
Mais de metade dos angolanos já considerou a possibilidade de deixar o país para viver no estrangeiro, com a Europa a surgir como o destino mais desejado. A tendência é particularmente acentuada entre os jovens, os cidadãos com maior nível de escolaridade, os residentes nas zonas urbanas e as pessoas empregadas, segundo dados do Afrobarómetro.
Os resultados fazem parte do relatório “African Insights 2026: Beyond Borders – Citizen Perspectives on a Shifting Global Order”, divulgado em Agosto pelo Afrobarómetro, que analisa as percepções dos cidadãos africanos sobre migração, comércio internacional, influência das grandes potências, papel de África nas decisões globais e alterações climáticas. O estudo resulta de 50.961 entrevistas presenciais realizadas em 38 países africanos durante 2024 e 2025.
No caso de Angola, os dados utilizados pelo relatório têm por base 1.200 entrevistas realizadas entre 27 de Março e 19 de Abril de 2024, pelo parceiro nacional Ovilongwa.
A amostra é representativa da população adulta e apresenta uma margem de erro de cerca de três pontos percentuais, com um nível de confiança de 95%.
Os números mostram que 57% dos angolanos já pensaram em emigrar, sendo que 38% afirmam ter pensado “muito” nessa possibilidade. Entre os potenciais emigrantes, a Europa é o destino preferido, com 39%, seguida da América do Norte, com 21%, e da África do Sul, com 10%.
A procura de melhores condições económicas aparece como o principal motor deste desejo. Entre os angolanos que já consideraram sair do país, 37% apontam a procura de oportunidades de emprego como principal razão, enquanto 34% mencionam as dificuldades económicas. O dado reforça a associação entre a intenção de emigrar e a percepção de falta de oportunidades no país.
A propensão para emigrar não é, contudo, uniforme. Os residentes em áreas urbanas apresentam uma intenção muito superior à dos habitantes das zonas rurais: 70% contra 34%. Entre os jovens, a proporção chega aos 66%, contra 32% entre os cidadãos com mais de 45 anos.
Os angolanos empregados também apresentam uma maior predisposição para emigrar, com 66%, enquanto a percentagem varia entre 43% e 60% entre os que não têm emprego.
A escolaridade constitui outro factor relevante. Entre os angolanos com níveis de instrução mais elevados, 72% a 74% dizem ter considerado a possibilidade de emigrar, contra percentagens entre 27% e 44% entre os grupos com menor escolaridade. Luanda apresenta igualmente uma das maiores intenções de saída, com 78%, seguida pela região Norte, com 65%.
O relatório enquadra Angola entre os 16 países, dos 38 analisados, onde a maioria da população considera emigrar. No conjunto do continente, porém, a tendência é menos pronunciada: 45% dos africanos dizem ter pensado pelo menos “um pouco” em mudar-se para outro país. A proporção sobe entre os jovens e os cidadãos altamente escolarizados.
Na África Austral, Angola aparece entre os países onde o desejo de emigrar é maior. O país surge atrás apenas do Zimbabué, segundo os dados apresentados no estudo, enquanto na maior parte dos restantes países da sub-região a maioria da população prefere permanecer no seu território.
A nível continental, 50% dos potenciais emigrantes dizem que procurariam outro país sobretudo por razões de emprego, enquanto 29% apontam a necessidade de escapar às dificuldades económicas. A Europa é igualmente o destino preferido em África, com 32%, seguida da América do Norte, com 28%.
O relatório identifica ainda uma mudança na dinâmica migratória africana. Embora a maioria dos cidadãos do continente continue a preferir permanecer nos seus países, a proporção dos que consideram emigrar aumentou na última década.
Entre 2016/2018 e o actual ciclo de estudos, cresceu em sete pontos percentuais a parcela de africanos que dizem ter pensado “muito” em deixar o seu país.
