
O antigo vice-Presidente da República, Manuel Domingos Vicente, afirmou que a aproximação estratégica de Angola à China, que viria a marcar a reconstrução do país no pós-guerra, resultou da incapacidade de Luanda em obter o apoio financeiro que procurava junto dos Estados Unidos e das instituições financeiras ocidentais.
A revelação consta de uma entrevista concedida à Asia Pacific Research Circle (APRC), conduzida por Isabella Martins e publicada em 1 de Setembro de 2026.
Manuel Vicente, que à época presidia à Sonangol, recordou que integrou a delegação liderada pelo então Presidente José Eduardo dos Santos numa deslocação a Washington, no final de Fevereiro de 2002.
Os registos históricos consultados colocam a visita nos dias 26 e 27 de Fevereiro de 2002, apenas quatro dias depois da morte de Jonas Savimbi.
José Eduardo dos Santos encontrou-se com o Presidente George W. Bush e com o secretário de Estado Colin Powell, numa altura em que Washington procurava apoiar a abertura de um processo de cessar-fogo e de paz em Angola.
A delegação angolana incluía, entre outros, os ministros das Relações Exteriores e das Finanças, o governador do Banco Nacional de Angola, responsáveis da Presidência, além de Manuel Vicente, então presidente da Sonangol, e Mateus Neto, presidente da TAAG.
Segundo Manuel Vicente, porém, a missão tinha também uma dimensão económica: Angola precisava de capital para reconstruir um país devastado por 27 anos de guerra.
“Não conseguimos convencer o Governo americano a dar-nos essa ajuda”, afirmou, acrescentando que a delegação procurou igualmente o Clube de Paris, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, sem obter a resposta pretendida.
A versão apresentada pelo antigo governante ajuda a explicar, na sua perspectiva, a posterior aproximação a Pequim. “Foi por isso que nos virámos para o Oriente”, afirmou, ao recordar que Angola se encontrava sem recursos financeiros suficientes para iniciar a reconstrução em grande escala.
A viragem, contudo, não produziu imediatamente a grande linha de crédito que ficaria associada ao chamado “modelo Angola”.
Em Novembro de 2003, Luanda e Pequim assinaram um acordo-quadro de cooperação económica e, em 2 de Março de 2004, o Exim Bank da China formalizou uma linha de crédito de 2 mil milhões de dólares, garantida por receitas futuras de petróleo.
O financiamento permitiu acelerar a recuperação de estradas, caminhos-de-ferro, energia, água, telecomunicações, saúde e educação.
O Banco Mundial descreve a linha de 2004 como um dos mecanismos que impulsionaram a reconstrução das infra-estruturas destruídas pela guerra, enquanto estudos sobre a relação sino-angolana passaram a designar este modelo de financiamento por “Angola mode”.
Manuel Vicente sustenta, assim, que a relação privilegiada com Pequim não nasceu inicialmente de uma escolha ideológica ou geopolítica, mas de uma necessidade financeira urgente.
Na sua leitura, Angola procurou primeiro os parceiros ocidentais e, perante a ausência de uma solução que respondesse às necessidades do país, encontrou na China uma alternativa.
O antigo vice-Presidente vai ainda mais longe e reconhece que Angola poderia ter negociado melhor os termos dos empréstimos chineses. Para Vicente, os eventuais erros cometidos nas negociações foram sobretudo da responsabilidade dos próprios angolanos, por não terem defendido com firmeza os interesses nacionais.
A declaração surge mais de duas décadas depois do início desse processo e num momento em que a relação económica entre Luanda e Pequim atravessa uma nova fase, marcada pela redução do peso dos empréstimos garantidos por petróleo e pela procura de novos modelos de financiamento e investimento.