
Problema no fornecimento de Jet A-1 em Windhoek leva a Discover Airlines a introduzir escalas técnicas em Luanda. Pelo menos dois voos foram afectados, enquanto o transporte de carga também sofreu restrições. Angola ganha protagonismo como alternativa logística para a aviação regional.
Uma falha no fornecimento de combustível de aviação na Namíbia está a obrigar aeronaves da Discover Airlines, do Grupo Lufthansa, a efectuar escalas técnicas em Luanda para reabastecimento antes de prosseguirem viagem para a Europa.
A situação afecta as ligações entre Windhoek, capital namibiana, e as cidades alemãs de Frankfurt e Munique. Segundo a imprensa namibiana e a agência Reuters, pelo menos dois voos foram desviados para Luanda nos dias 19 e 20 de Agosto, respectivamente, para garantir o combustível necessário à continuação da viagem.
A origem do problema está num carregamento de combustível Jet A-1 recebido no porto de Walvis Bay que não passou nos testes de qualidade de rotina.
A Vivo Energy Namibia, empresa do grupo Vitol responsável pelo fornecimento de combustíveis no país, confirmou que o produto foi imediatamente colocado em quarentena e isolado, não tendo sido introduzido na cadeia de abastecimento da aviação.
A empresa iniciou uma investigação para determinar a causa da não conformidade e procura fontes alternativas de abastecimento.
Apesar de a expressão “combustível contaminado” ter sido utilizada por vários órgãos de comunicação social, os dados disponíveis indicam, de forma mais precisa, que o carregamento não cumpriu as especificações de qualidade exigidas. A Vivo Energy não divulgou, até ao momento, a natureza exacta do problema detectado.
Perante a redução das reservas disponíveis no Aeroporto Internacional Hosea Kutako, em Windhoek, a Discover Airlines decidiu manter os voos, mas acrescentar uma escala em Luanda para abastecimento.
A companhia realiza cerca de dez voos semanais entre Windhoek e Frankfurt e Munique, fazendo destas rotas algumas das principais ligações directas da Namíbia com a Europa.
Os passageiros permanecem a bordo durante a operação de abastecimento em Luanda e, segundo a companhia, os viajantes que perderem ligações devido aos atrasos serão automaticamente reacomodados.
A paragem adicional pode aumentar em cerca de duas a três horas o tempo total de viagem, segundo informações do sector aeronáutico.
O impacto ultrapassa, por isso, a simples operação de abastecimento, podendo afectar horários, conexões de passageiros e a gestão da carga transportada nos aviões.
A situação levou também a Lufthansa Cargo a informar clientes sobre restrições ao carregamento de carga a partir de Windhoek. Uma comunicação divulgada pela imprensa namibiana indicava inicialmente que as limitações poderiam vigorar até 23 de Agosto, embora a própria transportadora tenha advertido que o prazo estava sujeito a alterações.
O episódio expõe a vulnerabilidade da cadeia de abastecimento energético da Namíbia. O país não dispõe actualmente de uma refinaria de petróleo e depende da importação de combustíveis refinados.
O Jet A-1 chega por via marítima através de Walvis Bay e precisa depois de ser transportado para Windhoek, o que acrescenta etapas logísticas entre o porto e o principal aeroporto internacional do país.
A Namibia Airports Company, entidade responsável pela gestão dos aeroportos do país, confirmou estar a acompanhar as dificuldades no fornecimento de Jet A-1 no Aeroporto Internacional Hosea Kutako e afirmou estar a trabalhar com fornecedores, autoridades e companhias aéreas para reduzir os efeitos sobre as operações.
A questão ganha ainda maior relevância porque a Vitol recebeu, em Maio, um acordo de fornecimento exclusivo de combustível por três meses, numa medida adoptada pelas autoridades namibianas num contexto de volatilidade dos preços internacionais e de perturbações nas rotas de abastecimento.
A Reuters sublinha, contudo, que a actual escassez resulta de um problema local de qualidade no fornecimento e não directamente das tensões geopolíticas no Médio Oriente.
A interrupção do abastecimento aéreo tem implicações que vão além do transporte de passageiros. Na Namíbia, sectores exportadores dependem do transporte aéreo para produtos perecíveis, incluindo peixe fresco, carne refrigerada e frutas.
O deputado da oposição Independent Patriots for Change, Rodney Cloete, alertou para os riscos económicos de uma interrupção prolongada, argumentando que a capacidade nominal de armazenamento de combustível não deve ser confundida com a existência efectiva de reservas disponíveis para abastecer aeronaves.
A Hospitality Association of Namibia considerou, por outro lado, que o problema ainda não representa uma ameaça grave para o turismo, uma vez que os voos continuam a ser realizados, embora com atrasos e alterações operacionais. A organização defendeu, contudo, uma resolução rápida para evitar danos à imagem da Namíbia enquanto destino turístico.
Para Angola, a utilização do Aeroporto Internacional de Luanda como ponto alternativo de abastecimento coloca em evidência a capacidade do país para responder a necessidades extraordinárias da aviação comercial na África Austral.
A operação demonstra que Luanda pode funcionar não apenas como destino ou ponto de conexão, mas também como infra-estrutura de contingência para rotas internacionais que atravessam a região.
Num cenário de maior integração dos mercados da África Austral, a disponibilidade de combustível, serviços de assistência em escala e capacidade aeroportuária pode tornar-se um factor de competitividade logística.
O porta-voz da Câmara de Comércio, Agropecuária e Indústria do Cunene, Jerónimo António, considera que o episódio deve ser encarado como uma oportunidade para Angola reforçar a sua posição como plataforma logística e aérea regional, aproveitando a localização geográfica do país e a capacidade de Luanda para responder a situações de emergência operacional.
A questão ganha particular interesse para o sul de Angola, uma vez que a proximidade geográfica com a Namíbia pode favorecer, a médio prazo, uma maior integração logística entre os dois mercados.
Uma crise pontual de abastecimento em Windhoek acaba, assim, por demonstrar como as infra-estruturas de um país podem assumir importância estratégica para os seus vizinhos.
Até ao momento, as informações disponíveis apontam para uma perturbação local e temporária, sem suspensão generalizada das ligações aéreas entre a Namíbia e a Europa.
A Discover Airlines mantém os voos, recorrendo a Luanda como ponto intermédio de abastecimento, enquanto os fornecedores procuram fontes alternativas de Jet A-1.
A Vivo Energy Namibia indicou que qualquer novo carregamento deverá ser submetido a testes independentes e certificação antes de ser colocado no mercado, mas não apresentou uma data definitiva para a chegada do próximo fornecimento.