
A reflexão que se segue é apenas um chamado à consciência colectiva. Em tempos de crise sanitária global, vimos como os governos foram capazes de reagir com celeridade para proteger vidas. Contudo, essa mesma urgência não se observa no combate à miséria e à corrupção, flagelos que afectam milhões de africanos há décadas.
O presente artigo tem como objecto analisar as raízes dessa negligência e as implicações políticas da falta de uma ética de responsabilidade. A lição prática aqui destacada é clara: a mudança não virá apenas de discursos, mas de uma governação genuinamente comprometida com o bem-estar social.
Max Weber, em “A Política como Vocação” (1919, edição de 2020), diferencia a ética da convicção da ética da responsabilidade. A primeira segue princípios rígidos, alheia às consequências; a segunda exige pragmatismo, considerando os efeitos sobre a sociedade.
Em África, e particularmente, em Angola, a ausência alguma, ética da responsabilidade perpetua a ineficácia governamental: enquanto a infra-estrutura, a saúde e a educação degradam-se, recursos são desviados para interesses privados.
A conivência de potências externas, beneficiárias da instabilidade africana, reforça esse ciclo vicioso. A lógica da exclusão pode contribuir para a manutenção da desigualdade e a perpectuação de elites, dificultando o acesso equitativo às oportunidades para a maioria da população.
Em Angola, um país com vasto potencial económico, persistem desafios que limitam o pleno aproveitamento dos seus recursos em benefício de todos.
A recente epidemia de cólera em Luanda destaca a necessidade de um reforço contínuo nas políticas de saneamento básico, um factor essencial para a saúde pública.
Como afirmava Aristóteles: O cargo público revela aquilo de que um homem é capaz, pois governar é estar em relação com outrem e em comunidade (2018, p. 120). Essa reflexão convida à busca por soluções mais inclusivas, que promovam o bem-estar colectivo e fortaleçam o desenvolvimento sustentável.
Que revelação terrível fazem, então, os nossos líderes? A corrupção africana não é uma falha isolada, mas um sintoma de um sistema global que lucra com a desordem.
A pandemia da COVID-19 mostrou a capacidade do Mundo de mobilizar-se contra um inimigo comum. No entanto, doenças como a malária e a fome continuam a devastar populações inteiras sem despertar a mesma urgência. O que diferencia essas crises? O impacto directo sobre as grandes potências.
A indiferença diante da miséria alheia revela não apenas prioridades distorcidas, mas uma falência moral colectiva. Se a pobreza fosse combatida com a mesma intensidade que a pandemia, a dignidade humana deixaria de ser um privilégio e tornar-se-ia um direito efectivo.
O combate à pobreza exige mais do que discursos políticos; requer políticas públicas eficientes, governação íntegra e um compromisso real com o bem-estar colectivo. No entanto, a ausência de uma visão de Estado agrava a fragilidade das instituições e eterniza a dependência externa.
Jean-Jacques Rousseau, em “Do Contrato Social” (1762), ensina que a legitimidade de um governo reside na sua capacidade de representar a vontade geral, e não interesses particulares.
No entanto, a realidade da maior parte do mundo é oposta: elites, geralmente, capturam o poder para perpectuar privilégios, distorcendo o propósito do Estado.
Amartya Sen, em “Desenvolvimento como Liberdade” (2010), argumenta que o progresso autêntico exige liberdade política e económica. Sem essas condições, as populações desfavorecidas resignam-se à sua privação, sem força para exigir mudanças.
John Rawls, em “Uma Teoria da Justiça” (1971), propõe que as instituições devem garantir equidade de oportunidades. No entanto, os sistemas políticos africanos continuam a funcionar como fortalezas exclusivas, negando acesso ao progresso para grande parte da população. Os governantes não podem ser meros gestores burocráticos; devem assumir um compromisso moral e político com o desenvolvimento social. Sem isso, permanecemos reféns de Estados falidos, onde a cidadania se reduz a um conceito abstracto.
A dependência de muitos líderes africanos do Ocidente é alarmante. Buscam tratamento médico no estrangeiro, educam os seus filhos fora do país e garantem o seu conforto futuro com fortunas depositadas em bancos internacionais. Essa mentalidade colonialista revela um défice de soberania e perpetua a vulnerabilidade política e económica. Enquanto os credores ocidentais negociam a partir de salas modestas, os governantes africanos ostentam hotéis luxuosos, comitivas vultosas e veículos extravagantes. No fim, os recursos captados dificilmente beneficiam a população.
Deaton (2017, p. 23) resume essa tragédia: os sofrimentos dos menos favorecidos deveriam estimular esforços para reduzir disparidades. Se não por altruísmo, ao menos porque a existência de uma classe privilegiada prova que a miséria não é inevitável.
Neste sentido, os governos africanos precisam, urgentemente, de redefinir suas prioridades. Patriotismo não se mede pela retórica, mas pela capacidade de transformar recursos em qualidade de vida para o povo.
A verdadeira batalha não é contra nações estrangeiras, mas contra a mentalidade de desperdício e submissão. Água potável, electricidade, saneamento, saúde e educação são direitos fundamentais que devem substituir os símbolos vazios de poder.
Quando um líder ocidental procurará tratamento médico em Angola? Quando enviará os seus filhos para estudar em Angola? São perguntas que expõem uma dolorosa verdade: governamos como se não fôssemos cidadãos da própria terra.
Dubai e Singapura são exemplos concretos de que o desenvolvimento não é um sonho inatingível. Outrora insignificantes, tornaram-se potências globais por meio de políticas públicas estratégicas e investimentos massivos no capital humano.
África não precisa de reinventar o progresso – basta aprender com os exemplos disponíveis. A transformação exige esforço, visão e compromisso inabalável com a mudança. Angola, e África, em geral, precisam despertar!
O futuro não se constrói com promessas ocas, mas com trabalho árduo e liderança responsável. A miséria e a corrupção não são fatalidades, mas sintomas de escolhas erradas.
Governar é mais do que ocupar um cargo; é moldar destinos e erguer nações. Que esse chamado à consciência não seja apenas um grito no deserto, mas o início de uma nova era de responsabilidade, justiça e dignidade. ‘A medida é o melhor limite’.
*Docente universitário, especialista em Comunicação Política, Diplomacia, Políticas Públicas e Cooperação Internacional