
O presidente da Associação de Apoio de Albinos de Angola (4As), Manuel Domingos Vapor, revelou nesta entrevista que as pessoas julgam os seus associados pelo tom da pele. “O que está errado, pois nós queremos ser avaliados pelas nossas qualidades e capacidades”, defendeu.
Criada com intuito de defender e amparar as pessoas albinas, 4As debate-se com inúmeras dificuldades e aspira à criação de leis específicas em defesa da pessoa com albinismo.
Quando foi criada a Associação de Apoio de Albinos de Angola (4As)?
A idealização surgiu no ano de 2003, mas foi em 2006 que começámos a materializar e reunir toda documentação para o reconhecimento da mesma. Em 2013, o Governo angolano reconheceu-nos como Associação, a partir daquele ano começámos a contar a criação da Associação, que completa este ano, a 23 de Outubro, 10 anos de existência. A Associação não enquadra só pessoas albinas, mas todos os que estiverem interessados e solidários com a nossa causa. É uma associação de carácter nacional, filantrópica e sem fins lucrativos. Dependemos de apoios de pessoas singulares, organizações não-governamentais e instituições que podem e se solidarizam connosco.
O processo de legalização foi difícil?
Não. Estávamos apreensivos quanto ao nosso reconhecimento por parte das instituições do Estado. De algumas pessoas amigas, foi-nos aconselhado para que não parássemos porque a comunidade de albinos precisava de “ter voz”. Com isso, decidimos não parar, que tínhamos que dar uma outra dinâmica e dar voz àquilo que realmente necessitamos. Assim, eu mais outros dois elementos, um da província do Cuanza-Sul e outro do Uíge, continuámos a reunir a documentação e seguimos até sermos reconhecidos, enquanto indivíduos com acções em defesa dos albinos de Angola.
Porquê uma “Associação de Apoio de Albinos de Angola”?
A comunidade albina no nosso país carece de muita coisa. Eu, particularmente, o meu maior impulso para criação da associação foi a discriminação, os insultos e a linguagem pejorativa que ouvia das pessoas. Depois de ter a formação e um emprego pensei: se eu consegui atingir esse patamar e os outros que não conseguiram? Daí pensar em criar esse movimento para o alívio do sofrimento dos outros albinos e assim consegui criar a associação.
Com isso estamos a dar passos e a sociedade está, aos poucos, a compreender com ajuda de algumas palestras, que temos feito em algumas instituições escolares, policiais, militares e outras, onde temos sido bem acolhidos. Passamos informações sobre a nossa associação e esclarecemos as pessoas sobre os vários tabus que se ouvem sobre a pessoa com albinismo.
Tem ideia do número de pessoas com albinismo na sociedade angolana? Quantos filiados a associação controla e quantos são actualmente?
Actualmente, somos 650 associados, mas a tendência é crescer, isso a nível da província de Luanda. A nível nacional, temos a ideia que somos mais de dois mil membros, contando com outras representações provinciais. Infelizmente, alguns albinos ainda não têm domínio da nossa associação. Na província de Cabinda, por exemplo, ainda não temos nenhuma representação, pensamos que por lá ainda desconhecem a nossa existência. Para mudarmos esse quadro vamos, brevemente, começar com a criação de uma representação na província do Zaire. Além de Luanda, também estamos presentes na província do Cunene. Perspectivamos, em curto espaço de tempo, cobrir as 18 províncias. Tudo estamos a fazer para que isso aconteça.
Os manuais de ensino devem trazer conteúdos que falem sobre as pessoas albinas
Qual é a melhor forma de consciencializar a sociedade sobre a condição da pessoa com albinismo?
Primeiro educar e ensinar as pessoas que nascer albina não é uma escolha, é algo divino, e que um albino, como todas as outras pessoas, é uma pessoa normal. Com as palestras que temos realizado, procuramos, sempre, consciencializar que a pessoa albina é um ser como um outro qualquer e mostramos que a única coisa que nos diferencia é a falta de uma pigmentação da pele. Reconhecemos que temos algumas limitações visuais, mas o que não quer dizer que nos delimita a forma de raciocinar. Podemos, com certeza, igualar como os outros a nossa forma de evolução, receber e percebermos as informações quer a nível da escolaridade como profissional. Lamentamos o sucedido nalgumas famílias em que há filhos albinos e cujos pais os escondem, quando recebem visitas em casa, fechando a criança no quarto para não ser vista. Alguns justificam dizendo que, para visita sentir-se à vontade em usar os utensílios (copos, pratos, talheres, etc.) e outras ferramentas da casa, pois muitos se recusam em usá-las quando sabem que estão numa casa onde vive pessoa albina. Achamos isso muito condenável e deplorável.
Fala-se muito em discriminação da pessoa com albinismo. Algumas vezes, as pessoas com albinismo se auto discriminam…?
