
Em Angola, há assaltos à mão armada quase todos os dias. Às vezes, com vítimas mortais. Perante esta realidade, uma pergunta impõe-se: em que falhámos como Estado? E, mais do que isso: em que estamos a falhar como sociedade?
Como podemos atrair investidores para o país nestas circunstâncias? Que confiança podemos transmitir a quem pretende investir, criar empresas, gerar empregos e trazer capital para Angola, quando a segurança de pessoas e bens continua a ser uma preocupação?
Há raptos nas estradas nacionais que, muitas vezes, culminam em morte. Onde está, então, a garantia da segurança e da livre circulação de pessoas e bens?
Estará o Estado a exercer plenamente o seu papel? Estarão as instituições a garantir à população os bens e serviços essenciais a que tem direito?
E os nossos jovens? Faltar-lhes-á ocupação, emprego, formação e, sobretudo, perspectivas de futuro? O que acontece quando uma geração cresce sem oportunidades e sem esperança? Será que estamos a criar condições para que alguns acabem por se perder em práticas perigosas, como assaltos e roubos a bancos, lojas, residências e vias públicas?
Estas perguntas não servem para justificar o crime. Crime é crime e deve ser combatido. Mas combater a criminalidade não significa apenas prender quem comete crimes. Significa também compreender e enfrentar as condições que permitem que ela cresça e se enraíze na sociedade. E aqui entra uma responsabilidade que muitas vezes esquecemos: a da família.
A família é uma das primeiras escolas de valores, disciplina, respeito, responsabilidade e cidadania. Pais, mães e encarregados de educação têm, por isso, um papel fundamental na formação dos nossos jovens, no acompanhamento das suas escolhas, na transmissão de princípios e na prevenção de comportamentos que possam colocá-los — a eles e aos outros — em perigo. Mas a responsabilidade não termina na família.
A segurança não se resume à polícia, nem a responsabilidade termina no Governo. É uma responsabilidade do Estado, das instituições, da família e, em certa medida, de cada cidadão. Cada um de nós tem um papel na construção do ambiente social em que vivemos.
E você, como pai, mãe, jovem ou cidadão em geral: qual tem sido o seu contributo? Que valores está a transmitir aos seus filhos? Que exemplo está a dar aos mais jovens?
O que tem feito para fortalecer a convivência, o respeito pelo próximo e o sentido de responsabilidade na comunidade? Estamos apenas a exigir respostas ao Estado ou também estamos dispostos a olhar, com honestidade, para aquilo que depende de nós?
Quando a violência se torna rotina, há uma pergunta que todos devemos ter coragem de fazer: O que estamos a fazer — ou a deixar de fazer — para que isto continue a acontecer?
Uma sociedade que se habitua à violência corre o risco de deixar de se indignar com ela. E talvez essa seja uma das nossas maiores falhas; porque, quando o crime deixa de nos chocar, o perigo já não está apenas nas ruas; está também na nossa consciência colectiva.
Não basta perguntar quem falhou. Precisamos também de perguntar: que sociedade estamos a construir e que sociedade queremos deixar às próximas gerações?
O Estado deve cumprir o seu papel. As instituições devem funcionar. A polícia e a justiça devem garantir segurança e responsabilização. Mas as famílias também devem cumprir a sua missão, e cada cidadão deve assumir a sua quota de responsabilidade.
A mudança que exigimos ao país também começa nas nossas casas, nas nossas escolas, nas nossas comunidades e nas nossas próprias atitudes.
A segurança de Angola não pode ser apenas uma promessa do Estado. Deve ser um compromisso colectivo.
Talvez seja este o momento de deixarmos de perguntar apenas “quem falhou?” e começarmos a perguntar também: “Que parte desta realidade depende de mim?”
Boa reflexão!