A intolerância e os perigos que dela advêm – David Capelenguela
A intolerância e os perigos que dela advêm - David Capelenguela
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Angola vive hoje um momento de encruzilhada estrutural. Ao olharmos para o actual contexto político, social e económico, torna-se evidente que o país caminha sobre uma linha ténue entre a necessidade urgente de reformas e o risco iminente de ruptura.

Com a inflação e o desemprego a pressionarem fortemente as famílias, e com as atenções gerais focadas na estabilização macroeconómica, as tensões no terreno têm subido de tom.

Contudo, o maior perigo não reside apenas nas dificuldades materiais, mas sim na forma como as diferentes faces da intolerância estão a ser instrumentalizadas por elites que empurram os cidadãos para um conflito que em nada beneficiará o povo.

A intolerância político-ideológicae de opinião tem sido a face mais visível deste fenómeno. É cíclico: à medida que os horizontes eleitorais se desenham, o debate democrático e saudável é substituído por agressões verbais, vandalismo de símbolos partidários e discursos inflamados.

O que devia ser uma confrontação de ideias para tirar o país da dependência do petróleo transforma-se num jogo de “nós contra eles”, onde qualquer crítica à governação ou qualquer defesa da estabilidade institucional é rotulada com fanatismo.

A intolerância política transformou-se num dos maiores perigos para a coesão social, corroendo silenciosamente as bases da convivência democrática e da estabilidade institucional. Mais do que uma simples divergência de opiniões, o cenário actual revela uma tendência alarmante: a transformação do adversário político num inimigo absoluto que deve ser erradicado do espaço público.

O fenómeno mais preocupante desta deriva reside na forma como a massa eleitoral, por exemplo, é empurrada, muitas vezes de forma inconsciente, para a linha de frente de conflictos interpartidários. Manipulados por discursos inflamados, narrativas de exclusão e pela propaganda que apela às emoções mais viscerais, cidadãos comuns abdicam do pensamento crítico.

Passam a actuar como soldados de uma causa que não os beneficia, mas que serve estritamente aos interesses de elites políticas focadas na manutenção ou na conquista do poder a qualquer custo.

Esta cegueira colectiva traduz-se em actos de violência física e simbólica que ameaçam a paz nas comunidades. Um exemplo flagrante desta realidade registou-se neste 6 de Agosto de 2026, na província do Uíge, uma região historicamente fustigada por episódios de fricção partidária.

Num acto que ilustra a gravidade da situação, militantes de um partido político, secundados e apoiados por franjas da população local, arrancaram violentamente a bandeira de uma formação política rival.

O vandalismo contra símbolos partidários – que são, por preceito constitucional, legítimos e protegidos por lei – vai muito além da destruição de um pedaço de tecido. Trata-se de um ataque directo ao pluralismo e ao direito de existência do outro.

Quando as populações participam activamente no derrube de símbolos opostos, ocorre uma mutação perigosa no tecido social: o desacato sistemático às autoridades estatais. A turba, movida pelo fanatismo, passa a ignorar as forças de segurança e as instituições reguladoras, operando sob a premissa de que a sua fidelidade partidária está acima da lei e da ordem pública.

Ao desafiarem abertamente o monopólio da força do Estado e ao normalizarem a justiça pelas próprias mãos, os cidadãos destroem o único mecanismo capaz de garantir a sua própria segurança.

O desrespeito pela autoridade policial e pelas leis do país não enfraquece apenas o partido adversário; enfraquece o próprio Estado-Nação, abrindo caminho para a anarquia e para o ressentimento cíclico.

A esta intolerância junta-se a clivagem geracional. Angola tem uma população maioritariamente jovem – mais de metade dos cidadãos tem menos de 24 anos – que não viveu a guerra civil e cujas exigências imediatas passam por emprego, habitação e dignidade social.

Por outro lado, subsiste uma liderança histórica, algumas vezes agarrada a discursos do passado. Em vez de se construir uma ponte de diálogo, assiste-se a uma incompreensão mútua: os mais velhos acusam os jovens de irreverência irresponsável, enquanto os jovens vêem o topo como uma barreira ao progresso.

O aspecto mais preocupante é o perigo de contágio para a intolerância cultural e regional. Angola é rica na sua diversidade identitária, mas essa riqueza transforma-se em fragilidade quando actores políticos reavivam velhos fantasmas de divisão étnica ou regional para garantir posições de vantagem.

Usar as diferenças culturais para semear a desconfiança entre angolanos é brincar com o fogo numa nação que ainda cicatriza as feridas do passado colonial e civil.

É urgente chamar a atenção para a responsabilidade das lideranças políticas, associativas e mediáticas. As populações, fragilizadas pela crise económica e pelo custo de vida, não podem continuar a ser usadas como massa de manobra ou escudos humanos em disputas de poder que apenas servem para manter ou alcançar privilégios de poucas elites.

O cidadão que sofre na busca de uma melhor assistência mêdico-medicamentosa, que procura emprego ou que luta contra a perda do poder de compra, não ganha nada com a radicalização do vizinho por motivos partidários ou regionais.

O caminho para o desenvolvimento de Angola não se fará através do esmagamento da opinião contrária ou do isolamento institucional. Iniciativas recentes de diálogo institucional e de processos que reforçam a aproximação é a reconciliação nacional pós-guerra civil, mostram que a estabilidade social depende da capacidade de conversação.

A verdadeira maturidade política exige que as lideranças parem de empurrar o povo para o abismo do confronto e comecem, em conjunto e genuinamente, a trabalhar na resolução dos problemas económicos e sociais que afectam a base da nossa sociedade.

Se o conflito for alimentado, o preço mais alto será pago, mais uma vez, por quem menos tem.É fundamental que o eleitorado desperte para a consciência de que a filiação política não pode sobrepor-se à identidade nacional e aos laços de vizinhança.

As lideranças de todas as sensibilidades políticas partilhadas têm a obrigação moral e legal de desarmar os discursos de ódio e de exigir contenção aos seus militantes, em vez de instrumentalizarem a ignorância e a paixão das massas.

A democracia constrói-se com a coexistência de bandeiras diferentes na mesma praça, por isso os incidentes mais recentes devem servir como um aviso severo para os tempos mais agitados que se avizinham.

Se a sociedade civil e as autoridades do Estado não agirem com firmeza pedagógica e punitiva contra estes focos de violência, o país arrisca-se a ver o debate de ideias definitivamente substituído pelo ruído dos confrontos físicos.

*Mestre em Direito, doutorando em Ciências Sociais

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