
À medida que Angola se aproxima do ano de 2027 — marco que assinalará o término do segundo e último mandato constitucional do Presidente João Lourenço — torna-se inevitável uma reflexão sobre o legado político, económico e social de um líder que assumiu a árdua tarefa de reformar o Estado e reconstruir as bases da economia nacional.
A recente entrevista concedida à CNN Internacional expôs um Presidente mais sereno, consciente do seu tempo e dos limites do poder, mas firme na convicção de que o essencial de um governante é o que deixa ao país e não o que o poder ainda lhe pode conceder.
Quando chegou à Presidência, em 2017, o país enfrentava um modelo económico exausto e excessivamente dependente do petróleo, com um tecido produtivo enfraquecido e uma administração pública corroída pela corrupção e pela impunidade. O Presidente João Lourenço elegeu então o combate à corrupção como a sua bandeira moral e política.
Essa luta, que ele próprio reconheceu ser “mais difícil do que imaginava”, teve uma dimensão mais profunda do que a jurídica: foi uma batalha cultural pela restauração da ética pública e pela reconstrução da confiança entre o Estado e o cidadão.
Mas o legado do Presidente vai muito além do combate à corrupção. Nos últimos anos, o Presidente João Lourenço consolidou um processo de reindustrialização e diversificação económica, assente em infra-estruturas estratégicas que mudarão o perfil produtivo do país nas próximas décadas.
Hoje, projectos estruturantes como a Refinaria de Cabinda, cuja conclusão na íntegra permitirá reduzir significativamente a dependência das importações de combustíveis, o Dande Park 1, agora em fase inicial de construção, a Zona Franca da Barra do Dande e o Terminal Oceânico do Dande, integram-se numa visão estratégica de industrialização e logística moderna.
A estes somam-se a Refinaria do Soyo, a Central Hidroeléctrica de Caculo Cabaça, a Central Solar do Namibe, bem como a reactivação e modernização do Corredor do Lobito, a modernização e expansão do Porto do Namibe, o Porto do Caio, em Cabinda, e a reabilitação e reactivação do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes, todos fundamentais para reforçar a conectividade interna e a posição de Angola como plataforma logística regional.
No domínio tecnológico e espacial, destaca-se o lançamento e operacionalização do satélite AngoSat-2, símbolo do avanço do país na soberania digital e nas comunicações estratégicas.
Acrescentam-se ainda as estradas nacionais reabilitadas, como a EN100 (Luanda–Soyo) e a EN230 (Luanda–Malanje), além de importantes projectos de habitação social no país.
São exemplos tangíveis da visão do Presidente João Lourenço para uma Angola industrial, moderna, exportadora e integrada no comércio regional africano.
A sua insistência na necessidade de infra-estruturas como base da integração continental revela uma liderança que pensa Angola em diálogo com África e com o mundo.
Outro marco económico que ficará associado ao seu legado será o Orçamento Geral do Estado de 2026, o primeiro na história recente do país cuja base de receitas fiscais assenta no sector não petrolífero, e não no petróleo.
Este feito simboliza a transição estrutural que o Executivo vem promovendo: uma economia cada vez mais diversificada, sustentada pelo investimento produtivo, pelo empresariado nacional e pela expansão das cadeias de valor fora do sector petrolífero.
Mas talvez a marca mais humana e simbólica do seu legado seja o aprofundamento do processo de reconciliação nacional, que o Presidente João Lourenço assumiu como uma missão histórica.
A sua decisão de distinguir, durante as celebrações dos 50 anos da Independência Nacional, os antigos líderes da UNITA, Jonas Savimbi, e da FNLA, Holden Roberto, na classe Independência, constitui um gesto de grandeza política e espiritual, que selou um ciclo de dor e abriu caminho à reconciliação plena entre os filhos de Angola.
Esse gesto, que atravessa fronteiras partidárias e memórias de guerra, é uma mensagem de paz, perdão e unidade, destinada a consolidar uma nova geração de angolanos reconciliados com a sua história e orientados para o futuro.
Outro pilar essencial do seu legado é o reforço do sector social, com destaque para a revolução em curso na saúde pública, a modernização hospitalar e a expansão dos serviços de diagnóstico e atendimento de proximidade.
Paralelamente, a aposta na solução estrutural da seca no Sul do país traduz a preocupação do Presidente João Lourenço em unir desenvolvimento económico à justiça social e à sustentabilidade ambiental.
No campo político e institucional, a decisão firme de respeitar os limites constitucionais dos mandatos presidenciais coloca-o entre os estadistas africanos que compreendem o poder como missão temporária e não como propriedade pessoal.
Essa postura reforça a maturidade democrática de Angola e transmite uma imagem de previsibilidade e estabilidade política a nível internacional.
A sua política externa equilibrada, marcada pela reaproximação diplomática com os Estados Unidos, a China e a União Europeia, pela consolidação da paz regional e pela liderança angolana em processos de mediação africana, projecta Angola como um actor estratégico na África Austral e como um país que oferece soluções africanas para problemas africanos.
No plano dos valores sociais, não pode ser ignorada a coragem do Presidente ao apoiar a descriminalização das relações homossexuais e o reforço da protecção dos direitos humanos, iniciativas que colocam Angola entre as nações africanas mais progressistas e que demonstram um compromisso claro com a dignidade humana e a modernidade.
No cômputo geral, o Presidente João Lourenço será recordado como o Presidente reformador e moralizador, que ousou enfrentar o sistema, recuperar a dignidade das instituições e preparar Angola para um futuro económico diversificado e sustentável.
Se Agostinho Neto será para sempre o Pai da Independência, e José Eduardo dos Santos o Arquitecto da Paz, João Lourenço ficará na história como o Presidente da Integridade, da Reconciliação e da Modernização de Angola — o estadista que plantou as bases para uma Angola de economia diversificada, unida e moralmente renovada do século XXI.
*Economista