Ibrahim Traoré é um produto de laboratório — Nsambanzary Newton Xirimbimbi
Ibrahim Traoré é um produto de laboratório — Nsambanzary Newton Xirimbimbi
Ibrahim Traoré

A euforia em torno do puto capitão comando Ibrahim Traoré, Presidente de transição do Burkina Faso, atingiu proporções quase míticas.

Nas redes sociais, ele é retratado como um messias africano moderno: aquele que resgatará o continente da pobreza, desafiará as potências ocidentais e transformará um dos países mais pobres do mundo numa potência regional em poucos meses. Mas é preciso respirar fundo, sair da bolha das redes e olhar para a realidade.

Recentemente, fomos bombardeados com manchetes que mais parecem saídas de um guião de ficção do que de um relatório factual: “Traoré aumenta salários da função pública em 50%”, “pagou toda a dívida nacional sem apoio externo”, “Burkina Faso constrói um banco de financiamento alternativo ao FMI”, “milhares de quilómetros de estradas já em construção”, “crescimento económico superior ao dobro de Angola”. Tudo isso em menos de dois anos de um governo de transição sob estado de emergência e guerra.

Onde estão as fontes credíveis que confirmam tamanhas conquistas? Procuramos dados no Banco Mundial, no FMI, em instituições independentes — e nada.

Nenhum relatório validado, nenhuma estatística sustentada por evidência empírica. Apenas postagens virais, vídeos editados e frases triunfalistas sem verificação.

A CONSTRUÇÃO DE UM MITO

É legítimo desejar heróis. É legítimo sonhar com uma África forte e independente. Mas transformar Ibrahim Traoré num mito, sem base factual, apenas contribui para perpetuar o ciclo de decepções.

Há um verdadeiro laboratório de propaganda a operar — e com maestria. A imagem do capitão com pistola no cólder, rodeado de militares, discursando em tom revolucionário, é poderosa. Mexe com emoções. Mas revolução sem estrutura, sem estabilidade e sem plano realista não passa de teatro.

A segurança no Sahel está pior hoje do que antes da ascensão desses regimes militares. O terrorismo continua a ceifar vidas. A fome ainda grassa. E o desenvolvimento económico continua estagnado.

Não se transforma uma economia devastada por décadas de conflito com vídeos motivacionais no TikTok.

O MITO DO INIMIGO EXTERNO

Outra peça central da narrativa é a constante invocação de um inimigo externo. França, Estados Unidos, FMI, “o Ocidente” — todos supostamente conspiram contra o “despertar africano”.

Essa tese é sedutora, mas perigosamente simplista. A verdade é que nenhuma potência estrangeira age por altruísmo. Nem o Ocidente, nem a Rússia, nem a China.

Todos perseguem interesses próprios — e o fazem com habilidade. Trocar a influência francesa pela russa não é independência. É mudar de tutor.

Há ainda quem atribua até os apagões na Europa à “punição” de Paris pela perda do urânio africano. Narrativa ridícula. A França tem várias fontes de urânio — Níger é apenas uma entre muitas.

Essa teoria da conspiração é tão frágil quanto a crença de que o mundo está a conspirar contra Traoré por “inveja” do seu sucesso.

RESIGNAÇÃO NÃO É OPÇÃO, MAS TAMBÉM A EUFORIA NÃO NOS VAI LEVAR À LADO NENHUM

Os africanos têm razão em desejar mudanças. O colonialismo nos deixou feridas profundas, e o sistema político-económico pós-independência só as agravou. Mas a solução não virá da fuga para o estrangeiro, nem da resignação, nem de messianismos virais. Ela virá do trabalho árduo, da racionalidade, da competência técnica e do fortalecimento interno.

É preciso parar de transferir frustrações para ícones fabricados. Lembram-se do delírio em torno de Venâncio Mondlane?

O mesmo padrão de euforia vazia, nascido da frustração interna. O problema é que esse entusiasmo irracional impede que se façam as perguntas certas.

O VERDADEIRO DESPERTAR

Um verdadeiro líder africano precisa de menos propaganda e mais resultados verificáveis. Precisa ser amado não porque carrega uma pistola, mas porque promove segurança e desenvolvimento. Não precisa blindar-se contra o povo que, supostamente, o adora.

Se a juventude africana deseja mesmo um novo rumo, que comece por valorizar o pensamento crítico, desconfiar das narrativas fáceis e procurar dados.

A libertação não se dará por likes ou vídeos motivacionais — será conquistada com educação, instituições sólidas e políticas públicas sustentáveis.

*Docente

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