Racismo à portuguesa e o mito dos brandos costumes – Raimundo Salvador
Racismo à portuguesa e o mito dos brandos costumes – Raimundo Salvador
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Portugal está finalmente a mostrar a sua verdadeira face. Por isso não deveria causar espanto a espiral xenófoba e racista que está a tomar conta da “grande nação valente”. Um país tantas vezes descrito como terra de “brandos costumes” e imune às derivas radicais que afligem outras partes da Europa.

A realidade é outra: Portugal sempre teve espaço para o florescimento de discursos racistas, ainda que muitos prefiram ignorar essa verdade. Durante anos, houve quem afirmasse que nunca vingaria um partido como a Frente Nacional francesa.

Contudo, o Chega, liderado por André Ventura, mostrou o contrário. O partido não inventou o racismo, apenas lhe deu expressão política, voz e púlpito institucional. E os números confirmam: segundo o Eurobarómetro da Discriminação (2023), 62 por cento dos portugueses reconhecem que a discriminação racial é um problema. Mas apenas 41 por cento acreditam que isso ocorre à sua volta, ou seja, negam o racismo, mas, contudo, o reproduzem.

E há mais: o relatório Being Black in the EU (Agência dos Direitos Fundamentais da UE) mostra que 71 por cento das pessoas negras em Portugal já sofreram discriminação racial, das maiores taxas da Europa.

E, segundo o European Social Survey, 29,9 por cento dos portugueses acreditam que algumas raças são menos inteligentes, 56,2 por cento acham certos grupos mais trabalhadores, e 76,8 por cento acreditam que algumas culturas são mais civilizadas. É o chamado racismo biológico, uma crença perigosa que continua viva no país do bom pastel de nata.

A exclusão vai além do discurso. Há em Portugal um número significativo de intelectuais negros – professores universitários, investigadores, escritores – muitos com laços activos com Angola, Moçambique, Cabo Verde. No entanto, raramente são convidados pelas televisões para comentar temas culturais, políticos ou sociais relacionados com África ou com a diáspora.

O espaço mediático português, sobretudo na televisão generalista, parece operar por “guetização” simbólica. A RTP África é o caso mais evidente: criada como canal dirigido aos países africanos e às comunidades africanas em Portugal, acabou por se tornar uma espécie de gueto televisivo institucional, onde se concentra grande parte dos jornalistas, apresentadores e repórteres de tez mais escura.

Apesar da sua existência representar uma conquista simbólica, a programação da RTP África frequentemente adopta um tom paternalista e a cultura africana é tratada como exótica, caricatural ou folclórica.

Em vez de integração plena na grelha televisiva nacional, os conteúdos sobre África e afro-descendentes portugueses são canalizados para um espaço à parte, como quem diz: a vossa voz tem espaço no quintal ou na cozinha, na sala de jantar só quando chamados.

Também a visibilidade em canais como RTP1, SIC ou TVI continua ínfima: segundo a ERC, menos de 1 por cento dos protagonistas nos telejornais portugueses são negros, embora representem cerca de 5 por cento da população residente.

Trata-se de uma exclusão estrutural e revela um padrão de invisibilização cuidadosamente mantido. Tudo isso tem raízes profundas. Portugal foi o primeiro império colonial europeu e um dos últimos a abolir o trabalho forçado em África.

Em Angola, por exemplo, a escravatura foi legal até 1962, mantida pelo infame “estatuto do indígena”, que negava direitos civis à esmagadora maioria da população negra. O Chega, portanto, apenas catalisa algo que já existia e a médio prazo pode ser poder. Portugal está finalmente a ver-se ao espelho.

O esbatimento da onda racista na pátria do Ti Celito, o Professor Rebelo de Sousa, afilhado do Marcelo, o Caetano, terá de começar primeiro pelo reconhecimento como nos grupos de combate ao alcoolismo. Primeiro a admissão – “eu sou racista” – e depois trabalha-se diariamente para contrariar isso – “hoje, eu não fui racista”.

*Jornalista

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