
A relação entre Angola e a China é hoje uma das mais marcantes em África. Construída sobretudo em torno de financiamentos colateralizados com petróleo e de grandes obras públicas, esta parceria trouxe resultados rápidos e palpáveis para o país. Mas também deixou um rastro de desafios que ainda precisam de respostas.
Ganhos e oportunidades
Depois da guerra civil, Angola precisava de reconstrução urgente. Foi a China quem ofereceu liquidez e capacidade de execução em larga escala.
Em pouco mais de uma década, surgiram novas estradas, pontes, hospitais, bairros e projectos de energia que mudaram a paisagem urbana e melhoraram a mobilidade.
A China também garantiu um mercado estável para o crude angolano, vital para as receitas do Estado, e recentemente alargou investimentos a sectores como refinação e agricultura.
Para muitos, sem a cooperação chinesa, seria difícil reerguer o país tão rapidamente. Este apoio contribuiu para modernizar infra-estruturas e dar maior visibilidade internacional a Angola como parceiro económico relevante.
Custos e riscos
Contudo, nem tudo são ganhos. Grande parte dos contratos com a China foi pouco transparente e garantida com petróleo, o que aumentou a exposição da economia à volatilidade dos preços internacionais.
Angola tornou-se altamente dependente da dívida chinesa, obrigando a renegociações recentes com o China Development Bank para aliviar pressões sobre as contas públicas.
Além disso, muitos projectos foram executados com mão de obra importada, limitando a criação de empregos locais e a transferência de tecnologia. A qualidade de algumas obras e a sustentabilidade da sua manutenção também são pontos de interrogação.
O que está em jogo?
A grande questão é se Angola conseguirá transformar essa relação de emergência em uma parceria verdadeiramente estratégica.
Especialistas defendem medidas claras: exigir maior transparência nos contratos, reforçar cláusulas de conteúdo local, assegurar programas de formação de quadros angolanos e diversificar os sectores de cooperação.
O caso do Corredor do Lobito e da futura refinaria, onde a China é um dos parceiros, mostra que é possível alinhar interesses: gerar valor dentro do país, criar emprego e preparar a economia para o futuro. Mas isso só será realidade com fiscalização, boa governação e visão estratégica.
Conclusão
A China ajudou Angola a levantar-se rapidamente, mas também deixou o país mais exposto a riscos financeiros e estruturais.
O desafio agora é equilibrar a balança: transformar os investimentos em desenvolvimento sustentável e garantir que cada dólar gasto produza benefícios duradouros para os angolanos.
Esta é a encruzilhada de Angola: de dependência a parceiro, de dívida a desenvolvimento. O próximo passo dependerá da capacidade de negociar com firmeza e planear com visão.
*Secretário Nacional para a Informação e Comunicação do Bloco Democrático