
Há uma revolução em curso no Dundo, e declaro desde já a minha decidida simpatia por ela. Não se trata, felizmente, de uma revolução com discursos intermináveis, retratos presidenciais ou homens que descobrem a sua vocação histórica depois de lhes entregarem um megafone. É uma revolução contra o feio, talvez a única em que os escombros podem representar uma forma de progresso.
O Dundo possui uma arquitectura singular no panorama angolano. A cidade afasta-se, em muitos aspectos, do modelo colonial português e aproxima-se das influências belgas e britânicas associadas às antigas povoações mineiras.
Há ruas, casas e jardins que me fazem recordar pequenas cidades do Copperbelt zambiano, como Chingola, Chililabombwe e Mufulira.
No centro dessas cidades, ainda encontramos casas de tijolo vermelho, telhados inclinados, relvados amplos e árvores plantadas segundo uma disciplina que parece ter sido decretada por um arquitecto que acreditava na beleza tanto quanto na pontualidade.
Para quem já percorreu pequenas cidades mineiras britânicas, a sensação é familiar: estamos perante uma réplica tropical daquele mundo, apenas com um sol mais decidido e árvores muito menos obedientes.
Na Zâmbia, porém, existe uma devoção quase administrativa na preservação dessas casas. Não se permite que cada proprietário acrescente uma divisão segundo a revelação que o visitou depois do almoço.
As fachadas devem conservar-se, os relvados precisam de cuidados e até uma árvore desfruta de direitos que certos cidadãos apenas descobrem quando tentam cortá-la. Nesse momento, a autarquia aparece com a rapidez reservada às grandes emergências nacionais.
No Dundo, muitas das casas originais são belíssimas. Foram concebidas com proporção, simetria e um respeito pelo detalhe que hoje pareceria extravagante, pois construir apenas para servir já é considerado sensato, enquanto construir para encantar começa a ser visto como um excesso suspeito.
São casas feitas por gente que entendia que uma janela não serve apenas para deixar entrar a luz. Também deve ensinar a parede a comportar-se. Depois vieram as ampliações.
Junto de algumas dessas casas, ergueram-se anexos destinados a bares, lojas, quartos para arrendar e outros pequenos empreendimentos. Compreendo a necessidade económica.
Uma família cresce, os rendimentos encolhem e o proprietário descobre que a arquitectura original, por mais elegante que seja, não paga as contas. O problema começa quando a solução consiste em encostar à casa uma construção tão desajeitada que parece ter sido projectada durante uma desavença.
Há extensões de blocos de cimento coladas a fachadas harmoniosas, telhados improvisados, inclinados em direcções filosóficas, e varandas cuja única função parece ser castigar o edifício por ter nascido bonito. É como acrescentar um bolso de plástico a um vestido de cerimónia e justificar a operação dizendo que era preciso guardar o telemóvel.
As autoridades locais decidiram agora demolir muitas dessas ampliações. Naturalmente, destruir é sempre uma palavra perigosa. Contudo, quando se derruba uma deformação para devolver a um edifício o seu amor-próprio, a picareta pode tornar-se um instrumento de restauro. Não se está a eliminar a cidade, mas a libertá-la daquilo que lhe foi sendo acrescentado sem licença, harmonia ou remorso.
Também reparei, em certos bairros do Dundo, num esforço para recuperar os relvados e devolver alguma disciplina aos espaços exteriores. A relva está a ser regada, os jardins começam a respirar e a intenção dos arquitectos reaparece, algo surpreendida, por baixo de anos de abandono.
Um jardim negligenciado não morre de repente. Primeiro perde a forma, depois perde o respeito e, por fim, torna-se um lugar onde toda a gente julga ter o direito de atirar alguma coisa.
Quem desejar construir uma estrutura amorfa, inteiramente livre das tiranias da proporção, merece conservar esse direito. A liberdade artística inclui, sem dúvida, o direito ao monstruoso. Mas talvez seja preferível exercê-lo noutro terreno, longe de edifícios cuja beleza já estava completa antes de alguém decidir melhorá-la.
Penso muitas vezes num magnífico edifício situado no centro do Huambo. Terá pertencido a uma personagem próspera do período colonial e foi concebido quase como um pequeno palácio, com grandes divisões organizadas em torno de um pátio ou jardim interior. Ainda hoje se percebe a ambição do projecto. O edifício queria oferecer luz, serenidade e uma certa solenidade doméstica.
Agora encontra-se subdividido. Numa divisão funciona um salão de cabeleireiro; noutra, comerciantes da África Ocidental vendem telefones e outros artigos. Nada há de indigno nessas actividades.
O comércio é uma necessidade honesta e o cabelo, como sabemos, exige mais manutenção do que muitos monumentos nacionais. O problema reside na serena indiferença pelo conjunto.
A água deixou de correr. O espaço que deveria ser um jardim transformou-se num depósito de lixo. Algumas pessoas usam-no também como urinol, porque há cidadãos para quem qualquer recanto abandonado constitui imediatamente um convite à intimidade. O que nasceu como centro de harmonia converteu-se num lugar onde a beleza sobrevive apenas como testemunha de acusação.
Preservar a arquitectura não significa congelar uma cidade no passado. Significa permitir que ela avance sem apagar a sua memória. Uma cidade que destrói todos os sinais da sua concepção original acaba por parecer-se com alguém que queimou as fotografias da família para ter mais espaço na gaveta.
Por isso, apoio a revolução do Dundo. Que se retirem os anexos grotescos, que se recuperem os jardins e que as casas voltem a mostrar as proporções com que foram sonhadas.
Há revoluções que prometem criar um homem novo. Esta, mais modestamente e talvez com maior utilidade, procura apenas devolver às casas antigas a beleza que os homens novos lhes retiraram.
*Jornalista e escritor