Infelizmente, há esse tipo de relatos sim, a auto discriminação no meio dos nossos membros. Uns sentem a discriminação vinda dos outros, mas temos tentado tirar-lhes isso da mente. Temos potencializado com várias formações e ensiná-los que não devem continuar assim inibidos, porque se não nunca conseguirão enfrentar a sociedade. É preciso que se desmanchem desse pensamento e que enfrentem, vão à luta para aquilo que querem. Fruto de alguns trabalhos nossos com os nossos associados, hoje já temos recebido testemunhos de que aprenderam muito com os nossos ensinamentos e hoje encaram as coisas com alguma leveza.
Se tivéssemos que falar sobre a necessidade de protecção legal, em sua opinião bastam as leis vigentes ou há necessidade de uma lei específica para as pessoas com albinismo?
É evidente que se precisa de leis de protecção à pessoa albina. Só para citar nos casos de discriminação, por exemplo, a pessoa que insulta lhe deve ser imputada a responsabilidade, ser disciplinado e educado. Outro motivo, da necessidade de leis específicas, são as constantes rejeições no mercado de trabalho, esse sim se constitui num dos principais motivos das frustrações de muitos dos nossos associados. As entidades empregadoras devem ser mais acutilantes, pois é muito acentuado o nível de rejeição a nível das empresas, e quando assim acontece nos tornamos gente mais vulnerável, “mendigos”. Não queremos ser vistos como mendigos ou pessoas muito vulneráveis, porque temos as mesmas valências que outros e, infelizmente, as pessoas nos julgam pelo tom de pele, o que está errado. Queremos ser avaliados pelas nossas qualidades e capacidades.

Há famílias que matam recém-nascidos albinos
Diz-se que o sofrimento das pessoas com albinismo em Angola tem duas grandes características: os da região Sul sofrem mais por causa das condições climáticas, na região Norte e Nordeste o problema é a intensidade dos preconceitos. Em que pensam ajudar para reverter este quadro?
Para reverter esse quadro, as direcções dos governos provinciais, Acção Social, igrejas e outras entidades locais e instituições escolares devem criar iniciativas que ajudem a reverter esse quadro. Por exemplo, nas escolas, os manuais de ensino devem trazer conteúdos que falem sobre as pessoas albinas, aí sim vamos combater não só o preconceito a nível nacional, mas global. Quando as crianças aprendem, desde tenra idade, quando adultas saberão melhor como lidar e conviver com as pessoas, seja qual a sua da pele. Os professores e educadores também devem ser instruídos como tratar do aluno albino, atendendo à sua condição de baixa capacidade de enxergar, então ele deve ser sempre colocado nas carteiras da frente e ensinar os outros colegas a não tratarem com indiferença o seu colega. São estes e outros ensinamentos que gostaríamos de ver nas nossas escolas.
Há ainda um outro fenómeno, associado ao infanticídio. Tem conhecimento de casos de famílias ou comunidades que eliminam o recém-nascido quando dão conta que nasceu com a condição?
Infelizmente, há sim. Há famílias que, quando recebem recém-nascidos, albinos, eles mutilam a criança. Gostaríamos que as instituições policiais tivessem, também, a responsabilidade de disciplinar a sociedade em relação a esse comportamento. Porque a sociedade deve estar devidamente informada de que, quando não tem condições de criar um filho albino ou não, existem orfanatos e lares de acolhimento onde podem levá-lo para que o Estado tome conta dessa pessoa.
Os albinos que estão em situação de pobreza estão em condições de mais desvantagem. Qual seria a solução?
Uma das formas de poder ajudar, enquanto uma franja muito vulnerável, a associação tem ajudando com a disponibilização de bolsas de estudo e formações profissionais. Procuramos criar parcerias com várias instituições e organizações não-governamentais, para o financiamento de formações que ajudam a gerar pequenos negócios e com isso pensamos que vamos conseguir ajudar a minimizar a situação de pobreza de muitos que se encontram abaixo da linha da pobreza.
Na sua opinião, o que é que se deve fazer quanto aos cremes, pomadas e outros medicamentos específicos da condição da pessoa com albinismo?
Numa primeira fase, achamos que a importação é cara. A maior parte não tem possibilidades de comprar os cremes ou pomadas especificas para o nosso tipo de pele. Gostaríamos que o Governo criasse parcerias com os grandes produtores de protectores solares, a fim de nós podermos adquirir os produtos a menos preços, pois os poucos que aqui são vendidos têm um custo muito elevado. Por outro lado, gostaríamos muito que fosse construída, no país, uma fábrica para a produção local dos produtos necessários para o tratamento da pele albina. Acreditamos que, com isso, uma fábrica dará mais valências, vai ajudar a reduzir o desemprego, gerar mais receitas ao Estado e as pessoas albinas saem a ganhar com a recepção grátis dos produtos e o país também com a venda aos países vizinhos.
Há, da parte das instituições do Estado o devido acolhimento das vossas inquietações?
