Mestre em delírio, doutor em dividir – Jorge Eurico
Mestre em delírio, doutor em dividir - Jorge Eurico
jorge eurico

Há dias, um ficto teólogo pan-africanista, doutorado em delírio e pós-graduado em alucinação aplicada, concedeu uma entrevista na qual afirmou que Deus dos africanos se exprime em kikongo.

Na doce passagem da verbalização pública sem responsabilidade, sugeriu que quem não domina kikongo é menos menos angolano. Menos africano.

O nome do sujeito que proferiu tal dislate sequer interessa. Tão pouco o veículo que lhe abriu as portas e o microfone. Ambos têm tanto valor quanto o disparate apresentado pelo pregador identitário.

Marcolino Moco ouviu (ou leu) as declarações do referido “militante do aburado” e reagiu da seguinte forma:

“Angola e angolanidade são entidades em construção, voltadas para o futuro e não para passados que dividem.” O antigo Primeiro-Ministro apelou à consolidação de instituições para que sirvam a todos, respeitando as inevitáveis diferenças entre os cidadãos.

Quando ainda era bambino e pioneiro de Agostinho Neto, e fazia tudo pela construção do socialismo em Angola, aprendi que o racismo, o tribalismo, o fanatismo e o regionalismo eram crimes de lesa-pátria.

Eram tempos em que enchíamos os pulmões para desencorajar e condenar todos os ismos com um tronitruante “Abaixo!”. Menos o comunismo.

Hoje, ninguém liga para isso. Esses crimes viraram memes. Os ismos ressuscitaram nas redes sociais, que viabilizaram a banalização e a irresponsabilidade.

Vamos lá ver se nos (des)entendemos. Deus não tem etnia. A língua oficial de Angola é o português. A Constituição vigente é clara quanto a isso. Nenhum cidadão é menos angolano por não falar a língua nkongo ou qualquer outra que não seja a oficial.

Rejeito a sacralização das línguas regionais como critério de pertença ou de genuína angolanidade.

A teoria da “Angola Profunda” sempre revolveu o meu estômago de forma violenta. Nunca ninguém explicou de forma clara e plausível o que isso significa, do ponto de vista antropológico, histórico e até epistemológico.

Angola (ainda) não se mede por dialetos. A menos que esteja a caminho do modelo do Rwanda. Jornalistas e podcasters devem procurar entrevistar figuras idôneas, com responsabilidade política e ética constitucional.

A Radio Télévision Libre des Mille Collines (RTLM) foi criada por extremistas hutus em 1993. Durante o genocídio de 1994 no Rwanda, disseminou propaganda de ódio e desinformação, veiculando mensagens explícitas incitando à violência contra tutsis e hutus moderados. Listou nomes e endereços de pessoas a serem eliminadas. Foi uma das ferramentas mais eficazes e letais do massacre do Rwanda.

As redes sociais e os meios convencionais angolanos precisam de cuidar no sentido de não transformar Angola no Rwanda de 1994. Nem hoje, nem amanhã. Angola é una e indivisível. Não existem grupos etnolinguísticos ou raças supremas em Angola. Cuidado com os estereótipos.

Será que está em forma o surgimento de um novo tipo de extremismo em Angola, uma espécie de nacionalismo étnico?

Foi assim como vimos em outros momentos da história, busca dividir e excluir, à semelhança do que se fez no século XX.

Que Deus salve o nosso País e o proteja de profetas de ocasião com altar no YouTube.

*Jornalista

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