
De um tempo à esta parte tenho observado, com estarrecedora preocupação, a forma como certas individualidades ou entidades angolanas reagem à morte de alguns compatriotas, sobretudo àqueles cuja notoriedade é reconhecida e aplaudida pela sociedade, por conta da actividade de que se ocuparam, enquanto vivos.
O destaque recai para o mundo da música, particularmente na vertente do Kuduro, estilo cuja estrutura frásica, rítmica e coreográfica, para além de bem apreciada e praticada maioritariamente por jovens, tem força suficiente para catapultar os seus fazedores aos palcos da fama, muitas vezes irrompendo a passarela sem o mínimo respeito das normas mínimas aceites na convivência social.
Esta realidade anexa às abordagens da questão alguns adjectivos nem sempre digeríveis. Mas, convenhamos, o kuduru é um fenómeno da contemporaneidade social angolana, e não deve ser desvalorizado em todo, pelo facto de existir a percepção de ser um “mundo” em que se normaliza a sacralização do banal, até porque são conhecidos exemplos que confirmam o adágio segundo o qual “ a regra tem sempre excepção”.
Neste prisma, penso que Mano Chaba, recentemente falecido, pode ser citado como uma referência na escala positiva da matriz do movimento kudurista e suas falanges de apoio, compreendidas e defendidas pelos consumidores do referido estilo de música, que se conflui na dança e num código próprio de existência, como é o conhecido “rompimento”.
Importa referir que, muitas vezes, o sucesso e o seu autor vivem encarcerados nas suas jurisdições habitacionais, normalmente constituídas por “guetos” (sem qualquer sentimento pejorativo), irrompendo as fronteiras através da comunidade de candongueiros que, em boa análise, exercem o papel de excelentes canais de promoção dos mesmos.
A posterior, tal qual o cumprimento de uma norma, emergem os promotores, muitos deles aproveitadores, que viabilizam a chegada dos agenciados à grande média, considerada a rampa de lançamento para a afirmação no mundo das artes augurando, e diferente não devia ser, o sucesso e todas as suas positivas derivações. Uns tantos, claro, “rocham”, linguajar próprio do léxico daquele estrato musical, que significa mal sucedido.
Os que se dão bem conquistam lugar quase que cativo, ainda que circunstancialmente, atendendo o tempo de vida útil que normalmente é efémero para as músicas do padrão em questão, bem como as suas consagradas danças. Existem, repito, os casos que podem ser considerados excepções, que podem ser contados num dedos de uma só mão humana.
Advogo que a sociedade angolana tem mantido no arquivo a necessidade de uma abordagem mais elaborada, longe dos “bifes” característicos do metier, adiando assim a possibilidade de compreensão e extracção do que de melhor e positivo o fenónemo kuduro tem e pode servir para o património cultural colectivo.
Se é que até aqui tudo pode ser considerado normal e aceitável, o mesmo não deve ser dito em relação à maneira como alguns compatriotas reagem à morte de um “famoso” kudurista, estilo musical que, por sí só, se constituiu como fenómeno social, detentora de história e estórias próprias, mas com espaço para todos.
Do grupo dos que, na minha visão, se manifestam de forma questionável, destacam-se políticos (principalmente deputados), empresários e dirigentes de instituições públicas e privadas, com alguma notoriedade social.
Para mim, tais manifestações têm tudo e mais alguma coisa para serem compreendidas como meros exercícios de politização da morte de outrem.
Dito de outra maneira, podem ser vistas como actos de aproveitamento para o reforço e venda do marketing pessoal que, em linguagem comum, pode entender-se como “showismo” ou “madoísmo”, sendo os seus actores os “showistas ou madós”.
O mais recente exemplo foi demostrado na morte de Mano Chaba, cuja repercussão ultrapassou o mero sentimento de dor e luto, atingindo uma dimensão social de relevância, ao ponto de mobilizar até a Polícia Nacional, que destacou para o funeral um considerável aparato de homens e meios que nem foram suficientes para, na plenitude, manter a desejada ordem na perspectiva de manutenção das arruaças que, por norma, marcam os funerais de músicos famosos.
Estou convencido de não cometer qualquer tipo de acusação gratuita se afirmar que algumas pessoas que se fizeram presentes à casa do óbito nunca antes tinham escutado um trecho sequer das músicas do finado artista – se calhar nem o conheceram mesmo -, “face to face”, sendo que, com esta afirmação se reforça a compreensão de ser deste texto.
Agrego como elemento de desvalorização o facto de alguns deles nem saberem conjugar as cores da vestimenta e demais acessórios ao momento e outras circunstâncias típicas do infortúnios para onde vão, muitas vezes exibindo fios, mascotes, anéis e outras peças de ouro de muitos quilates, facto revelador de algum desconhecimento de regras de etiqueta que demandam, igualmente, princípios morais.
Em jeito de brincadeira, mas bem ao estilo da nossa idiossincrasia social, uma das conclusões a que se chegam é a de que eles dão muitas “bandeiras”, e terminam revelando o sentido real da presença deles nos óbitos, que fim ao cabo transformam em acto de politização da morte de outrem.
A “jincana” não fica por aí, ultrapassa o ambiente envolvente da morte de homens das artes. Aliás, não são poucas as vezes que assistimos uma espécie de espectacularização da morte, mesmo aquelas consequências de intempéries naturais como a chuva, que para alguns funcionam como talk show.
Reafirmo que tudo o resto não passa de exercícios que visam obter ganhos à imagem pessoal ou institucional por via da exploração de um gritante nível de iliteracia política de muitos de nós, muitas vezes “hipnotizados” por actos de charme político como os que motivaram a elaboração deste artigo que não vale mais do que uma reflexão solitária, com algum pendor de condenação a quem assim procede, em defesa da honra e todos os valores reservados à morte de alguém, atitude deplorável a todos os níveis.
*Jornalista