
Por ocasião do Dia Internacional da Pré-Eclâmpsia, que se assinalou a 22 de Maio, somos convidados a reflectir sobre uma das mais graves e silenciosas ameaças à saúde materna e perinatal: a pré-eclâmpsia.
Esta condição, frequentemente assintomática até atingir estágios críticos, continua a ser uma das principais causas de mortalidade materna no mundo, uma realidade com a qual Angola também se depara.
Estima-se que cerca de 10 por cento das mulheres grávidas desenvolvam hipertensão durante a gestação. A pré-eclâmpsia e a eclâmpsia, as suas formas mais graves, são responsáveis por aproximadamente 14 por cento de todas as mortes maternas a nível mundial.
E o que é mais alarmante? Muitas dessas mortes poderiam ser evitadas com intervenções simples, oportunas e fundamentadas em evidências científicas.
As regiões mais afectadas incluem a África Subsaariana e o Sudeste Asiático, onde os Sistemas de Saúde ainda enfrentam desafios estruturais significativos no acesso a cuidados pré-natais de qualidade. Angola, inserida na região africana da Organização Mundial da Saúde (OMS), continua a ser um dos países mais vulneráveis.
Apesar dos avanços alcançados na última década, com uma diminuição de 239 para 185 por 100.000 nascidos vivos entre 2016 e 2024 (dados do IIMS), a pré-eclâmpsia continua a ser uma das principais causas de morte entre mulheres grávidas no país.
Todos os anos, as doenças hipertensivas, especialmente a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia, respondem por cerca de 15 por cento da mortalidade materna em Angola, afectando principalmente, as mulheres com acesso limitado a cuidados de saúde, educação e nutrição adequados.
A OMS tem sido uma parceira essencial na luta contra esta doença. Através da elaboração de directrizes clínicas, acções de formação e apoio técnico, a organização tem ajudado países como Angola a reforçar a resposta a essa ameaça.
É importante destacar as suas directrizes actualizadas em 2023, que recomendam, entre outras medidas, a realização de pelo menos oito consultas pré-natais durante a gravidez, com monitorização regular da pressão arterial e da presença de proteínas na urina, sinais precoces que indicam risco.
Além disso, recomenda-se fortemente a administração de aspirina em baixa dose (75 a 150 mg por dia) a partir da 12.ª semana de gestação para mulheres com alto risco. Em contextos de baixa ingestão de cálcio, situação comum em muitas comunidades angolanas, a suplementação diária de 1,5 a 2 gramas de cálcio pode reduzir significativamente o risco de desenvolver pré-eclâmpsia.
Em casos graves, o sulfato de magnésio continua a ser o medicamento de escolha para prevenir convulsões e tratar a eclâmpsia. Estas medidas são simples, acessíveis, de baixo custo e têm potencial para salvar vidas.
No entanto, as directrizes, por si só, não salvam vidas. É necessário um Sistema de Saúde resiliente, com profissionais capacitados, disponibilidade constante de medicamentos, vigilância eficaz, acesso à informação e educação, e, acima de tudo, o envolvimento comunitário. A saúde materna não é apenas uma questão médica, mas reflecte o compromisso de toda a sociedade com a dignidade e os direitos das suas mulheres.
Por isso, todos somos chamados a agir: o Governo, os políticos, as famílias, o sector privado, os meios de comunicação social, entre outros.
Neste mês dedicado a pré-eclâmpsia, na minha qualidade de mulher e mãe, deixo-lhe algumas perguntas para reflexão:
a) Quantas mortes maternas mais estaremos dispostos a aceitar antes de agir com firmeza?
b) Que valor atribuímos à vida das nossas mães, irmãs, filhas e esposas?
c) Estamos, de facto, a fazer tudo o que está ao nosso alcance para garantir uma gravidez segura para todas?
É urgente reafirmar o nosso compromisso colectivo: nenhuma mulher deve morrer por causas evitáveis durante a gravidez. Todas as gravidezes devem ser seguras. Todos os partos devem ser assistidos por profissionais qualificados. Todas as mulheres merecem respeito e dignidade.
A luta contra a pré-eclâmpsia deve ser uma luta de todos nós. Porque, afinal, esta é uma luta pela vida de uma mulher, mãe, esposa, irmã, prima ou amiga, o ser único capaz de garantir a continuidade das gerações e do país.
*Especialista de Saúde da OMS