Ainda não, na proporção em que gostaríamos, particularmente nas instituições empregadoras, de Saúde e escolares. Ainda somos tratados com uma certa indiferença e cinismo. Sentimo-nos muito tristes com essa situação. Com maior realce quando vamos a um determinado estabelecimento à procura de emprego, mesmo que a pessoa (albina) fazer o teste para ocupar determinada vaga e, ainda que obtiver bom resultado, no dia seguinte, quando regressar para dar seguimento ao processo, nalguns casos, recebe a informação de que a vaga já foi ocupada. Gostaríamos muito que isso fosse ultrapassado e que fôssemos melhor acolhidos nas instituições do Estado.
Gostaríamos que as unidades sanitárias prestassem mais atenção à pessoa albina
Quais as principais necessidades da associação e como encaminham aos filiados?
As nossas maiores necessidades passam por elevar o nível de escolaridade dos nossos membros, assim como profissional. Queremos, também, que os nossos filiados tenham uma linguagem comum, única, que sejam devidamente instruídos para que, quando confrontados com alguma situação ou questionamento, saibam como e o quê responder. Que aprendam a não dar ouvidos aos tabus e insultos sobre a vida, existência da pessoa albina. Temos também a necessidade de organizar e forma-los para que deixem de ser pessoas menos aculturadas, saberem e entender a opinião das outras pessoas sobre determinados assuntos em relação a pessoa com albinismo. Ensinar, também, outros métodos aos nossos associados de como devem defender-se e não se limitarem por causa das situações discriminatórias por que passam perante a sociedade, saber enfrentar com educação e boas maneiras.
No campo da empregabilidade há muitas reclamações que não são aceites…
Sim, as sociedades empregadoras ainda não estão bem enquadradas e não tem a recepção adequada, acham sempre que as pessoas albinas são pessoas incapazes de desenvolver determinadas actividades, então ainda há sim muita rejeição e lamentamos muito isso.
Enquanto Associação que acções ou projectos têm desenvolvido?
Procuramos, sempre, dentro das nossas possibilidades e parcerias criar acções formativas para elevar o nível de escolaridade dos nossos associados, batemos portas de escolas, para que coloquem as nossas crianças, adolescentes e jovens com o devido acompanhamento, porque muitas famílias não tem a possibilidade de custear a formação do seu filho, quer seja pública, comparticipada ou colégio privado. O mesmo fazemos para o ingresso dos nossos associados as universidades.
Quais as vossas maiores perspectivas para os próximos tempos?
Ambicionamos ver muita coisa revertida a nosso favor, particularmente no campo da Saúde. Gostaríamos que o Ministério da Saúde, as unidades sanitárias, particularmente, prestassem mais atenção ao tratamento médico à pessoa albina. Porque, até agora, não tem sido dado o tratamento eficaz e atempado para pessoas albinas, e uma vez termos a nossa pele muito sensível, às vezes, temos uma pequena irritação na pele que se não for tratada atempadamente o problema se tornando maior e até mesmo, muitos, chegam a desenvolver cancro da pele. Então gostaríamos de ter dermatologias específicos para o tratamento do nosso tipo de pele e os remédios apropriados. Muitas vezes são recomendados certos produtos e nas farmácias não comercializam aquele determinado produtos. Por outra, também gostaríamos de ter médicos oftalmologistas especializados para os níveis de baixa visão, pois é sabido que, maioritariamente, muitos de nós temos a grande dificuldade em enxergar. No campo da Educação gostaríamos que fossem revistos os manuais de ensino, que o fossem ampliadas o tamanho das letras dos livros usados nas nossas escolas. E ao Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social (MAPTESS) pedimos que sejam mais compreensivos e nos deem mais oportunidades de trabalho, que criem desafios à comunidade albina. Gostaríamos de ver pessoas albinas a ocuparem grandes lugares de destaque e liderança na nossa sociedade, porque muito de nós também sabemos falar, somos formados e inteligentes ao contrário do que muitos pensam de nós. Ao Ministério dos Transportes gostaríamos que fossem instituídos ou criados passes para viagens grátis nos transportes públicos.

Que mais tem a dizer sobre a associação, os filiados, relação com as instituições públicas e privadas?
Aos nossos associados e a sociedade no geral, particularmente aos casais que têm filhos albinos ou quem venha ter, devem potencializar, elevar o nível de escolaridade dos seus filhos ou dar-lhes formações profissional para que, futuramente, não tenham uma condutada comprometedora ou venha sofrer os mesmos abusos e rejeições que muitos albinos hoje passam. Aos associados para que tenham mais coragem e que não se devem isolar, devem enfrentar as sociedades, ir atrás dos seus objectivos e se sentirem que estão sem direcção, que procurem se juntar a nossa associação. Reconhecemos, também, que em relação ao nível de discriminação, no seio da nossa população, estes níveis, hoje, então um pouco reduzido, podemos dizer que está melhor que nos anos anteriores onde, até nos transportes públicos as pessoas não gostavam sentar ao lado de uma pessoa albina.
in Jornal de Angola
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