
Uma análise realizada pelo especialista Diego Seguro, CEO da Onks Growth e professor de Inteligência Artificial na Universidade Anhembi Morumbi, concluiu que os sites de notícias angolanos são mais consumidos através do Facebook do que nos próprios portais.
O estudo examinou 422 publicações de 50 páginas de informação durante o ano de 2025, cruzando dados de 4,5 milhões de utilizadores da plataforma, actualmente, a rede social mais influente no país.
Os resultados mostram que as categorias “Internacional” e “Política” lideram o engajamento, representando juntas quase metade de todas as interações registadas.
A área “Internacional” acumulou 318.953 interações (24,89%), seguida pela “Política”, com 286.300 (22,35%), refletindo o peso da agenda política nacional e o interesse crescente do público angolano em dinâmicas globais.
A pesquisa identifica ainda um fenómeno inesperado: a categoria “Tecnologia”, apesar de representar apenas 2,18% do volume de publicações analisadas, regista um dos melhores desempenhos médios, com 1.029 interações por post e um total de 36.029 interações.
Segundo o autor, isto demonstra que a audiência angolana procura conteúdo especializado e de qualidade, especialmente entre os utilizadores mais jovens.
Em contraste, temas estruturais como “Educação”, “Saúde” e “Ambiente” acumulam apenas 4,19% de todo o engajamento.
As três áreas, fundamentais para o desenvolvimento do país, somam menos de 30 mil interações combinadas, revelando dificuldades em captar atenção na disputa pelo espaço digital.
O estudo destaca igualmente uma diferença marcante entre páginas independentes e estatais. Plataformas como Club-K, Angola News e Novo Jornal apresentam níveis de interação consistentemente superiores aos meios públicos, apesar de disporem de menos recursos.
Para Diego Seguro, esta vantagem resulta da aposta em conteúdos mais críticos, investigativos e próximos da audiência.
O Facebook consolida-se, assim, como o principal “quiosque digital” de Angola. Muitas publicações recebem mais interações na rede social do que nos próprios sites dos órgãos de comunicação, desafiando modelos tradicionais de distribuição de notícias.
Esta dependência reforça questões como a influência algorítmica, a dificuldade de monetização e o risco de desinformação acelerada.
A análise aponta para uma transformação em curso no jornalismo angolano. Enquanto categorias especializadas mostram forte potencial, temas essenciais exigem novas abordagens narrativas.
A relação entre meios e audiência também precisa de evolução, sobretudo entre plataformas estatais que enfrentam dificuldades em promover interação orgânica.
Com mais de 1,2 milhões de interações avaliadas, o estudo levanta a questão central: o ecossistema mediático está a oferecer ao público aquilo de que realmente necessita ou apenas o que mais gera cliques?
Para o especialista, o caminho passa por equilibrar relevância e impacto, lembrando que o bom jornalismo deve priorizar informação, contexto e capacitação cidadã e não apenas viralidade.
A pesquisa abrangeu páginas nacionais, independentes, estatais e agências internacionais com foco em Angola, com dados recolhidos exclusivamente a partir da atividade no Facebook durante o ano de 2025.