José Ferreira Ramos: o empresário que burlou mais de 160 de pessoas e desapareceu do mapa
José Ferreira Ramos: o empresário que burlou mais de 160 de pessoas e desapareceu do mapa
José Ferreira Ramos

As autoridades angolanas terão perdido o rasto do empresário José Ferreira Ramos, proprietário do Grupo Ridge Solutions, principal rosto do polémico projecto imobiliário Jardins do Éden, acusado por dezenas de clientes de ter defraudado centenas de milhões de dólares e deixado mais de 160 famílias sem as residências prometidas.

O empresário chegou a ser detido em Maio de 2019, após interrogatório na Direcção Nacional de Investigação e Acção Penal (DNIAP), sob fortes suspeitas da prática dos crimes de burla por defraudação e abuso de confiança.

Na altura, foi conduzido ao Estabelecimento Prisional de Viana, em Luanda, no âmbito de investigações conduzidas pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC).

Contudo, semanas depois, acabou colocado em liberdade em circunstâncias que continuam a levantar interrogações entre os lesados.

Desde então, segundo várias fontes ligadas ao processo, José Ferreira Ramos terá desaparecido da esfera pública e encontra-se praticamente incomunicável, havendo suspeitas de que esteja radicado entre o Dubai e outros destinos internacionais.

O nome do empresário volta agora ao centro da polémica numa altura em que várias vítimas denunciam a paralisação dos processos judiciais e alegam ausência de medidas eficazes por parte das autoridades para localizar o empresário e recuperar os valores perdidos.

O império milionário que ruiu deixando famílias no desespero

Durante mais de uma década, José Ferreira Ramos foi apresentado como um dos empresários angolanos de maior projecção internacional. Fundador do Grupo Ridge Solutions, chegou a afirmar possuir activos avaliados em cerca de 15 mil milhões de dólares, com operações em Angola, Dubai, Abu Dhabi, Hong Kong, Luxemburgo e Portugal.

O grupo actuava em sectores como imobiliário, construção civil, agricultura, indústria, serviços financeiros e infra-estruturas.

Entre os projectos mais conhecidos figuravam os condomínios Jardins do Éden, Marimba Palace, Novo Kitulu, Zambo Condomínios e o centro comercial Kalandula Shopping.

Em entrevistas à imprensa económica internacional, o empresário exibiu uma imagem de luxo e prosperidade, revelando possuir jactos privados, iates, relógios de luxo e automóveis da marca Rolls-Royce.

Mas enquanto o império empresarial crescia mediaticamente, centenas de famílias angolanas mergulhavam numa longa batalha judicial.

O caso mais emblemático envolve precisamente o empreendimento Jardins do Éden, lançado em Luanda Sul em 2005, onde dezenas de clientes pagaram integralmente as residências prometidas sem nunca receberem as casas.

Segundo relatos das vítimas, o projecto começou a perder força por volta de 2010, deixando 169 clientes com contratos assinados, créditos bancários activos e o sonho da casa própria reduzido a promessas.

Muitas das famílias continuam, até hoje, a pagar empréstimos bancários contraídos para adquirir habitações que nunca chegaram a existir.

É o caso de Soraya Silva, uma das lesadas, que em 2009 assinou um contrato-promessa com a Ridge Solutions e contraiu um crédito habitacional de 209 mil dólares.

Dezasseis anos depois, continua sem casa própria, paga renda e mantém uma dívida bancária mensal cujo vencimento apenas termina em 2041.

“O senhor José Ferreira Ramos roubou a minha vida”, desabafou a lesada, relatando que venceu o processo em tribunal, mas nunca conseguiu executar a sentença por alegada inexistência de bens penhoráveis em nome do empresário.

Segundo denúncias, vários processos judiciais terão desaparecido dos arquivos ou permanecido anos sem qualquer evolução prática.

Acusações de burla milionária e silêncio das autoridades

Além das denúncias ligadas ao Jardins do Éden, José Ferreira Ramos é igualmente acusado de ter causado prejuízos superiores a 200 milhões de dólares à Caixa Social das FAA, num dos processos financeiros mais sensíveis associados ao empresário.

As vítimas acusam as autoridades judiciais de inércia e questionam como um empresário alvo de dezenas de denúncias conseguiu recuperar a liberdade e abandonar o país sem restrições conhecidas.

Os lesados recordam que muitos dos investimentos realizados no projecto imobiliário resultaram de poupanças acumuladas durante décadas de trabalho, envolvendo funcionários públicos, quadros bancários, militares e famílias da classe média angolana.

Apesar das várias decisões judiciais favoráveis aos clientes, os processos executivos continuam praticamente sem efeitos concretos.

A Ridge Solutions alegou, em diferentes momentos, que a ocupação ilegal de terrenos por populares dificultou a continuidade das obras. Contudo, especialistas consultados pelos próprios lesados consideram essa justificação insuficiente, defendendo que a empresa tinha obrigação legal de devolver os valores recebidos ou apresentar soluções compensatórias.

Enquanto isso, cresce o sentimento de revolta entre as famílias afectadas, muitas das quais enfrentam graves problemas financeiros, emocionais e de saúde devido à longa espera por justiça.

Algumas vítimas chegaram mesmo a dirigir cartas ao Presidente da República, João Lourenço, solicitando intervenção directa do Estado no caso.

Nos bastidores judiciais e empresariais, persistem dúvidas sobre o paradeiro actual de José Ferreira Ramos, sobre o destino dos milhões arrecadados junto dos clientes e sobre a eventual existência de protecção política ou financeira que tenha facilitado o desaparecimento do empresário do radar das autoridades.

Para muitos lesados, o caso tornou-se símbolo da impunidade económica em Angola: um empresário que construiu um império milionário, vendeu sonhos habitacionais a centenas de famílias e desapareceu sem deixar casas, indemnizações ou respostas.

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