
A Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP) anunciou, ontem, sexta-feira, em Luanda, a descoberta, nos últimos tempos, de mais de 200 novos perfis de cidadãos enterrados na vala comum do cemitério da Mulemba, vulgo 14.
Os trabalhos de processamento de ossadas na vala comum do Cemitério da Mulemba permitiram elevar para mais de 800 o número de perfis genéticos identificados, contra os 625 registados anteriormente.
A informação foi avançada pelo porta-voz da CIVICOP, Manuel Halaiwa, durante a cerimónia de entrega de seis urnas com restos mortais de vítimas dos conflitos políticos angolanos (1977–2002).
Segundo explicou, o crescimento deste número deve-se ao trabalho contínuo de análise laboratorial das ossadas recolhidas, permitindo a obtenção de novos perfis genéticos conforme o processamento avança.
“Inicialmente falávamos em 625 indivíduos. Neste momento, estamos a falar de mais de 800”, afirmou, sublinhando que o trabalho de identificação permanece em curso e poderá revelar novos resultados.
O porta-voz referiu ainda que o número de perfis femininos identificados na mesma vala comum subiu de 22 para 24. Contudo, a identidade destas vítimas permanece desconhecida, uma vez que ainda não há correspondência com as amostras de ADN entregues pelas famílias.
A CIVICOP apela às famílias com parentes do sexo feminino desaparecidas durante os conflitos políticos a doarem material genético. A recolha de amostras visa acelerar o processo de identificação laboratorial das vítimas localizadas na vala comum.
“São poucas as pessoas que procuram pela mãe, pela tia ou pela avó. Mas nesta vala comum também foram encontradas mulheres que desapareceram durante os conflitos”, ressaltou o porta-voz da CIVIVOP.
A CIVICOP alertou que a recolha de amostras de ADN deve ser feita por familiares de todo o país, independentemente da província do desaparecimento.
Manuel Halaiwa explicou que investigações apontam que muitas vítimas foram transferidas de várias regiões de Angola para a capital, onde perderam a vida e foram sepultadas na vala comum da Mulemba.
Por essa razão, a comissão considera crucial a participação de familiares de desaparecidos de todas as províncias no processo de identificação genética. Essa mobilização aumenta as probabilidades de correspondência entre os perfis obtidos e as amostras recolhidas.
Familiares enterram ente-queridos
Os restos mortais de seis vítimas exumadas na vala comum do cemitério da Mulemba (o “14”) vão a sepultar hoje, sábado, no cemitério do Benfica. O funeral acontece logo após a entrega formal das urnas pela CIVICOP aos familiares.
Os restos mortais correspondem aos cidadãos Guilherme Miguel da Silva, Francisco Manuel, Adão Pedro, Paulo Sebastião Pedro, Isaías João, conhecido por “Lágrimas do Povo”, e Nicolau António João Kijiba.
Segundo o porta-voz da CIVICOP a identificação ocorreu graças ao cruzamento entre os perfis de ADN obtidos das ossadas e as amostras biológicas cedidas pelas famílias das vítimas.
Manuel Halaiwa considerou o momento “mais um acto de elevado simbolismo”, por devolver às famílias a possibilidade de prestarem uma homenagem condigna aos seus entes queridos, muitos dos quais permaneceram desaparecidos durante décadas.
in JA