticas fiscais.
Além disso, desenvolver um portal digital único para os contribuintes, onde possam acessar informações, realizar declarações e acompanhar a evolução de seus processos de forma transparente e intuitiva.
A modernização da AGT não deve ser vista apenas como uma reforma interna, mas como um pilar estratégico para a melhoria do ambiente de negócios em Angola.
Ao aumentar a eficiência na arrecadação e reduzir a evasão fiscal, o Estado terá maior capacidade de investir em infra-estrutura, educação e saúde, áreas essenciais para o desenvolvimento económico sustentável.
Além disso:
Dessa forma, podemos dizer que a digitalização da AGT é uma necessidade imperativa para que Angola possa enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais interconectado e competitivo.
A modernização tributária, se bem implementada, trará ganhos significativos em termos de eficiência fiscal, transparência e, consequentemente, em crescimento económico.
Entretanto, é fundamental que essa transformação seja conduzida de forma integrada, envolvendo investimentos tecnológicos, capacitação dos servidores, aprimoramento dos mecanismos de segurança e um forte compromisso com a transparência e a integração interinstitucional.
A agenda de modernização deve ser encarada como um processo contínuo, que requer não apenas a actualização de sistemas, mas também uma mudança cultural que permita à AGT atuar de forma proativa, acompanhando as inovações e antecipando os desafios do futuro.
Somente assim, a modernização tributária se consolidará como um verdadeiro motor de competitividade e desenvolvimento para Angola, beneficiando toda a sociedade.
*Economista e especialista em Economia do Desenvolvimento