
Por que razão um político com um passado empresarial tão fortemente ligado à construção civil e que há anos enfrenta questionamentos sobre conflitos de interesses aparece agora como aquele que promete resolver os problemas de água, energia, saúde, educação e infra-estruturas de Luanda?
A pergunta não é meramente retórica. Luís Nunes, actual primeiro-secretário provincial do MPLA em Luanda, voltou a apresentar-se como solução para os problemas da população, defendendo a “unidade, coesão e disciplina partidária” e prometendo, entre outras coisas, uma maior aproximação às comunidades.
“O nosso gabinete é na rua”, afirmou durante a apresentação das linhas de força da sua candidatura à liderança provincial do partido.
O discurso seria politicamente normal se não existisse, em torno da figura de Luís Nunes, um histórico de controvérsias relacionadas com a fronteira entre os interesses públicos e privados.
Antes de chegar ao poder, Nunes construiu uma carreira empresarial ligada a vários sectores, com particular destaque para a construção civil, incluindo a Omatapalo.
Durante o período em que exerceu funções governativas na Huíla e em Benguela, surgiram sucessivos questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses envolvendo empresas ligadas ao então governador.
Em 2019, por exemplo, o então deputado David Mendes acusou publicamente Luís Nunes de estar numa situação de conflito de interesses por, enquanto governador da Huíla, ter interesses empresariais relacionados com empresas envolvidas em obras públicas na província.
A questão ganhou particular dimensão porque estava em causa um programa de recuperação de infra-estruturas avaliado em centenas de milhões de dólares.
Quando assumiu o Governo de Benguela, em 2021, o próprio Luís Nunes reconheceu a sensibilidade do problema. Na altura, afirmou que seria contraditório retirar dinheiro do orçamento provincial para empresas suas e garantiu que a Omatapalo não participaria em obras provinciais.
Mas as dúvidas não desapareceram. Em Junho de 2021, o Novo Jornal voltou a questionar a aparente separação entre os interesses do governador e a actividade da Omatapalo, depois de a empresa surgir associada a intervenções de iluminação pública em Benguela.
A publicação levantou a questão de saber até que ponto as garantias dadas pelo governante estavam a ser efectivamente cumpridas.
Anos depois, o problema permanece politicamente actual. Em 2026, foram publicados novos questionamentos sobre a gestão de recursos públicos durante o período de Luís Nunes em Benguela, incluindo suspeitas de gestão danosa e má aplicação de fundos.
Trata-se de alegações jornalísticas que não equivalem a uma condenação judicial, mas que justificam, no mínimo, escrutínio público e respostas claras das autoridades competentes.
Mais recentemente, a discussão voltou a envolver a Omatapalo. Em Março de 2026, o Imparcial Press noticiou que uma empresa ligada ao grupo empresarial de Luís Nunes teria manifestado interesse em assumir a gestão da EPAL, situação que levantaria novamente questões de conflito de interesses devido à posição pública ocupada pelo governador de Luanda.
E é precisamente aqui que o discurso político de Luís Nunes merece ser confrontado com a realidade. Quando promete “resolução dos problemas da população”, não basta enumerar água, energia, saúde, escolas, iluminação pública, passeios e zonas verdes.
É necessário explicar quem executará esses projectos, através de que contratos, com que dinheiro e sob que mecanismos de fiscalização.
Porque governar não é apenas inaugurar obras ou apresentar programas. Governar é garantir que o dinheiro público não seja transformado numa extensão dos interesses privados de quem exerce o poder.
A promessa de “reconquistar politicamente Luanda” também deveria começar por uma reconquista da confiança dos cidadãos. E confiança não se conquista com slogans partidários. Conquista-se com transparência, prestação de contas e separação inequívoca entre o Estado e os negócios privados.
Luís Nunes quer agora mobilizar mais de cinco milhões de potenciais eleitores e conduzir o MPLA à “reconquista política de Luanda” em 2027. É legítimo que o faça. Mas os eleitores também têm o direito de perguntar que tipo de governação lhes está a ser oferecida e, sobretudo, quem beneficiará economicamente das soluções apresentadas em nome da população.
O problema, portanto, não é Luís Nunes ser empresário. O problema é a possibilidade de interesses empresariais e responsabilidades públicas se aproximarem demasiado. Num Estado democrático, essa fronteira deve ser clara, verificável e permanentemente fiscalizada.
Por isso, chamar simplesmente Luís Nunes de “corrupto” pode ser politicamente fácil, mas juridicamente exige provas e uma decisão competente. O que pode ser afirmado, com base no histórico público, é que as dúvidas sobre conflitos de interesses e relações entre poder político e interesses empresariais acompanham a sua trajectória governativa.
E, perante um novo ciclo político, talvez a pergunta mais importante seja esta: antes de pedir aos luandenses que confiem novamente no MPLA, estará Luís Nunes disposto a abrir as contas, os contratos e as relações empresariais que envolvem as soluções que promete para a população?
Porque, no fim, a população não precisa apenas de um gabinete “na rua”. Precisa de um Estado fora dos negócios particulares de quem o governa.