
A crise no Médio Oriente poderá reduzir em até 0,2% o crescimento económico de África em 2026, segundo um relatório conjunto apresentado esta semana por várias instituições internacionais.
O documento, intitulado “Impactos do Conflito no Médio Oriente nas Economias Africanas”, foi divulgado em Washington por organizações como o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), a União Africana, a Comissão Económica das Nações Unidas para África e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
De acordo com o relatório, os conflitos na região do Médio Oriente estão a provocar aumentos significativos nos preços dos hidrocarbonetos, produtos alimentares e fertilizantes, além de perturbações nas cadeias globais de abastecimento e volatilidade nos mercados financeiros.
As consequências são particularmente sensíveis em África, que depende fortemente da região para o fornecimento energético.
Conforme dados citados no relatório, cerca de 80% do petróleo importado pelo continente e 50% do petróleo refinado têm origem no Médio Oriente. O secretário executivo da UNECA, Claver Gatete, indicou que 31 países africanos já enfrentam desvalorização cambial associada a estes choques externos.
O economista-chefe do BAD, Kevin Urama, destacou o impacto do encerramento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas do comércio global de petróleo, sublinhando as consequências negativas para os transportes e o comércio internacional.
Apesar do cenário adverso, responsáveis das instituições envolvidas consideram que o continente demonstra “resiliência notável”, embora alertem para riscos acrescidos num contexto em que as economias africanas ainda recuperam dos efeitos da pandemia de COVID-19 e de outros choques globais.
Perante o agravamento da situação, Kevin Urama apelou aos governos africanos para evitarem decisões precipitadas que possam comprometer os equilíbrios orçamentais.
O relatório recomenda medidas como a gestão prudente da inflação, disciplina fiscal, sobretudo nos países exportadores de petróleo, reforço da monitorização da dívida pública e a implementação de apoios sociais direcionados às populações mais vulneráveis, alertando ainda contra subsídios generalizados que possam agravar os défices orçamentais a longo prazo.
Entre as soluções propostas, destaca-se o reforço do comércio intra-africano, nomeadamente nos sectores energético e agrícola, e a aceleração da implementação da Zona de Comércio Livre Continental Africana.
O relatório incentiva também a diversificação das fontes de energia, com maior investimento em energias renováveis e no gás, bem como a mobilização de financiamento interno para apoiar o desenvolvimento.
A vice-secretária-geral da ONU, Amina J. Mohammed, apelou à adopção de medidas que permitam salvaguardar os progressos alcançados no continente, sublinhando a importância de cumprir os objectivos da Agenda 2030 e da Agenda 2063.
Os autores defendem ainda uma resposta coordenada da comunidade internacional, incluindo apoio de emergência por parte de bancos multilaterais e instituições de financiamento do desenvolvimento.
Para a vice-presidente sénior do BAD, Marie-Laure Akin-Olugbagde, “nenhum país ou instituição pode enfrentar estes choques sozinho”, sendo necessária uma acção global concertada.
Já a directora regional do PNUD para África, Ahunna Eziakonwa, defendeu a necessidade de o continente apostar na independência energética e na inovação tecnológica como resposta estrutural às crises externas.