Uma relação ambivalente com a imigração
Os mesmos cidadãos que manifestam vontade de procurar melhores condições fora do país apresentam uma posição mais complexa em relação à entrada de estrangeiros em Angola.
No estudo sobre Angola, 71% dizem não ter reservas em viver junto de imigrantes ou trabalhadores estrangeiros, enquanto 65% manifestam uma atitude tolerante em relação a refugiados.
No entanto, quando a questão é o impacto económico da imigração, os angolanos dividem-se: 40% consideram que os estrangeiros contribuem positivamente para a economia, enquanto outros 40% entendem que o impacto é negativo.
A percepção de concorrência económica reflecte-se também nas políticas defendidas pelos cidadãos. 56% dos angolanos consideram que o Governo deveria reduzir ou eliminar a entrada de candidatos estrangeiros à procura de emprego, enquanto uma maioria semelhante defende restrições à entrada de refugiados.
A tendência angolana acompanha, em parte, o quadro continental. No conjunto dos 38 países, 77% dos inquiridos dizem que gostariam ou não se importariam de ter imigrantes como vizinhos, mas as opiniões dividem-se quando se avalia o impacto económico: 45% consideram positiva a presença de trabalhadores estrangeiros e 44% negativa. Ao mesmo tempo, 64% defendem a redução ou eliminação da entrada de trabalhadores estrangeiros.
Para o Afrobarómetro, estes resultados revelam uma aparente contradição: os africanos mostram abertura à mobilidade e à presença de estrangeiros no plano social, mas tornam-se mais cautelosos quando a imigração é associada à disputa por emprego e oportunidades económicas.
O relatório conclui que a defesa da integração regional dependerá, em grande medida, da capacidade de demonstrar benefícios concretos, como criação de emprego, oportunidades e prosperidade partilhada.
Poucos conhecem a Zona de Comércio Livre Africana
Outro dado relevante do estudo é o reduzido conhecimento sobre a Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA). Apenas 13% dos angolanos dizem já ter ouvido falar da iniciativa, uma percentagem praticamente idêntica à média continental.
A falta de conhecimento contrasta com o apoio ao comércio livre. No conjunto dos 38 países analisados, 62% dos africanos consideram que o comércio com outros países pode beneficiar as suas economias, enquanto maiorias em 32 países apoiam a liberalização comercial.
Em Angola, a mobilidade transfronteiriça também divide a opinião pública: 41% defendem que os cidadãos da África Austral deveriam ter liberdade para atravessar fronteiras para viver e trabalhar, enquanto 38% preferem que os governos mantenham restrições à circulação de pessoas e bens.
Quase metade dos angolanos, 46%, considera difícil ou muito difícil atravessar fronteiras internacionais na África Austral.
África quer maior peso nas decisões globais
O relatório mostra ainda uma crescente procura por maior influência africana na ordem internacional. 71% dos africanos defendem que os países do continente devem ter maior influência nas decisões de organismos internacionais, como as Nações Unidas.
Em Angola, essa questão também reúne uma parcela significativa da população, embora abaixo da média continental. Os dados apresentados para o país indicam que 48% defendem uma voz africana mais forte na tomada de decisões globais.
A posição é particularmente relevante num contexto em que a União Africana procura maior representação nas instituições multilaterais e reivindica reformas no sistema internacional, incluindo no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
No conjunto, o relatório traça o retrato de uma África que quer maior integração económica e maior peso político internacional, mas que continua confrontada com dificuldades económicas e oportunidades limitadas.
No caso angolano, o elevado desejo de emigrar surge como um dos sinais mais evidentes dessa tensão: uma parcela significativa da população, sobretudo jovem e escolarizada, vê no estrangeiro uma alternativa para encontrar emprego e melhorar as condições de vida.
O Afrobarómetro sublinha, contudo, que pensar em emigrar não significa necessariamente que a pessoa venha efectivamente a abandonar o país. Os dados medem a consideração da possibilidade de emigrar, e não a existência de planos concretos ou processos de saída.