
Há perguntas que um país carrega como feridas abertas. Entre elas, uma cresce silenciosamente: qual é, afinal, a verdadeira responsabilidade dos serviços de inteligência e segurança do Estado angolano?
A resposta, que deveria ser clara como o dia, tornou-se um labirinto de sombras. Hoje, compreender a missão do SINSE é quase um exercício metafísico, porque a instituição parece mover-se num território onde a opacidade substituiu a estratégia, e o silêncio substituiu a acção.
O país enfrenta violações que ameaçam a sua estabilidade — infiltrações, raptos, crimes organizados, redes transnacionais, fragilidades fronteiriças — e, no entanto, o silêncio institucional torna-se mais audível do que qualquer relatório.
Como escreveu Hannah Arendt, “o perigo não está apenas no mal cometido, mas no mal ignorado”. E é precisamente essa ignorância institucional que inquieta.
As instituições públicas enfrentam perdas, desvios, fragilidades estruturais. O país sangra, não de forma visível, mas através de fissuras internas que se alargam com o tempo.
Roubos, raptos, homicídios, violações fronteiriças, infiltrações de agentes estrangeiros em sectores sensíveis — tudo isto deveria acionar mecanismos de defesa, vigilância e resposta.
Mas a resposta não chega. Ou chega onde não deveria.
Como observou Zygmunt Bauman, “as instituições modernas aprenderam a sobreviver deslocando a sua função para longe da sua razão de existir”. E é essa deslocação que muitos analistas apontam: uma instituição criada para proteger o Estado parece, por vezes, concentrar-se em vigiar jovens que protestam contra políticas públicas, em vez de enfrentar ameaças estruturais.
Quando a vigilância se desvia do essencial
A percepção de que o serviço de inteligência se tornou excessivamente atento a manifestações internas, enquanto fenómenos mais graves se intensificam, levanta questões profundas sobre prioridades.
A inteligência de Estado existe para proteger a soberania, a integridade territorial, a segurança nacional — não para se confundir com disputas políticas ou tensões sociais.
Michel Foucault alertava que “o poder perde-se quando se esquece da sua função e se ocupa apenas da sua própria conservação”. E é essa sensação que emerge: uma instituição que se fecha sobre si mesma, enquanto o país enfrenta desafios que exigem lucidez estratégica.
A urgência de reencontrar o propósito
Num contexto regional complexo — com novas políticas no país vizinho, a RDC, e fluxos migratórios que incluem grupos de latinos americanos deportados dos Estados Unidos para RDC— torna-se urgente reforçar mecanismos de controlo, análise e prevenção.
Não por medo do estrangeiro, mas por responsabilidade estratégica. A proliferação de redes transnacionais, quando associadas ao tráfico, pode tornar-se letal, como demonstram estudos internacionais.
A questão não é fechar fronteiras, mas compreender o que entra, quem entra e porquê entra. A inteligência existe para isso: para antecipar, prevenir, proteger.
Paul Ricoeur escreveu que “a responsabilidade é a forma mais elevada de memória”. E talvez seja isso que falta: memória institucional, visão estratégica, capacidade de distinguir o essencial do acessório.
O que está verdadeiramente em causa
No fim, a pergunta permanece, mais pesada do que antes: como pode um Estado proteger-se se os seus serviços de inteligência se afastam das ameaças que realmente o colocam em risco?
A resposta não está na repressão, nem no silêncio, nem na vigilância desviada. A resposta está em reencontrar o propósito original: proteger o Estado, proteger o território, proteger o povo.
Sem isso, a inteligência deixa de ser inteligência — torna-se apenas sombra.
*Investigador em Segurança e Defesa