Água de cacimbas consumida pela população do Lubango contém gás radioactivo que causa cancro do pulmão
Água de cacimbas consumida pela população do Lubango contém gás radioactivo que causa cancro do pulmão
cacimba

A água proveniente de cacimbas e outros poços de captação subterrânea na região do Lubango, província da Huíla, consumida pela maior parte da população local, levanta preocupações de saúde pública devido à presença de radão, um gás radioactivo natural cuja exposição prolongada está associada ao desenvolvimento de cancro do pulmão, sobretudo por inalação.

Um estudo científico publicado em 2024 na revista Journal of Environmental Radioactivity concluiu que as doses médias de radiação decorrentes da ingestão de radão através de fontes alternativas privadas de água subterrânea são cerca de dez vezes superiores às registadas na água dos sistemas públicos de distribuição.

A investigação, divulgada pelo especialista angolano em radioactividade natural Edson Baptista, analisou 276 amostras de águas subterrâneas recolhidas no Lubango e identificou concentrações de radão que, em algumas situações, ultrapassaram os 100 becquerels por litro (Bq/L).

Embora a presença do gás constitua um motivo de atenção para a saúde pública, os resultados não significam que todas as cacimbas apresentem níveis perigosos ou que o consumo destas águas provoque automaticamente cancro.

O risco depende da concentração, dos padrões de exposição e das vias de entrada do radão no organismo, sendo a inalação uma das principais preocupações sanitárias.

O trabalho científico, intitulado “Exposure to radon gas in groundwater in southwest Angola (Lubango-Huíla): Implications of geology and climate change“, foi publicado em Setembro de 2024 e tem como primeiro autor Edson Baptista, em colaboração com Alcides J.S.C. Pereira, Filipa P. Domingos, Sérgio L.R. Sêco e Gustavo P.S. Luís.

A investigação incidiu sobre águas subterrâneas de diferentes origens, incluindo poços escavados e captações de maior profundidade, bem como sistemas públicos de abastecimento, permitindo comparar a exposição radiológica associada às diferentes fontes de água.

Concentrações de radão

Os resultados indicam que as concentrações de radão variam significativamente em função das características geológicas dos terrenos, tendo as unidades geológicas granitóides apresentado valores medianos superiores a 100 Bq/L, enquanto nas formações máficas e sedimentares os valores medianos variaram entre cinco e 38 Bq/L.

O estudo identificou igualmente uma relação entre a profundidade de captação e a concentração do gás, observando um aumento da concentração mediana de 66 Bq/L, em poços com menos de 30 metros, para valores superiores a 100 Bq/L nas captações mais profundas, considerando a mesma unidade geológica.

As concentrações mais elevadas foram, de um modo geral, observadas nos poços mais profundos, evidenciando a influência das condições geológicas na composição radiológica da água subterrânea.

Segundo os investigadores, estes resultados demonstram que a avaliação da qualidade da água não deve limitar-se aos parâmetros convencionais, devendo integrar também a análise dos riscos radiológicos naturais.

Seca pode agravar exposição

A investigação relaciona ainda a disponibilidade dos recursos hídricos com a exposição ao radão, num contexto de seca prolongada que afectou o sul de Angola.

Segundo o estudo, a redução dos níveis de água subterrânea e da produtividade dos poços menos profundos pode levar as populações a recorrer a captações mais profundas, aumentando a dependência de fontes que, em determinadas condições geológicas, apresentam concentrações mais elevadas do gás radioactivo.

Os investigadores referem que a seca meteorológica plurianual registada na última década afectou entre 76% e 94% da população do sul de Angola, enquadrando o problema nos desafios relacionados com a variabilidade climática e a segurança do abastecimento.

Neste contexto, defendem a monitorização radiológica contínua das águas subterrâneas, de modo a acompanhar a evolução das concentrações de radão e a apoiar decisões sobre a utilização segura das diferentes fontes de água.

A investigação considera que a segurança do abastecimento não deve ser avaliada apenas pela disponibilidade do recurso, mas também pela sua qualidade e pelos riscos que pode representar para a saúde pública.

Risco sobretudo por inalação

O radão é um gás radioactivo de origem natural, incolor, inodoro e insípido, produzido pela desintegração radioactiva do urânio presente nas rochas e nos solos, podendo dissolver-se nas águas subterrâneas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o radão constitui uma das principais causas de cancro do pulmão, sobretudo quando inalado durante períodos prolongados. As partículas radioactivas resultantes da sua desintegração podem depositar-se nas vias respiratórias e danificar o ADN das células.

A exposição através da água potável pode ocorrer por ingestão directa ou pela libertação do gás para o ar interior, sendo geralmente superior a dose recebida por inalação àquela resultante do consumo da água.

Deste modo, a presença de radão nas águas subterrâneas exige uma avaliação que tenha em conta não apenas a quantidade ingerida, mas também a possibilidade de libertação e acumulação do gás em espaços fechados, designadamente durante a utilização doméstica da água.

Monitorização

Edson Baptista considera que a segurança das águas subterrâneas deve ultrapassar a preocupação com a disponibilidade do recurso, integrando factores como a geologia, as alterações climáticas, a qualidade da água e a protecção da saúde pública.

O investigador defende uma abordagem integrada, sustentada em evidências científicas e na cooperação institucional, para reforçar a vigilância dos recursos hídricos e a resiliência dos sistemas de abastecimento.

O trabalho contribui para o debate sobre os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, particularmente o ODS 6, relativo à água potável e ao saneamento, o ODS 3, sobre saúde e bem-estar, e o ODS 13, referente à acção climática.

A investigação reforça a importância de um acompanhamento sistemático das fontes subterrâneas, sobretudo em regiões sujeitas a escassez de água, onde a procura de alternativas ao abastecimento público pode aumentar a exposição a riscos radiológicos naturais.

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