Corrida à liderança da UNITA: Entre o passado e o futuro – Ngombo Nvika
Corrida à liderança da UNITA: Entre o passado e o futuro - Ngombo Nvika
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O anúncio da pré-candidatura de Rafael Massanga Savimbi, filho do histórico líder e fundador da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi, à presidência do partido, tem causado forte impacto no cenário político nacional.

Num discurso marcado pela emoção, pelo simbolismo e pelo apelo à unidade, Rafael afirmou a sua disposição em concorrer “para reforçar a coesão e a identidade político-ideológica da UNITA”, sublinhando que Angola “continua a ser governada pelo mesmo partido que explora e empobrece os angolanos”.

A questão que ecoa aos nossos ouvidos é a seguinte: Estamos diante de um exercício de democracia interna ou do prenúncio de uma ruptura no seio do principal partido da oposição?

Bem, vamos, com alguma lucidez, de forma desapaixonada, tentar abordar isso em 4 eixos fundamentais.

1 – O simbolismo de Savimbi;
2 – A UNITA no contexto actual;
3 – O confronto entre o legado e o futuro;
4 – O teste de democracia interna).

I. O PESO SIMBÓLICO DO NOME SAVIMBI

Na história da UNITA, o nome Savimbi é mais que um apelido, é um emblema político, quase mítico. Jonas Savimbi foi, para muitos, o “líder da causa”, símbolo de resistência, coragem e nacionalismo.

Para outros, foi um homem controverso, que dividiu a Nação. Mas é inegável que, ao evocar esse nome, Rafael desperta emoções adormecidas, especialmente entre os militantes da “velha guarda” e nas regiões do Planalto Central, onde nascera o movimento.

Assim, o regresso da marca Savimbi ao debate político não representa apenas uma disputa de poder, mas sim uma disputa de memória e de identidade. Rafael, vai procurar reatar o fio entre a história e o presente, entre o mito do pai e o desafio contemporâneo da UNITA

II. A UNITA NO CONTEXTO ACTUAL

Sob a liderança de Adalberto Costa Júnior (ACJ), a UNITA passou por uma transformação notável, isso é inegável, e Rafael, terá que ter maturidade política em admitir isso. Deixou para trás a imagem de partido regionalizado e militarizado, assumindo-se como a principal força política da oposição e referência de esperança nacional.

Entre as conquistas mais relevantes destaca-se:

  • A abertura do partido à juventude urbana e à sociedade civil. As lideranças de jovens no seio do partido, com destaque ao Sapinãla, Nelito, Navita Ngola e o Próprio Rafael que hoje se candidata, é prova irrefutável;

  • A integração de movimentos como o PRA-JA Servir Angola e o Bloco Democrático, criando uma frente patriótica unida;

  • A integração na sua lista de deputados independentes;

  • A obtenção de 90 assentos parlamentares nas eleições de 2022. Todavia, o sucesso trouxe também novas tensões internas. Parte da militância sente que o partido se distanciou da sua “alma fundadora,” o ideal nacionalista, moral e combativo de Jonas Savimbi. É nesse espaço simbólico que Rafael tenta posicionar-se.

III. O CONFRONTO ENTRE O LEGADO E O FUTURO

O aparecimento de Rafael Savimbi expõe o debate que a UNITA sempre evitou encarar de frente. Qual? a sua verdadeira natureza política.

Há, hoje, duas grandes sensibilidades dentro do partido:

  1. A ala histórica (savimbista), conservadora, fiel ao legado e ao discurso nacionalista clássico;
  2. A ala reformista (liberal), moderna, urbana, diplomática, liderada por ACJ.

Rafael surge, portanto, como a voz do ressurgimento histórico, enquanto ACJ simboliza a adaptação institucional ao presente. A harmonia entre ambos será decisiva para determinar se a UNITA caminhará rumo à coesão ou à fragmentação.

IV. O TESTE DE DEMOCRACIA INTERNA

Se a candidatura de Rafael for conduzida com respeito e espírito democrático, poderá ser uma oportunidade ímpar de fortalecimento institucional. Mostrará à sociedade que a UNITA é capaz de praticar internamente aquilo que defende para o país (pluralismo, debate e democracia).

Mas, se a disputa evoluir para uma batalha de legitimidades, de interesses pessoais… o partido corre o risco de reabrir feridas antigas e fragilizar-se justamente quando mais precisa de unidade.

Uma UNITA coesa e madura poderia representar a verdadeira alternativa de governação. Porém, uma UNITA dividida serviria apenas para reanimar o partido no poder e adiar, mais uma vez, o sonho da alternância.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A candidatura de Rafael Massanga Savimbi é, acima de tudo, um teste à maturidade política da UNITA, e, por extensão, à própria democracia angolana. O partido precisa provar que é capaz de integrar a força do passado com a visão do futuro.

Não se trata de escolher entre Savimbi e Adalberto, mas de entender que Angola precisa de ambos. Se souber gerir essa disputa com grandeza, a UNITA não apenas consolidará a sua liderança na oposição, mas mostrará ao país que a mudança é possível pela via da razão, do diálogo e da maturidade política.

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