
O kuduro, estilo musical nascido em Luanda no final da década de 1990, tornou-se, nas décadas seguintes, o maior fenómeno cultural urbano de Angola.
Com uma linguagem própria, marcada por batidas aceleradas, frases curtas e coreografias irreverentes, o género conquistou bairros, meios de comunicação social e palcos nacionais e internacionais.
Neste texto, destacamos as diferentes fases que marcaram a história do estilo:
A fase underground
Entre o final da década de 1990 e 2002, o kuduro era ainda produzido de forma rudimentar, com refrões e paranóias. É a chamada fase underground. Sebem destacou-se como a figura central desse período. A sua música Felicidade permanece até hoje como um clássico do estilo.
Nos duelos com Tony Amado, o inventor do kuduro, Sebem levava vantagem pela capacidade de animar o público, embora na dança fosse ultrapassado por Tony e os seus muchachos. Nesse aspecto, Man Sibas não qualquer hipótese.
As batalhas de Viana
A partir de 2000, o país assistiu a um dos maiores confrontos musicais do género, entre dois jovens do município de Viana que disputavam o trono local: Pai Diesel e Máquina do Inferno.
Cada um representava o seu bairro e arrastava multidões. Foi também a fase em que melodias de cânticos religiosos começaram a ser adaptadas ao kuduro, prática que caiu no gosto popular.
Emergência de novos nomes
Dessa fase underground surgiram nomes que ajudaram a consolidar o estilo, como Rei Ta Nice, Come Todas, Semal, Virgílio Faia, Dog Murras, Nacobeta, Puto Português, Bilabila, Calo Pascoal, Puto Agressivo, Zoca Zoca, Bebé Chorão, entre outros.
A era das duplas
Com o amadurecimento do género, apareceram duplas que introduziram rimas mais estruturadas, próximas ao rap: Fofando e Saborosa, Puto Prata e Noite e Dia, Gata Agressiva e Kaizanga, Nayo Crazy e Naveia.
A parceria Puto Prata e Noite e Dia sobressaiu pela longevidade, compromisso artístico e número de sucessos. Outros nomes como Própria Lixa, Paranoite, Dama Shakira e Habibo também se afirmaram.
A fase de ouro: Os Lambas e Bruno M
O auge do kuduro ocorreu entre 2004 e 2014, com a ascensão dos Lambas, inicialmente liderados por Amizade, assassinado em circunstâncias trágicas pela Polícia Nacional, após ter sido confundido com um marginal altamente perigoso do Rangel, igualmente conhecido por Amizade.
O grupo ganhou dimensão nacional com Nagrelha, que se transformou na figura pública mais popular do país, conquistando fãs em todas as camadas sociais pelo seu carisma, irreverência e timbre vocal.
Em simultâneo, Bruno M emergiu como grande rival criativo dos Lambas. Considerado o maior compositor do kuduro de todos os tempos, destacou-se pela escrita refinada e pela capacidade de inovar melodicamente.
A sua rivalidade com Nagrelha tornou-se uma das mais marcantes da história do género. Outro nome forte dessa época foi Rei Panda, igualmente reconhecido pelo talento na composição.
Este período ficou ainda marcado pelo sucesso de Puto Lila, o incomparável defensor do Rangel, e por grupos como Os Vaganda, Os Calunga Mata, Os Agre, W King, Os Mais Potentes, Bobani King, Os Caixa Baixa, Agre G, Bebo Clone, Os PP, Turma Tommy, Os Defeia, Degala “do Cambuá”, Os Granada Squad, Cazenga Squad, Rei Loy, Kamona King, The Game é Carga, Jay-Z Py (dos Babilônias), entre outros.
Não menos importantes, temas como Felicidade, Sempre a Subir, Kibeixa, Sabaló, Toca lá, Ndombolo, Wakimono, Tchiriri, Comboio, Do Milindro, Tchubila, Me dá só sangue e Defeia tornaram-se clássicos imortais.
Figuras de referência
Entre os principais protagonistas da história do kuduro, no período 2004-2014, destacam-se três nomes: Nagrelha, Bruno M e Rei Panda.
Nagrelha pelo carisma, voz e popularidade; Bruno M pela genialidade na escrita, flow, métrica e skill; e Rei Panda pelos mesmos atributos de escrita e inovação.
Importa ainda realçar a presença contínua de Noite e Dia, única artista feminina a atravessar todas as fases com sucessos consistentes, merecendo o título de Rainha do Kuduro.
Já Puto Prata, Puto Lila, a própria Noite e Dia e Pai Diesel simbolizam a persistência e a capacidade de adaptação às várias etapas do género.
Declínio e crise
Com a saída de Bruno M em 2012 e as divergências internas dos Lambas em 2014, o kuduro entrou em declínio. Houve tentativas de revitalização – como o regresso de Bruno M e a reunião dos Lambas em 2016 -, mas sem o mesmo impacto de outrora.
Actualmente, o movimento vive a sua fase mais pobre, longe da criatividade, da competitividade e do alcance social que marcaram a sua chamada “fase de ouro”. O kuduro morreu em 2014.
*Pintor de letras