
O jornalista e analista político Jorge Eurico voltou a levantar a voz contra o que considera uma “grave injustiça institucional” cometida contra os oficiais superiores das Forças Armadas Angolanas (FAA), denunciando a deterioração das suas condições de vida e a desvalorização do seu papel histórico na construção da paz em Angola.
Num artigo de opinião publicado esta terça-feira na sua página do Facebook, sob o título “Heróis tratados como restos”, Jorge Eurico critica duramente o que classifica como um “esquecimento institucional sistemático” dos militares, especialmente desde a chegada do Presidente João Lourenço ao poder, em 2017.
O jornalista afirma que os generais e oficiais superiores das FAA têm sido tratados como “restos da guerra” e não como “heróis da paz”, sendo arrastados injustamente pelo discurso do combate à corrupção.
Eurico recorda o caso do Tenente-General Nelo Russo, que, em Junho de 2024, denunciou publicamente a “miséria, o abandono e a humilhação” que muitos militares enfrentam no país.
Desde então, segundo o jornalista, Nelo Russo foi silenciado, tornando-se um símbolo do que acontece aos que se atrevem a falar. “Em Angola, falar demais é um risco que se paga caro. O silêncio não é apenas imposto. É uma sentença”, escreveu.
O jornalista alerta para uma “crise militar latente” que, segundo ele, não se resolve com repressão ou purgas administrativas, mas com um gesto político de grandeza.
Propõe, entre outras medidas, a criação de um Conselho de Reconciliação Castrense, uma auditoria pública aos processos de reforma e desmobilização dos últimos dez anos, e a reintegração simbólica de figuras militares injustamente marginalizadas.
“Desde 2017, a tropa foi desmoralizada e invisibilizada, nivelada com os cidadãos mais pobres do país. A direcção do Estado que outrora os aclamou, hoje ignora-os, rebaixa-os, humilha-os”, lamenta Jorge Eurico.
O jornalista conclui o seu texto com um apelo directo ao Presidente da República e Comandante-em-Chefe das FAA. “Cabe agora a João Lourenço escolher entre a maturidade de estadista ou o impulso da vingança. O país já não tem margem para erros de carácter político e pessoal. É chegada a hora da responsabilidade política e da coragem moral”.
A publicação gerou diversas reacções nas redes sociais, entre as quais se destaca a do académico e docente universitário Nsambanzary Newton Xirimbimbi, que discordou do tom e da leitura feita por Jorge Eurico.
Em resposta, Xirimbimbi escreveu: “Meu irmão, tu és especialista em levantar não-assuntos. Vamos com calma. As FAA não estão em estado terminal como queres fazer parecer. Pelo contrário, gozam de relativa boa saúde institucional. Não são, claro, os funcionários públicos mais bem pagos — e isso é uma realidade transversal a muitos sectores em Angola — mas também não vivem no abandono ou na miséria generalizada que sugeres.”
O docente defendeu ainda o papel dos militares com base na sua missão patriótica e sentido de dever. “Convém lembrar que o tropa angolano não é mercenário. Não serve o país apenas por causa do salário, serve por dever, por honra e por convicção. É evidente que há desafios, como há em todos os sectores, mas transformá-los numa narrativa apocalíptica não ajuda ninguém.”
Para Xirimbimbi, o respeito devido aos militares deve passar por políticas públicas sólidas, mas também por um debate honesto e factual. “O que se exige é seriedade, não dramatização. O respeito aos militares faz-se com políticas consistentes, mas também com equilíbrio e verdade nos discursos. Se queremos debater a realidade das FAA, que seja com base em factos, não em ressentimentos.”
A troca de visões ilustra o crescente debate sobre o estado das Forças Armadas Angolanas e o papel do poder civil na valorização da sua estrutura militar, especialmente num contexto de desafios económicos e sociais. Para já, o tema promete continuar a gerar reacções dentro e fora das instituições.