O mercado das transferências na política angolana – Manuel Cornélio
O mercado das transferências na política angolana – Manuel Cornélio
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O ano pré-eleitoral em Angola não inaugura apenas um calendário de escrutínio, mas abre as portas de um autêntico entreposto comercial onde a ética é o primeiro produto a ser liquidado sob o pretexto da sobrevivência política. 

Desde 1992, assistimos a um roteiro de traições ideológicas que se repete como um ciclo vicioso e hediondo, sustentado por um sistema de financiamento que drena de forma parasitária o suor dos cidadãos mais paupérrimos para lubrificar as engrenagens de partidos desprovidos de alma e de projeto nacional. 

Esta realidade de pragmatismo amoral evoca a crueza descrita por Nicolau Maquiavel na sua obra “O Príncipe” (Pág. 84, 2008)”, onde o autor observa que “os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do património”, ilustrando com precisão cirúrgica como a busca desenfreada pela manutenção de privilégios financeiros sobrepuja, na nossa política, qualquer lealdade doutrinária ou compromisso sagrado com o povo.

O que hoje se desvenda perante os olhos da nação é a ascensão metastática do “pseudo-político”, um ator desprovido de coluna vertebral ideológica que se sujeita a qualquer mesquinhez por uma “lentilha de migalha de sobrolho”, vendendo a sua dignidade em troca de uma sobrevivência efêmera nos corredores do poder. 

É um insulto à inteligência coletiva e uma violação da dignidade humana que o cidadão, acorrentado por um imperativo legal, seja obrigado a depositar o seu voto em agremiações cujo modus operandi ignora o bem comum em favor da proteção de interesses financeiros mútuos. 

Esta patologia institucional encontra o seu diagnóstico na distinção fundamental de Max Weber em “A Política como Vocação” (Pág. 62, 1970), onde o sociólogo afirma categoricamente que “aquele que vive ‘da’ política como profissão procura fazer dela uma fonte de rendimentos duradoura”, transformando o que deveria ser um sacerdócio de serviço público num balcão de negócios privados onde a esperança do povo é a moeda de troca.

A perversidade deste sistema atinge o seu ápice moral quando constatamos que os fundos públicos, arrancados a ferros de uma população que definha na carência extrema e na falta de serviços básicos, são alocados para alimentar o luxo nababesco de elites partidárias que em nada contribuem para o melhoramento real da vida nacional. 

Enquanto o imposto não se traduz em pão, escola, emprego, água, energia, estrada ou hospital, ele garante a manutenção de estruturas que servem apenas para perpetuar o domínio de quem já lá está, cavando um abismo ainda maior entre governantes e governados. 

Como bem advertiu Jean-Jacques Rousseau em “O Contrato Social” (Pág. 108, 1996), “logo que o serviço público deixa de ser a principal ocupação dos cidadãos, e estes preferem servir com a sua bolsa a servir com a sua pessoa, o Estado já se encontra próximo da ruína”. 

Em Angola, a bolsa do cidadão não está a financiar o progresso, mas sim a fabricar a própria corda que asfixia a sua liberdade política.

A proliferação desenfreada de formações políticas e a febre das “transferências” que ocorrem sistematicamente à porta das eleições não são sinais de uma democracia vibrante, mas sim sintomas de uma busca frenética por rendas estatais, onde o partido político deixa de ser um instrumento de representação para se tornar uma empresa de extração de recursos. 

Esta lógica de mercado aplicada à política desvirtua o campo da disputa de ideias, transformando-o num jogo de soma zero onde o capital simbólico é sacrificado pelo capital financeiro. 

Pierre Bourdieu, em “O Poder Simbólico” (Pág. 165, 1989), esclarece que “o campo político é o lugar de uma luta concorrencial pelo poder que tem por parada o monopólio do direito de falar e de agir em nome do conjunto”, mas quando essa luta é movida exclusivamente pelo acesso ao Erário Público, o direito de representação torna-se uma fraude estatística desenhada para o enriquecimento ilícito.

Esta dinâmica de traições e mercantilismo estagnou o processo de democratização e tornou a real probabilidade de alternância política uma miragem distante, pois quem detém o controle dos fundos estatais manipula o tabuleiro ao seu bel-prazer, comprando consciências e silenciando dissidências com o dinheiro do próprio povo.

As transferências políticas de véspera são, na verdade, migrações sazonais em busca do pasto mais verde do financiamento público, ignorando olimpicamente o sentido de voto e a vontade de mudança das massas. 

Robert Michels, em “Sociologia dos Partidos Políticos” (Pág. 392, 1982), já denunciava a “lei de ferro da oligarquia”, apontando que as lideranças partidárias tendem a tornar-se castas fechadas, mais preocupadas com a sua própria conservação do que com os princípios que as criaram, o que em Angola se traduz numa elite que se serve do Estado enquanto o povo padece em sofrimento eterno.

Para que Angola quebre essas correntes de submissão e recupere a sua dignidade republicana, é urgente e inadiável uma reforma radical: os partidos políticos devem auto-financiar-se através das contribuições diretas dos seus membros e simpatizantes, erradicando de uma vez por todas a figura abjeta do político mercantilista. 

A política deve ser resgatada como uma missão de sacrifício; ela existe para servir o povo e não para que os políticos se sirvam dela para acumular fortunas obscenas. 

É imperativo reconhecer que só há este frenesi de transferências e adesões oportunistas em vésperas de eleições porque há a iminência de se abrirem as comportas de dinheiro vindas do Estado, que estas formações perseguem com uma ganância insaciável. 

Somente o fim deste financiamento público indiscriminado permitirá que a política volte a ser a arena da disputa pelo real poder de transformação social, garantindo que o propósito de qualquer governante seja a resolução das necessidades coletivas e não o enriquecimento fácil à custa da miséria alheia, enfim, é as transferências no fim.

*Activista e jurista

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