
O general na reforma Francisco Higino Lopes Carneiro, pré-candidato à liderança do MPLA, acusou esta sexta-feira estruturas locais do partido no poder de impedirem militantes de regularizar quotas e obter comprovativos de pagamento, numa altura em que decorre o processo preparatório do IX Congresso Ordinário da formação política, marcado para Dezembro.
Numa declaração divulgada nas redes sociais, consultado pelo Imparcial Press, Higino Carneiro afirmou nunca ter testemunhado situações semelhantes enquanto desempenhou funções de primeiro-secretário do MPLA em várias províncias do país, considerando que o congresso deste ano “fará história”.
“Há enorme vontade dos militantes em regularizarem as suas quotas atrasadas nos seus Comités de Acção do Partido. Contudo, as mesmas são rejeitadas em quase todas as províncias, designadamente nos municípios e comunas, em clara violação ao artigo 32.º dos Estatutos do MPLA”, escreveu.
O antigo governador de Luanda alegou ainda que, mesmo nos casos em que os militantes conseguem efectuar os pagamentos, as estruturas locais recusam emitir recibos, alegando “ordens superiores”, o que, segundo afirmou, inviabiliza a formalização do apoio a potenciais candidatos à liderança do partido.
“Confesso que não entendo. O MPLA precisa de dinheiro e, ainda assim, não aceita que as quotas sejam regularizadas?”, questionou Higino Carneiro, numa crítica directa aos Departamentos de Administração e Finanças (DAF) da organização.
As declarações surgem num momento de crescente tensão interna no MPLA, em que vários pré-candidatos se desdobram na recolha de assinaturas para submeter à subcomissão preparatória do congresso, depois de João Lourenço ter anunciado que vai concorrer à sua própria sucessão, tendo entregue, esta semana, mais de 11 mil assinaturas na formalização da sua recandidatura.
Nas últimas semanas, Higino Carneiro tem intensificado contactos políticos e movimentações internas para consolidar apoios à sua eventual candidatura, numa disputa que, segundo analistas políticos angolanos, poderá revelar divisões inéditas no seio do partido.
O general na reforma tem denunciado publicamente alegadas tentativas de condicionamento político ligadas à reactivação de processos judiciais que o envolvem.
Na quarta-feira, após ser ouvido pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Higino Carneiro afirmou existir uma “mão invisível” por detrás da reabertura do processo n.º 48/20, relacionado com alegadas irregularidades na aquisição de viaturas e contratos públicos durante o período em que governou a província de Luanda.
O antigo dirigente do MPLA sustenta que o processo já havia sido arquivado e considera que a sua reactivação coincide com o crescimento do apoio interno à sua candidatura.
A PGR acusa Higino Carneiro e a ex-directora do Gabinete de Estudos, Planeamento e Estatística do Governo Provincial de Luanda, Bernardeth Rodrigues, dos crimes de peculato e burla qualificada, num processo em que o Ministério Público aponta um alegado prejuízo superior a mil milhões de kwanzas ao Estado angolano.
As críticas agora dirigidas à gestão interna das quotas partidárias surgem igualmente num contexto em que vários militantes têm manifestado, nas redes sociais, dificuldades na regularização da situação financeira junto das estruturas locais do MPLA, requisito considerado essencial para participação plena na vida interna do partido e apoio formal a candidaturas.