
O Grupo Naval, liderado pelo empresário eritreu Ghebre Tecleab e pelo seu filho Simon Tecleab, está entre os grupos empresariais que ganharam uma posição relevante no fornecimento de produtos alimentares em Angola, incluindo no universo de abastecimento da Polícia Nacional, que prevê gastar mais de 4,3 mil milhões de kwanzas em alimentação dos efectivos durante 2026.
Segundo o Plano Anual de Contratação do Comando Geral da Polícia Nacional, consultado pelo Imparcial Press, estão previstos 4.347.636.281,80 kwanzas para a aquisição de géneros alimentícios, entre peixe, carne, arroz, feijão, farinha, óleo alimentar, massas, conservas, leite, frutas e outros produtos destinados às unidades policiais em todo o país.
O volume de compras públicas coloca o abastecimento alimentar da corporação num mercado de vários milhares de milhões de kwanzas, no qual empresas com capacidade de importação, distribuição e produção industrial passaram a disputar uma fatia significativa dos contratos.
É neste contexto que surge o Grupo Naval, cuja estrutura empresarial em Angola inclui a Foodtec, dedicada à transformação de cereais e produção alimentar, a Refitec, especializada na refinação de óleos vegetais, a Higitec, ligada a produtos de higiene e limpeza, e a Naval Distribuição.
O próprio grupo apresenta ainda operações de logística e distribuição integradas na sua cadeia de negócios.
A liderança do conglomerado está concentrada na família Tecleab. Ghebre Tecleab é o presidente do Conselho de Administração, enquanto Simon Tecleab exerce as funções de presidente executivo (CEO). Aron Tecleab é o director de operações (COO) e Eduardo Barbosa ocupa o cargo de director financeiro.
Simon Tecleab, que dirige o grupo desde 2016, afirmou à multinacional Bühler que o conglomerado já realizou mais de 350 milhões de dólares em investimentos industriais em África e emprega mais de três mil trabalhadores. Entre os principais projectos estão precisamente a Foodtec, a Refitec e a Higitec.
A relação do grupo com estruturas do Estado angolano também é visível através dos vários projectos industriais apresentados às autoridades.
Em Agosto de 2024, por exemplo, o então governador de Luanda, Manuel Homem, actualmente ministro do Interior, visitou as obras da Refitec, na zona da Boavista.
O projecto, apresentado pelo director financeiro Eduardo Barbosa, estava avaliado em mais de 90 milhões de dólares e previa a criação de 400 postos de trabalho.
É neste contexto que o Grupo controlado pela família Tecleab torna-se o segundo maior fornecedor da alimentação da Polícia Nacional, atrás do Grupo Carrinho. Entrada ocorre num momento de forte expansão industrial e aproximação do conglomerado às estruturas do Estado.
O Grupo Naval General Trading passou a integrar, em 2025, o grupo de fornecedores do pacote logístico alimentar da Polícia Nacional de Angola (PNA), assumindo a posição de segundo maior fornecedor em volume financeiro, com uma dotação anual de cerca de 23,97 mil milhões de kwanzas, equivalentes a aproximadamente 28,8 milhões de dólares.
Os dados indicam que o pacote alimentar anual da Polícia Nacional está avaliado em cerca de 130,39 mil milhões de kwanzas, ou aproximadamente 157,4 milhões de dólares. O Grupo Carrinho mantém a liderança, enquanto a Naval surge à frente de Mokbel e Camaruf.
A mesma publicação indica que, antes da entrada da Naval, o fornecimento alimentar das unidades operacionais da Polícia Nacional era assegurado por três empresas: Grupo Carrinho, com 76,06 mil milhões de kwanzas; Mokbel, com 18,86 mil milhões; e Camaruf, com 11,5 mil milhões.
Gilson dos Santos Antunes Carmelino, director nacional de Planeamento e Finanças do MININT, é o principal interlocutor institucional do grupo no Ministério do Interior.
A aproximação institucional não se limitou à visita às instalações. Em Outubro de 2025, o Grupo Naval recebeu nas instalações da Foodtec uma reunião da equipa económica da Comissão Económica do Conselho de Ministros com operadores da indústria de bens alimentares, encontro promovido pelo Ministério da Indústria e Comércio.
Outro sinal da importância que o grupo passou a assumir na estratégia económica nacional foi a parceria estabelecida com a International Finance Corporation (IFC), membro do Grupo Banco Mundial.
Em Dezembro de 2025, a IFC e o Grupo Naval assinaram acordos para melhorar as cadeias logísticas de importação e exportação de grãos e insumos agrícolas e apoiar produtores nacionais através de modelos de fomento agrícola.
No plano institucional, Ghebre Tecleab recebeu ainda uma distinção directamente do Presidente da República. O empresário consta da lista oficial de personalidades condecoradas no âmbito das celebrações dos 50 anos da Independência Nacional e recebeu a Medalha Comemorativa dos 50 Anos da Independência, na Classe de Paz e Desenvolvimento.
A dimensão destes contactos com instituições públicas não permite, por si só, concluir pela existência de favorecimento ou de interferência política na atribuição de contratos.
Contudo, a presença do Grupo Naval em sectores estratégicos, a sua crescente capacidade industrial e a proximidade institucional demonstrada ao longo dos últimos anos tornam relevante conhecer com maior detalhe os contratos públicos que lhe são adjudicados, os valores envolvidos e os critérios utilizados na selecção dos fornecedores.
No caso da Polícia Nacional, essa transparência ganha particular importância porque o PAC para 2026 prevê mais de 4,3 mil milhões de kwanzas apenas para alimentação dos efectivos e porque o próprio documento levanta preocupações sobre alegados desvios de géneros alimentícios destinados às unidades policiais.